DIVAGAR, APRENDER…
Julia Roberts volta às telonas cheia de subjetividade – e pé no chão

Por Rafaella Soares
Repórter da Revista O Grito!

Faz todo o sentido do mundo escalar Julia Roberts como protagonista da adaptação pro cinema do best-seller Comer, Rezar Amar. Não apenas pelo mérito evidente de ser há pelo menos 20 anos a mocinha de comédias românticas e dramas mais cotada e assistida de Hollywood – e aqui cabe mais uma grata admiração, do que observação factual.

No papel de Elizabeth Gilbert, a escritora que vendeu milhões de livros com o relato da sua experiência de começar do zero após o divórcio, Julia Roberts, essa pós-balzaca casada e com filhos gêmeos, mantém o interesse de quem assiste e não decepciona, no papel que a trouxe de volta ao cinema palatável sem ser definitivamente cabeça de vento, depois do insosso Duplicidade (2009). Esta tudo lá, começando pelo sorrisão indefectível.

Se a produção de Julia tem ficado mais profícua, o bom sinal para os fãs é o ganho no seu trabalho, a partir da diminuição de certos cacoetes, que por vezes tornavam seu trabalho mais caricatural. E convenhamos, filme de Julia, é filme de Julia. A menos que estejamos falando de Lado a Lado, onde duelou com honra pelo destaque com Susan Sarandon.

O filme tem todos aqueles elementos que conectam de imediato o espectador (a) com a ruiva (se for mulher então, a razão cresce exponencialmente). Aliás, aqui ela aparece galega, e com um certo ar de fragilidade – humanismo define melhor – que nós já tivemos a oportunidade de ver na performance de Closer (2004).

Sem dúvida a narrativa cresce quando Liz parte para uma viagem à Itália. Lá, entre certas figuras caricaturais que conhece, ela passa a experimentar nuances da vida cotidiana e afetiva que estavam adormecidos numa vida monótona e sem muito propósito. Mais do que o conceito simplório de viajar e mudar de ares, começando um redirecionamento significativo na vida, a jornada serve para retratar uma situação bem comum para muitas pessoas: o vazio quando se tem tudo tido como importante e necessário e permanecer anestesiado. Quem disse que não é legítimo? Dicionário em punho, a personagem vai se despindo de vaidades e despertando para detalhes significativos da existência comum, fora de NY.

As relações humanas foram simplificadas ao ponto de as pessoas tomarem como regra eventos tão distintos como realização financeira, amorosa e social para mensurar o sucesso e a felicidade. É claro que fica difícil em um filme comercial não diluir questões mais profundas como espiritualidade. Mas ao que se propõe, Comer Rezar, Amar, dá uma perspectiva, quase um alento, para ser guardado em situações limites, quando o diagnóstico de que algo não vai bem – e o impulso para se transformar isso – deve partir da determinação de ser feliz.

COMER REZAR AMAR
Ryan Murphy
[Eat Pray Love, EUA, 2010]

NOTA: 7,0

Sem mais artigos