POLÍTICA DO ESCRACHO
Nos anos de chumbo, Chico Anísio e Arnauld Rodrigues criaram o Baiano & Os Novos Caetanos para tirar sarro dos tropicalistas e da ditadura
Por Alan Luna

Vedete do pós-modernismo, o pastiche foi uma das bandeiras do movimento tropicalista. O deboche e a ironia punham por terra as noções de bom e mau gosto, do brega e do chique. Como todo movimento que se torna canônico, porém, o tropicalismo foi tragado pelo mainstream e passou, ele próprio, a se prestar a estereotipizações.

A pedra virou vidraça. E um dos golpes mais certeiros desferidos contra ela foi a dupla Baiano & os Novos Caetanos, formada pelos humoristas Chico Anísio (hoje na geladeira da Globo) e Arnauld Rodrigues (atualmente no kitsch A Praça É Nossa). O nome da dupla, extraído de um quadro do Chico Anísio Show, é uma brincadeira com dois totens tropicalistas: Caetano Veloso e o grupo Novos Baianos.

A dupla estreou com um disco homônimo em 1974. E o mais surpreendente é que a piada não perdeu a graça. Ainda hoje, a audição do álbum é interessante. Primeiro, pelo motivo óbvio: é engraçadíssimo ao tirar sarro dos trejeitos, dos tiques e dos cacoetes dos tropicalistas. E aí entram a baianidade malemolente, a fala mansa, o papo-cabeça.

Segundo porque, sem ser chato, o disco tem um discurso político (não esquecer que os tempos eram de chumbo). “Vô Bate Pa Tu”, ao mesmo tempo em que tira onda com as letras de viés estruturalista/concretista, lembra os cagüetes da ditadura (Deduração / um cara louco / Que dançou com tudo / Entregação com dedo de veludo / Com quem não tenho grandes ligações). Já “Urubu” tá com raiva do boi e uma estocada no “milagre econômico”, que, muitas vezes, estava mais no discurso ame-o-ou-deixe-o que propriamente na vida cotidiana.

Há ainda um terceiro elemento que o torna interessante: a sonoridade. Acredite: a dupla tinha uma banda azeitada, que praticamente não deixa nada a dever, por exemplo, aos originais Novos Baianos (o que não é uma tarefa assim tão fácil). “Véio Zuza”, que versa sobre uma espécie de Mãe Menininha do Gantois da dupla, é tambem uma musica pop de levada interessante.

O negocio deu tão certo que Baiano e os Novos Caetanos lançaram outros discos. Estes, embora tenham, aqui e acolá, bons momentos, seguem, na maioria das vezes, o caminho oposto ao da estréia: são discos de comediantes – e só. Ainda assim, Baiano e os Novos Caetanos (o disco de estréia e a dupla) é um capitulo da nossa música que merece ser (re)descoberto. Dá pra rir. Dá para se divertir. Dá até pra pensar

BAIANO E OS NOVOS CAETANOS
Baiano e os Novos Caetanos
[1974]
Atualmente esgotado, disponível para download na web.

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