Nosferatu

INOCÊNCIA DO OLHAR E A ETERNA PROCURA DA FELICIDADE EM MURNAU
Cineasta alemão leva os personagens de seus filmes a uma constante luta entre o moralismo pacato e a necessidade de satisfazer a luxuria dos desejos em busca da plena felicidade
Por Fernando de Albuquerque

F.W. Murnau (foto ao lado) é um gênio. Para lá de reconhecido no mundo, o diretor alemão, a partir dos DVDs disponíveis no Brasil (Nosferatu, A Última Gargalhada, Tartufo, Fausto, Aurora e Tabu), apresenta o conflito entre natureza e civilização, entre uma busca pelo olhar inocente e o artificialismo que regula e que sustenta as relações dos homens em sociedade.

Em Tabu, último longa-metragem do diretor antes de morrer aos 43 anos, é o filme-chave para interpretação e compreensão livre desse cineasta que, aqui, exibe com clareza toda sua perspicácia ao relatar a luta de um jovem casal numa ilha paradisíaca no Taiti, contra a lei que se coloca entre eles de forma implacável. Na trama, há de um lado o amor enquanto força transcendente pois verdadeira, que se fundamenta nas emoções e nos sentimentos; do outro, existe o código que o reprime, uma vez que se baseia na ilusão, nos artifícios criados pela racionalidade humana para, através da interdição da mulher escolhida pelos deuses, manter a unidade cultural dos vários povoados dispersos pelas ilhas.

O amor também se encontra no cerne do enredo em Aurora e Fausto. Aurora, o primeiro filme do diretor nos EUA, mostra que a união do casal que vive no campo é ameaçada pela amante proveniente da cidade e desperta no marido o sonho da agitação urbana. Murnau opõe a eternidade do amor entre os protagonistas – simbolizada no re-casamento na igreja, seguida da inserção de travelling do casal caminhando em imagem de rua movimentada até o beijo que paralisa o mundo – à efemeridade ocasionada pelo meio urbano, mundano e frívolo por excelência. Notável é a sequência em que mostra a viagem de bonde que leva George O’Brien e Janet Gaynor do campo para a cidade, a qual transcorre a partir de suaves mudanças na paisagem exterior, sintetizando séculos de movimentos migratórios, desde os cercamentos na Inglaterra seiscentista.

Já em Fausto, ele aponta o amor do herói por seu par romântico como a única força capaz de libertar o personagem título da dominação nefasta de Mefistófeles e, assim, redimir a humanidade de suas faltas e de seus sofrimentos. Da mesma forma que ao marido de Aurora, são as tentações mundanas que afligem Fausto, o qual acaba seduzido pela aparência de juventude, e pela chance de usufruir dela, oferecida pelo demônio.

E toda essa dialética permanece na obra de Murnau. Em Tartufo, o moralista aproveitador do filme exibido para a empregada interesseira, que pouco a pouco envenena o patrão, e o põe contra o sobrinho, a fim de adquirir a herança. Em ambos os filmes, como também nos demais, está em jogo o questionamento da moral humana. Os amantes devem fugir, mesmo que sob risco da morte, ou se submeter à lei em Tabu? O marido afoga a esposa e marcha para a cidade ou a reconquista, pedindo-lhe perdão, em Aurora? A heroína necessita realmente se entregar em sacrifício a Orlok, símbolo máximo das paixões mundanas e sexuais em Nosferatu?


Fausto

É de Fausto, porém, a representação mais clara, no cinema de Murnau, dos dilemas morais que afetam o homem. Paraíso e inferno, anjo e demônio: a oscilação humana entre ambos, dada nossa procura pelo mínimo de felicidade, e a batalha perpétua da verdade contra a mentira, da inocência contra o artifício, da natureza contra a civilização.

Trailer – Nosferatu Trecho – Fausto
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