GRACIOSA MÚSICA DE BIKINI
Cantora paulista presenteou o público lisboeta com cinco showcases, em que a beleza das canções despidas provou que a sua arte não é efêmera

Por Pedro Salgado
Colaboração para a revista O Grito!, em Lisboa

O relativo desconhecimento da sua música em Portugal, e a aventura do formato acústico, conferiam à divulgação do disco Efêmera uma aura de mistério, mas também de boas expectativas. Conhecidos os dados iniciais, Tulipa e o seu irmão Gustavo Ruiz embarcaram na primeira experiência europeia de uma forma muito determinada, e confiante, como resultado do trabalho anteriormente realizado.

Primeira paragem, não elétrica, na FNAC do Cascais Shopping, na tarde de 23 de Março. E uma certeza de que as músicas despidas também podem encantar teve um nome: “Pedrinho”. Desconstrução após desconstrução, Tulipa e o seu tranquilo parceiro foram animando um auditório pouco composto, mas interessado numa artista que se empolgava com a atuação e revelava à vontade na interpretação acústica.

Das atuações nas FNACs dos Shoppings Colombo, Vasco Da Gama e de Alfragide resultou um crescendo de público e animação, em que começava a vir ao de cima o charme da cantora e o encanto das inflexões tímbricas de um “Brocal Dourado” ou a quase orgásmica “Do Amor”. A tradicional generosidade do público português casava com uma ideia de deslumbramento, e de momento suspenso, na magia da interpretação e as palmas sucediam-se.

Mais interessante e substancial, na forma e no conteúdo, o showcase de despedida no Space Lisboa, de 25 de Março, congregou um público notívago e interessado. Houve grande empatia na faixa “Só Sei Dançar Com Você”, com a cantora a tapar a mão com a boca, cantando numa forma abafada, e em que as pessoas presentes entoaram o refrão. Arte pura na simulação vocal de um kazoo, em “Efêmera”, e alguns trejeitos clássicos.

Se é verdade que Tulipa emana jovialidade, emoções e visceralidade, bem patente na cover de Caetano Veloso, “Da Maior Importância”, a faixa que grudou nos shows, a sua arte de exímia contadora de histórias também ficou bem patente em Lisboa. “O brocal está entre a purpurina e o glitter”, explicou. E acrescentou com graça: “gostava de inventar uma máquina gigante para dispará-lo em todo o mundo”.

Na arte de conversão da eletricidade em bikini musical estão também os acordes aveludados de Gustavo Ruiz, dialogando com a sua irmã em “Às Vezes” e captando os gestos e o momento certo da sua linguagem corporal. No encore, o refrão de “Pontual” foi substituído por “Portugal, Portugal, Portugal” e a inédita versão despida de “A Ordem das Árvores” fechou a noite. Com Lisboa rendida ao par, a comitiva partiu à conquista de Londres e Paris.

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