OS CAMINHOS DO CINEMA VERDADE
Filme de Edgard Morin e Jean Rouch fazem um minucioso estudo do ser humano e da sociedade francesa nos anos 60 lançando as bases para aquilo que seria o cinéma-vérité
Por Fernando de Albuquerque

CRÔNICA DE UM VERÃO
Jean Rouch e Edgar Morin
[Videofilmes, 1961]

O que você faria se Jean Rouch e Edgar Morin o abordasse, munidos de uma câmera portátil e um microfone, em uma rua qualquer, lhe perguntando: “Você é feliz?” Eu, sem margem para dúvida, agarraria Ruch pelo pescoço e num ato de desespero forçaria o estupro a fim de arrancar toda inteligência do cineasta ao gozo. E responderia: “Isso é felicidade!” Mas Rouch e Morin não encontraram nada mais que dramas pessoais pouco mirabolantes e oriundos da working class parisiense. Boa parte das declarações que ambos obtiveram são fruto de sonhos aprisionads pelas circustâncias de seus entrevistados.

O filme foi amplamente ovacionado pela platéia de Cannes, em 1961, ano de seu lançamento e reconhecido como o filme-manifesto do chamado Cinema Verdade fundado, 20 anos antes, pelo russo Dziga Vertov com seu autoproclamado “cinema-olho”. Mas quem conseguiu fazer disseminar esse estilo com proeza foi, de fato, Rouch em suas andanças pela África inscrevendo-se em situações pra lá de verídicas. Crônicas De Um Verão é um divisor de águas da não-ficção. Os flagrantes do dia-a-dia dos personagens, abordados ao léu, dão a tônica de um exercício de metalinguagem pouco conhecido até aquele momento.

De um lado, a crônica que leva o título no filme questiona o próprio cinema e as possibilidades máximas de realização de um documentário. Em outro extremo interroga o tempo a partir dos diálogos e das conversas travadas entre os que fazem e aqueles que participam do filme. A influência de Flaherty e Vertov são nítidas. Ao ponto que os diretores lançam mão de elementos estilísticos da crônica enquanto gênero literário. A crônica se constrói a partir de um aprofundamento do olhar direcionado a algo.

As histórias e vivências que são exibidas são acompanhadas pela singularidade que envolve a palavra. O documentário, então, dirige aos sujeitos um olhar que humaniza e individualiza a trajetória “homens e mulheres que deram momentos de sua existência a uma experiência de cinema-verdade” (Rouch, Crônica de um verão). Dessa forma, seria simplista acreditar que o filme busca, a partir dos depoimentos somente ilustrar os acontecimentos históricos que se desenrolaram no contexto socioeconômico, político e cultural francês daquela época. E tudo isso na pele de personagens como Angelo, Marceline, Nadine, os filhos de Morin, e muitos outros.

Com os diálogos do filme é possível entrar em contato com com algo sobre o tempo. E é Deleuze quem fala dessa quebra do tempo e da conseqüente quebra do modelo de verdade e Crônicas se mune desse rompimento para compor sua própria construção e afetar a própria percepção do espectador. Quem assiste é capitaneado pela utilização de uma narração cristalina, mas que não aspira ser totalmente verdadeira, que faz as descrições dos fatos apontando para uma falta de discernimento entre o real e o imaginário. A potência do falso é aproveitada artisticamente criando um novo estatuto da narração que deixa de ser verídica.

E por isso não há somente a proposta de se querer saber como aqueles franceses viveram naquele verão. Mas de lapidar, através da aproximação com o real (mas que ao mesmo tempo é ilusório já que são personagens) das respostas dadas, procurando na fala dos participantes como as experiências provocam e condicionam a vida de todo o dia.

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