Cena do filme La Jetée / Diração: Chris Marker (França, 1962)

PEQUENOS FRAMES ENSOLARADOS
Cinema pouco palatável, La Jetée se desvia de nominações e convida o espectador a interpretá-lo
Por Rafaella Soares, especial para O Grito!

“A linguagem é como uma pele: com ela eu entro em contato com os outros.” A frase, do escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês – forte candidato ao impessoal adjetivo ‘multimídia’ nos dias de hoje – Roland Barthes, define como é particular para cada indivíduo a experiência de se expressar.

Algumas das mais bem sucedidas incursões do homem pela arte carregam intrinsecamente uma certa estranheza, própria de tudo aquilo que é vanguarda, novo de fato. E novo, diga-se de passagem, quanto à atualidade contínua de seus estímulos – uma vez que a verdadeira obra de arte não é perene.

La Jetée, película francesa de 1962, é um exemplo perfeito de cinema pouco palatável. Não é nouvelle vague. Não é neo-realismo. Não é cinema novo. Não é Tarcoviski, nem tampouco Eisenstein. Ainda que, no mundo subjetivo das representações imagéticas, qualquer sinal estético seja interpretado em perspectivas tão diferentes por cada um.

O filme, constituído apenas de fotografias, sobriamente narradas, consegue em apenas 28 minutos concisos, guiando pausadamente o espectador, conduzi-lo por uma viagem onírica de violência, memória, passado e futuro, sem oferecer, no entanto, esse passeio de forma linear.

Curiosa tal retratação do modo como imagens, sonhos, ou simplesmente nossas impressões externas ganharem vida a ponto de pertencerem a um universo próprio cerebral. Ou intimista, também. Afinal, são os dois hemisférios que dão conta de armazenar e interpretar a vida, como se observa. Voltamos a contrariar mais um clichê: cinema não necessariamente é movimento – Godard discordaria com veemência, bradando, cabelos revoltos, em alguma reunião da Cinemathèque Française que “O cinema é a verdade a 24 quadros por segundo”. Ao que o brilhante diretor Cris Marker retrucaria com “Toda a recusa de uma linguagem é a morte”.

A intersecção entre passado e presente é um tema explorado com freqüência no cinema, desde títulos clássicos até alguns que caíram já no universo pop. Veja alguns:

Estranhos Prazeres
(Strange Days, 1995 – EUA)
Direção de Kathryn Bigelow. Com Ralph Fiennes, Juliette Lewis

Nos últimos dias de 1999 em Los Angeles, um ex-tira (Ralph Fiennes) negocia com CDs contendo informações sobre emoções e memórias de outras pessoas. Desta maneira, um homem casado “vai para cama” com outra mulher e não é infiel. No entanto, quando um disco que contém informações gravadas por uma prostituta assassinada que testemunhou um crime vai parar nas mãos deste ex-policial sua vida corre perigo, pois se o conteúdo for revelado uma reação popular inimaginável pode acontecer na cidade.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
(Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004 – EUA)
Direção de Michel Gondry. Com Kate Winslet, Jim Carey

Cobaia de uma máquina experimental que apaga memórias afetivas, Joel desiste no meio do processo de apagar Clementine de sua cabeça, e passa a encaixá-la em eventos da sua história que ela não viveu. Sucesso indie de Michel Gondry, o filme também foi um sucesso de bilheteria e revelou que o talento dramático de Jim Carey sobreviveu além da direção de Milos Forman (em O Mundo de Andy) e do superestimado O Show de Truman.
Roteiro bem sucedido pela simplicidade com que conduz um assunto complexo eticamente, uma vez que é perfeitamente possível num futuro próximo ser usado esse expediente para solucionar insucessos amorosos.

Clube da Luta
(Fight Club, 1999, EUA)
Direção de David Fincher. Com Edward Norton, Brad Pitt e Helena Borham Carter.

Filme emblemático de uma geração, Clube da Luta (David Fincher) conseguiu o sucesso de um blockbuster com uma temática pró-contracultura (a cena final encerra o pesadelo yuppie mais temido). Um executivo neurótico (vivido por Edward Norton, insuperável) trava um embate psicológico e corporal com seu alter ego ( Brad Pitt, em excelente momento), Tyler Durden, enquanto abandona seu seguro e previsível mundinho corporativo para envolver-se num universo de violência, terapia de grupo e romance com uma junkie.
Mais conhecido no Brasil como o filme que estava sendo exibido quando um maluco estudante de medicina entrou numa sala de São Paulo e assassinou alguns espectadores, Clube da Luta hoje figura entre os nomes contemporâneos mais citados em qualquer top list.


Trecho de La Jateé

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