QUERELLE É DE TODOS NÓS
Selvageria, volúpia e desejo sem limite é a principal marca da obra prima do diretor Rainer Fassbinder
Por Fernando de Albuquerque

O que passava na cabeça de Rainer Werner Fassbinder quando filmou Querelle, o romance existencialista e explicitamente homoerótico de Jean Genet? Provavelmente, um misto incógnita de paixão e ódio cujo resultado artístico é inegável, principalmente na fotografia e nos figurinos de Bárbara Baum e Egon Strasser que, mais tarde, serviram de inspiração para Gaultier formatar uma de suas coleções mais famosas. O filme encarna, a cada cena, um conto de violência, paixão e intensa submissão sexual em cenários estilizados e propositadamente artificiais do porto de Brest. Tudo com torres em forma de pênis e outros símbolos pra lá de fálicos.

Lançado em 1982, depois da morte de seu diretor, Querelle é um filme deliciosamente perigoso. Nele não há prazer, mas apenas um tipo de desespero sufocante que faz o espectador se asfixiar no interior de cenários que aprisionam o olhar e o senso em obsessivos tons de amarelo e laranja que ressaltam o calor e o ocaso de uma vida que, se repleta de volúpia, caminha rumo à acidez da autodestruição. Lá, a razão é feita, exclusivamente, de sofrimento. E o próprio sado-masoquismo assim deve ser. Sempre repleto de uma beleza arrebatadora, mas que é contraditoriamente feia, que beira o desgosto e é recheado de amor.


O marinheiro Querelle é puro desejo de fornicação que se expressa na típica selvageria do sexo masculino

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O enredo conta um pequeno trecho da vida de um marinheiro amoral cuja sensualidade é oferecida para a admiração e gozo de todos. Depois de matar o companheiro, ele se refugia num sórdido bordel à beira-mar onde começa por descobrir sua homossexualidade. Em outro ponto está Franco Nero, o comandante que sucumbe à seu charme boêmio e masculino. Noutro está Jeanne Moreau, uma cantora recoberta por um glamour desprezível, e que também o deseja. E nessa torrente de desejo não há o menor naturalismo. Toda palavra, toda cena, cada gesto é estudado, artificial, até mesmo a própria abordagem do homosexualidade partir do texto de Genet. O próprio foi um personagem e tanto. Delinqüente, ladrão, presidiário, gay, acabou sendo resgatado por Sartre e Cocteau, que descobriram seu gênio e obrigaram a França conservadora a encará-lo, antecipando processo semelhante ao que ocorreria na Itália com Pier-Paolo Pasolini. Genet não queria compreensão para os homossexuais, não queria integração social.

Quem faz Querelle é o ator Brad Davis, que havia feito Expresso da Meia-Noite, de Alan Parker, em 1978 (com roteiro vencedor do Oscar de Oliver Stone). No Expresso, Davis faz o jovem americano que conhece o inferno numa prisão na Turquia, para onde é levado, por porte de haxixe. Uma estação no inferno – homossexualismo, violência, tortura. O inferno continua em Querelle, mas agora é interno (apesar da violência externa). A homosexualidade é amplamente selvagem, marginal. E nessa perspectiva poderíamos dizer que Querelle é Genet e o próprio Fassbinder já que os três transgridem a si mesmo, são reféns da própria persona.

Uma das frases, “Todo homem mata aquilo que ama”, pontua a subversão em Querelle. Há um crime, que acaba por envolver várias pessoas, as que desembarcam no porto e as que vivem ali. Quem morreu? Quem de fato matou? O que Querelle tem com toda essa história? Fica no ar. Toda a ordem se perverte de uma forma encantadora e fica difícil observar o personagem com olhos que não sejam os da vontade de fodê-lo várias vezes, sem a menor compaixão, em todas as posições possíveis.

QUERELLE
Rainer Werner Fassbinder
Alemanha/França, 1982
Disponível em DVD pela Versátil.

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