Os desenhos de Sandman não são exatamente um primor, diferente do roteiro de Gaiman

SANDMAN PARA PRINCIPIANTES
Prelúdios e Noturnos, primeiro volume da série de Lorde Morpheus propôs uma nova forma de pensar os quadrinhos de autor e movimenta o mercado de HQs até hoje
Por Germano Rabello, especial para O Grito!

Desde seu lançamento, em dezembro de 1988, a série Sandman agitou o mundo dos quadrinhos e conquistou fãs no mundo inteiro, angariando até leitores que não tinham afinidade com HQs. O arco inicial da série, batizado de Prelúdios e Noturnos, coleta os números de 1 a 8 da revista, e é essencial pra entender o porquê desse impacto.

Neil Gaiman acha que os primeiros capítulos desta saga são desajeitados. Como roteirista de quadrinhos, esta seria a primeira vez que ele estava fazendo uma revista mensal. O mesmo vale para seus companheiros na feitura de Sandman: os artistas Sam Kieth e Mike Dringenberg, e o colorista Robbie Busch. Mas talvez tenha sido exatamente isso o que faz dessa coleção algo tão precioso. Parece que estavam todos muito ansiosos em experimentar coisas novas. Tem algumas coisas fora do lugar mesmo, mas as idéias geniais superam os pequenos defeitos do roteiro e principalmente da arte.

O principal gancho da série é a maneira como ela constrói sua própria mitologia a partir de uma série de elementos de várias culturas. Aproveitar seres mitológicos não é exatamente novidade nos quadrinhos, vide a existência de Thor, Hércules, etc. no universo Marvel, por exemplo. Mesmo nos quadrinhos adultos, havia na mesma época a inteligentíssima série Bacchus, de Eddie Campbell, lançada em 1987, e que também trazia mitologia para o tempo presente. Pós-moderna é palavra muito usada para definir a maneira como Gaiman misturou suas referências culturais. O personagem principal, Morpheus (ou Sonho ou Sandman) é um dos sete Perpétuos e governa o mundo dos sonhos. Neste arco conhecemos uma de suas irmãs, Morte – os demais irmãos aparecem nos volumes seguintes.


Foi com Sandman que se endossou o chamado “quadrinhos adultos”

É preciso ter em mente que na época havia um sopro de renovação nos quadrinhos, e no epicentro desse processo estava Alan Moore. Diante dos roteiros brilhantes de Moore em Monstro do Pântano, Watchmen e outras obras, a DC, editora americana, se viu obrigada a procurar na Inglaterra novos talentos. Assim veio a migrar para os quadrinhos americanos uma geração de autores britânicos, como Grant Morrison, Peter Milligan, Jamie Delano, etc. Gaiman foi sem dúvida o que mais se destacou em termos de reconhecimento da crítica e público. Mas ainda assim, todos os roteiristas dessa época devem muito à criatividade de Alan Moore, e a série Monstro do Pântano prefigurou muitas das características narrativas do Sandman.

Uma das tendências desses roteiristas ingleses era justamente a maneira esperta de aproveitar velhos personagens reformulando-os, trazendo de volta personagens pouco conhecidos. O Sandman original da DC surgiu em 1939, criado por Gardner Fox como um simples combatente do crime. Quando Gaiman apresentou a proposta de um título retomando o personagem (que teve mais duas encarnações no Universo DC), a editora Karen Berger pediu que ele aproveitasse o nome, mas criasse um conceito totalmente novo. Gaiman criou um novo Sandman, ao mesmo tempo que usava do riquíssimo acervo da editora para encaixar antigos personagens na trama, tais como os irmãos Caim e Abel, trazidos de volta dos gibis de terror dos anos 70. Neste volume temos convidados do porte de John Constantine, Ajax, Senhor Milagre e Etrigan. A participação de Constantine é a parte mais fraca desse arco, um capítulo que não diz a que veio. Fora essas participações, há muitas alusões, referências a músicas, filmes e literatura.

Quando Neil Gaiman consegue costurar todas as referências direito, ele o faz de maneira brilhante. A primeira HQ, “O Sono dos Justos” é o perfeito exemplo disso. Contrapõe pequenas narrativas de casos da doença do sono – a encefalite letárgica, que de fato foi um epidemia na Europa no começo do século – com a narrativa principal, em que Morpheus é capturado e aprisionado por ocultistas. Outra referência histórica interessante, o mago fictício Roderick Burgess é rival do maior ocultista daquela era, Aleister Crowley.


Sandman é aprisionado por ocultistas que acreditam se tratar de Morte

Estética
A prisão de Morpheus numa redoma se interliga os distúrbios do sono e até mesmo o surgimento do Sandman da era de ouro (Wesley Dodds). “O Sono dos Justos”, por si só, já bastaria pra explicar o porquê de tanta badalação em torno da série. Sobre os desenhos, o primeiro arco estava a cargo de Sam Kieth, que no entanto desenhou os cinco primeiros números e caiu fora, dizendo “estar tocando na banda errada”. Os números seguintes são de Mike Dringenberg, originalmente o arte-finalista. Kieth é um grande artista, com talento para o grotesco e para o humor, e diagramações muito inspiradas – no entanto, ele NÂO SABE desenhar o personagem principal, que na mão dele fica excessivamente caricato, e mesmo alguns personagens que deveriam ser mais sinistros ficam caricatos e engraçados. Sua arte serviu muito bem aos cinco primeiros números da série, tirando a história do Constantine. Aí veio o Mike Dringenberg. É um desenhista tecnicamente inferior a Kieth, sobretudo em termos de anatomia, mas por outro lado ele desenha Morpheus bem e dá a identidade visual definitiva ao personagem. E faz experiências interessantíssimas com colagens. No entanto, é sempre bom explicar aos neófitos que em geral não devem esperar um trabalho virtuosístico dos artistas de Sandman.

A virulência do personagem John Dee e até mesmo a loucura narrativa dos capítulos em que ele é o personagem principal são testemunhas de um tempo em que o Sandman era realmente uma caixa de surpresas. Gaiman afirma que em cada um desses capítulos tentava explorar diferentes gêneros. De fato, este é o Sandman em sua forma embrionária e mais perigosa e promíscua. Essa característica a série foi perdendo um pouco. Das 75 edições de Sandman, poucas são realmente geniais, e a maioria delas está coletada em “Prelúdios e Noturnos”.

SANDMAN – PRELÚDIOS E NOTURNOS
Publicado originalmente em Sandman # 1 a # 8 (1988 – 1989)
Relançado pela Conrad Editora, em 2003, em edição de luxo.
Autores: Neil Gaiman (texto), Sam Kieth, Mike Dringenberg (arte)

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