A EPOPÉIA DA VIOLÊNCIA
Épico do diretor nova-iorquino Stanley Kubrick é uma das principais representações da guerra do Vietnã e se divide em duas partes: primeiro os recrutas se enchem de patriotismo e depois a narrativa os encaminha a loucura completa e ao suicídio. Tudo expresso em plasticismo e pura agressividade
Por Fernando de Albuquerque

NASCIDO PARA MATAR
Stanley Kubrick
[EUA, 1987]

A ação de tirar o fôlego, a história dramática, os diálogos caústicos, o humor corrosivo e o treinamento rigoroso ao pesadelo do combate em Hue City, fazem de Nascido Para Matar um marco do cinema mundial. Aqui Kubrick destrói toda a pureza e inocência que cerca a juventude exibindo, sem concessões, as agruras de jovens que vão à guerra sem o menor preparo emocional. E a primeira pergunta que vem a mente depois de assistir ao filme é o quê foi feito para ressocializar esses jovens soldados quando a guerra acabou? O horror aqui é exibido com a máxima crueza que merece, e, em nenhum momento, o diretor responsabiliza os jovens soldados que foram enviados ao Vietnã.

O título nacional é considerado errado por muitos e pode até confundir o espectador já que foi influenciado pelo belo cartaz do filme. Nenhum dos jovens do grupo do amalucado Sargento Hartman (interpretado por R. Lee Ermey) tem perfil de matador. Muito menos o soldado Pyle ( magistralmente incorporado pelo ator Vincent D’Onofrio), um gordinho sem jeito, que encontra na espingarda e em suas balas totalmente cobertas de metal (Full Metal Jacket – título original do filme), sua utilidade para o exército norte-americano. Pyle é alvo da ira dos colegas porque o Sargento o coloca nessa posição, e a maneira como isso terminou só tem um culpado, os métodos selvagens do exército ianque incorporado aqui pelo Sargento Hartman, que por sua vez sabe que é o único método para transformar jovens imaturos em soldados prontos para matar.

Feito numa época em que a guerra do Vietnã estava bastante em foco, com diversos filmes sobre o tema (desde Rambo até Platoon), Nascido Para Matar consegue se diferenciar dos demais, já que aqui o objetivo não era propriamente mostrar o conflito em si. O foco está na juventude jogada na arena da guerra. Aqui não precisamos ver a guerra, mas o efeito dela nos envolvidos.

De início, vemos esses jovens, tendo os cabelos raspados o que faz com que tudo soe como “animais sendo tosados para o abate”, e é assim que eles são vistos. A partir dessa cena inicial, o filme se divide em três atos: O primeiro mostra o difícil treinamento dos recrutas; depois vemos um pouco dos bastidores da guerra; e por fim, a própria guerra, com os soldados tendo que passar por um território devastado em conflito. Todos esses três atos são costurados através do personagem de Mathew Modine, o recruta Joker que narra a história. Se considerando o mocinho dessa batalha, ele muitas vezes demonstra certo desprendimento, como se não fosse ser atingido por aquilo tudo que ocorre, mas cada um dos três atos do filme é finalizado quando Joker presencia a morte de alguém (na verdade, são duas a cada fim de ato), pondo em xeque toda a paz de espírito que ele sente em relação à guerra.

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Trailer

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