A HUMILDADE GENIAL DE TOM ZÉ
“Trocava tudo que eu fiz por ‘Ai se eu te pego”, disse o músico durante sua primeira apresentação instrumental

Por Guilherme Athaide
De São Paulo

O cenário simples que compunha o palco podia ser visto como uma pequena metáfora do que estaria por vir. No fundo, uma cortina escura delimitava o espaço dos músicos, uma espécie de parede composta de variadas formas, como elementos urbanos e instrumentos musicais, todas coladas e bordadas sobre o pano preto. Era um mosaico no qual um feixe de luz branco em círculo na região central representava algo que poderia ser uma lua. Mas o que importava e chamava atenção era o mosaico na “parede”. Talvez a melhor representação gráfica de Tom Zé – um mosaico cultural.

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Ao entrar no palco, o músico deixou seus 76 anos de idade em algum lugar bem longe do Sesc Consolação, em São Paulo. Pulando e se dirigindo à plateia, chamou ao seu lado cada um os músicos que o acompanhava: Daniel Maia (guitarra), Jarbas Mariz (bandolim, viola 12 cordas e percussão), Cristina Carneiro (teclados) Felipe Alves (contrabaixo) e Rogério Bastos (bateria). O espetáculo foi marcado pela inquietude do músico, gesticulando muito enquanto conversava com a plateia ao mesmo tempo em que se dirigia para sua banda e falava fora do microfone voltando o rosto para a plateia se desculpando por falar fora do microfone ao passo que o retirava do pedestal para poder andar pelo palco para divagar na tentativa de recordar qual palavra seria mais certeira para terminar a frase que falava.

Parte do projeto Instrumental Sesc Brasil, o show teve transmissão ao vivo pela internet e foi gravado pela SescTV. Numa mistura de ironia e prestação de serviços, Tom Zé precedia cada música dizendo seu título, oportunidade para divertir o público. “Pessoal da TV, fique esperto que essa é ‘Ave Dor Maria’. Ponham aí nas letrinhas para o pessoal de casa”, disse antes de começar a tocar a primeira música da noite. Em outro momento, arrancou gargalhadas da plateia ao dizer que a música que apresentaria era “daquele disco com o cu na capa”, referindo-se ao álbum Todos os Olhos (1973).

“Ai se eu te pego” é coisa de gênio! Trocaria tudo que eu fiz por ‘Ai se eu te pego’, pela simplicidade genial da frase – Tom Zé

Tom Zé só se posicionaria no centro do palco na segunda metade do show. Até esse momento, o músico apresentou-se sentado ao lado de sua banda, dispostos num semicírculo que privilegiava o conjunto em si, não apenas o cantor. Talvez um traço da “humildade grandiosa” que ele citaria mais tarde naquela noite.

Em parte do show, Tom Zé ficou em um semi-círculo que privilegiava a banda como um todo (Fotos Guilherme Athaide)

Em parte do show, Tom Zé ficou em um semi-círculo que privilegiava a banda como um todo (Fotos Guilherme Athaide)

Mosaico Instrumental
Todo o repertório era de canções repensadas para serem apresentadas apenas na forma instrumental, sem a voz de Tom Zé. Segundo ele, foi um grande desafio “arquitetar” o show, já que era a primeira vez em sua carreira em que realizava esse tipo de apresentação. Por outro lado, a música instrumental foi “uma descoberta de prazer para a banda”, segundo ele mesmo. Mas a motivação para o show foi simples: “Lá em dezembro os músicos me falaram para aceitar qualquer show que aparecesse no começo de janeiro para pagar as contas do fim de ano”.

Na segunda canção apresentada, o mosaico de Tom Zé já estava aberto e maravilhava a plateia. “Pisa na Fulô”, composição de João do Vale, ganhou instrumentação de jazz, sem deixar a tradição nordestina de lado. Foi uma mescla interessante e a parte curiosa ficou por conta do pequeno instrumento amarelo que Tom Zé soprava, soltando um som parecido com o barulho de patos.

Foi difícil para muitos da plateia permanecerem sentados quando o triângulo de Jarbas Mariz começou a tinir e a tecladista Cristina Carneiro transformou o som de suas teclas numa sanfona no arranjo instrumental de “Xique-Xique”, “que é um sucesso em casa de forró”, como acertou Tom Zé. A tecladista ainda protagonizou um dos momentos mais bonitos do show ao tocar “Assum Branco” num solo de piano.

Outro solo curioso foi o do baterista Rogério Bastos. Ele se movimentava para tocar o instrumento, mas não encostava as baquetas na bateria. Os sons dos pratos, bumbo e caixas eram todos simulados oralmente por Bastos. Um solo de bateria sem tocar bateria. Quando falou sobre os músicos, Tom Zé fez questão de dizer que não se tratava de uma banda, mas de um grupo. Além disso, falou que quando foram tocar com ele tiveram que ter humildade. “Mas humildade não é abaixar a cabeça e aceitar tudo. Humildade é grandeza”.

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Teló
Ao final da apresentação, o Sesc organizou um vídeo-chat (que pode ser conferido na íntegra no site do projeto Instrumental Sesc Brasil), no qual Tom Zé respondia perguntas da plateia e de internautas. Ele parecia buscar dentro de sua cabeça a palavra perfeita para cada frase, mesmo ali, numa conversa informal. Questionado pela Revista O Grito! sobre esse mesmo esforço no processo de criação musical, Tom Zé empostou à voz um tom que era meio irônico e meio admirador verdadeiro. Mas completamente indecifrável.

“Existem pessoas que, mesmo sem a visita de todas as musas, conseguem captar do cotidiano coisas geniais que vivemos, como por exemplo ‘Ai se eu te pego’. Quantas vezes você não fala isso na rua? ‘Ai se eu te pego’ é coisa de gênio! Trocaria tudo que eu fiz por ‘Ai se eu te pego’, pela simplicidade genial da frase. Pessoas como eu, que preciso ficar 2 horas por dia para compor 8 compassos, tem um trabalho mais árduo na hora de compor”.

Enquanto a cortina do fundo do palco permanece com os mesmos retalhos, naquela noite de segunda-feira Tom Zé inseriu novas formas em seu mosaico. E ajudou a formar o painel cultural de todos que foram assistí-lo.

* Guilherme Athaíde é jornalista e mora em São Paulo

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