Fila para comprar um ingresso e na hora de entrar, poucos lugares disponíveis na platéia. Esse foi o cenário da Fundação Joaquim Nabuco no último domingo, 20 de abril, na última sessão do festival É tudo verdade, que passou 3 dias por aqui (18,10 e 20 de abril) e exibiu em sessões gratuitas 6 documentários sempre a partir das 17h. O penúltimo filme da mostra, A Paixão Segundo Callado, biografia do escritor brasileiro, tinha lugar sobrando e silêncio antes da sessão no famoso café da Fundação para comentar o filme. Já no segundo e último… talvez seja o clima de Cine-PE, com início no dia 27 de abril ou mesmo a estrela do documentário Coração Vagabundo: Caetano Veloso.

A sala fica escura e uma jovem vem agradecer a participação de todos. É, o clima era mesmo de Cine-PE. Mas quando a tela da Fundação deu a tão esperada subida para dar formato à projeção, quem veio nos convidar foi o mais famoso cantor da MPB, tropicália, música neo-moderna, clássicos pernambucanos e atualmente com carreira internacional e em inglês. Surge na tela o mito Caetano, estrela do documentário conhecido nos bastidores por sua inteligência e respostas diretas, sem muito “arrudeio” e bate papo por aí.

Mas o convite é feito por um Caetano diferente. A primeira cena, antes mesmo dos créditos, é com a sua maravilhosa esposa, mostrando o marido nu, fazendo a barba, de relance só para dar o gostinho de quero mais na platéia. Sim, o Caetano de Coração Vagabundo é o cantor e escritor Caetano Veloso, na sua melhor faceta.

O documentário não é biográfico e acompanha o artista em duas de suas milhares de viagens para divulgar seu novo trabalho internacional, em Nova York e na China. Nos bastidores, Caetano se solta e mostra o que tem de melhor: inteligência. Mas este da grande tela não é o mesmo da televisão e dos bastidores da fofoca. É um Caetano apenas com profissão cantor, mas que dorme, sonha, sente medo e vergonha. Quem imaginaria o astro da música brasileira com vergonha de dar uma entrevista nos Estados Unidos? O inglês é bom, aliás, excelente, mas não o suficiente para temer um grande espetáculo em uma das mais famosas casas de show de Nova York.

O show em Nova York traz uma outra faceta de Caetano: ele não é astro sempre e derruba o mito que todo artista acha outro artista igual. Quando ele conhece Giselle Bündchen depois do show na metrópole americana, não consegue esconder o sorriso. A esposa brinca, mas mostra ciúmes. Mas como ela mesma diz, “gaia de ouro vale, se é para levar gaia que seja com Giselle Bündchen”. E Caetano? Brinca pedindo o telefone da modelo, mas mostra seu amor crescente cada vez mais pela esposa, com selinhos de despedida.

De figura ilustre não há apenas Giselle Büchen em Coração Vagabundo. Afinal, é Caetano Veloso, não é? Conhecido até na China. Em uma visita engraçadíssima na terra oriental, o cantor encontra um fã da sua música e título do documentário em um templo budista. É, Caetano Veloso é sucesso em todos os continentes. Mas a figura ilustríssima vem de suas próprias palavras. Quando está com a voz um pouco ruim, fala com a produção que “a partir de agora vocês vão fazer um documentário estilo Antonioni”. A produção foi carinhosa e trouxe ninguém menos que o próprio, o cineasta Michelangelo Antonioni comentando uma das cenas preferidas do cantor. De cinema, além de entender, Caetano já participou. Fez uma ponta no filme de seu fã, o cineasta Pedro Almodóvar. Em Fale com Ela, ele canta em um bar para embargar os olhos das personagens. Isso é Caetano Veloso, com direito a elogios rasgados do cineasta guardados para a posteridade em película agora.

Um Caetano que poucos conhecem mais com certeza arrastou novos fãs na exibição de Coração Vagabundo em Recife. O astro também é barrado na alfândega, fala “pau” em referência ao seu órgão genital e é tímido ao reconhecerem seu talento nas ruas. Mas também é um cantor ciente de sua participação na historia musical e revolucionária brasileira, pensamento que trouxe sua grande coragem de ousar. “Estou num estágio de ousar, não me importo com a rejeição do público e crítica, já fiz demais pela música”, comenta. Talvez deixar-se ver nesse documentário seja mais uma ousadia ou excentricidade, que deu certo.

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