Por Rodrigo Carreiro*

Uma noção básica do contexto histórico da década de 1950 é obrigatória para compreender O Dia Em Que a Terra Parou (The Day The Earth Stood Still, EUA, 1951), um dos principais marcos do cinema fantástico na história do cinema. Todo o enredo do filme está ajustado para a época inicial da Guerra Fria, quando a paranóia sobre a possibilidade do fim do mundo começava a atingir níveis estratosféricos, com a rivalidade cada vez mais encarniçada entre EUA e URSS. A produção de bombas atômicas cada vez mais poderosas deixava evidente que o mundo poderia acabar a qualquer momento. Então o cineasta Robert Wise pensou: e se um ser alienígena extremamente evoluído viesse à Terra para alertar os líderes mundiais sobre o perigo?

Embora a trama seja simples e direta, o longa-metragem lançou todo um subgênero importante para a ficção científica – filmes sobre invasões de extraterrestres – e chocou muita gente por causa do uso arrojado de efeitos especiais. O subtexto político e a criação dos efeitos, aliás, estão entre os assuntos abordados num documentário de 80 minutos que vem como principal extra do DVD duplo lançado no Brasil pela Fox, dentro do selo Cinema Reserve.

Para construir o roteiro do longa-metragem (escrito por Edmund North), o diretor aproveitou um conto de ficção científica escrito onze anos antes, por Harry Bates. Bastou adaptar a história às circunstâncias históricas certas. Assim, a abertura do filme não perde tempo: um disco voador pousa em Washington, capital dos EUA, e dele descem um alienígena de aparência 100% humana, Klaatu (Michael Rennie), e um robô gigante, Gort. Amedrontados, os militares norte-americanos ferem o extraterrestre, o que provoca uma reação violenta do robô indestrutível. Ele lança raios que desintegra armas e tanques, mas o ferimento de Klaatu não foi grave e este paralisa o robô. Tudo isso acontece em menos de 10 minutos de filme.

Klaatu é simples e direto. Deseja um encontro com os líderes de todas as nações da Terra. Ele vem de um planeta localizado a 600 milhões de quilômetros, com uma mensagem de paz e preocupação. Os aliens descobriram que “uma forma primitiva” de energia atômica está sendo utilizada na Terra, e temem que o poder recém-descoberto possa pôr em perigo outras civilizações. Por isso, resolvem interferir. Se os terráqueos insistirem na produção de armas atômicas, poderão ter o planeta pulverizado.

Sem conseguir reunir os chefes das nações, contudo, Klaatu decide se misturar à população para conhecer um pouco mais sobre o povo da Terra. Ele se hospeda em uma pequena pensão na periferia de Washington e faz amizade com um garoto, Bobby (Billy Gray). A convivência do extraterrestre entre os humanos ocupa quase toda a trama de O Dia Em Que a Terra Parou. Embora seja uma ficção científica, o filme é econômico no uso de efeitos especiais, que estão concentrados principalmente nos primeiros minutos.

São efeitos gloriosos para a época. As cenas em que o disco sobrevoa e pousa em Washington ainda impressionam pela verossimilhança. Se o macacão espacial e a “roupa” de Gort parecem trajes humanos mal-costurados, o mesmo não pode ser dito das seqüências em que o robô lança raios pelos olhos (mais ou menos como Ciclope, dos X-Men) e desintegra objetos e pessoas. Os efeitos visuais podem parecer toscos no século XXI, mas impressionavam na época e representam um marco para a produção de filmes do gênero em Hollywood.

Embora seja um diretor esforçado mas não brilhante, Wise foi esperto o bastante para convidar jornalistas verdadeiros e respeitados nos EUA para fazerem breves aparições, no início e no final do longa-metragem, como eles mesmos. Dessa forma, o diretor desejava – e conseguiu – dar um ar de verossimilhança à trama. Além disso, à exceção da abertura, não existem seqüências de ação no filme, o que facilitou sua penetração entre platéias mais velhas, que entendiam o recado do enredo. Talvez por causa disso, O Dia Em Que a Terra Parou foi além do conceito de filme descartável e se transformou no tipo de clássico primitivo que funcionou como musa inspiradora para dezenas de cineastas do futuro, George Lucas e Sam Raimi entre eles (os dois citariam o filme em obras como Guerra nas Estrelas e Uma Noite Alucinante).

Embora continue a ser lembrado pelos efeitos óticos visionários e pela imortal frase “Klaatu Barada Nikto” (que não tem tradução, mas deve ser pronunciada caso o robô fique violento), O Dia Em Que a Terra Parou é um dos libelos pacifistas mais interessantes de Hollywood, especialmente por ter sido produzido numa época em que a política externa da nação norte-americana era extremamente agressiva e egocêntrica.

O DIA EM QUE A TERRA PAROU | The Day The Earth Stood Still
Robert Wise
[The Day the Earth Stood Still, 92 min, EUA, 1951]


* Rodrigo Carreiro é jornalista, crítico de cinema e editor do site PE360 Graus. Escreve resenhas no site Cine Repórter.
Sem mais artigos