DJ Mehdi vs A-Trak (Divulgação)
DJ Mehdi vs A-Trak

MIL E UMA BATIDAS
DJ brasileiro confere o Sónar 2008, cada vez mais pop, apostando em nomes hypados, mas ainda assim com estrutura e som surpreendentes
Por Lúcio K*, especial para O Grito!, de Barcelona. Fotos: Sónar/ Divulgação

Imagine um Skol Beats em Barcelona, um dos maiores centros turísticos da Europa. Em resumidas palavras, o Sónar é isso. Sempre tive a idéia de que era um festival que priorizava novas tendências, experimentalismos e nomes promissores, mas parece que, cada vez mais, as atrações são mais pop – basicamente todo mundo que é hypado pela mídia de música “alternativa”. O que não fez o festival menos surpreendente, já que mesmo comparando com as melhores edições do Skol Beats, as atrações foram melhores escolhidas, a estrutura de som/luz/vídeo é BRUTAL, o lugar da edição noturna, há 5 anos, é uma espécie de um enorme e bem estruturado centro de convenções.

Esse ano anunciaram que na sexta-feira (segundo dia do festival, de 3) esperavam 40% a mais de publico. Ainda bem que não deu lotação, porque mais cheio do que estava ia ser desconfortável. Chutando por alto, umas 15 mil pessoas dançando na maior alegria até as 7 da manha, horário em que saí. A assessoria oficial divulgou que ao todo, nos 3 dias de dia e de noite, foram 85 mil pessoas.

Dubstep
Verifiquei um pouco de alguns DJs clássicos, como Richie Hawtin e Frankie Knuckles, e nomes mais hypados como Justice e Hercules and Love Affair, que não me surpreenderam; fiquei ligado mais nas novas tendências.
Assim que cheguei, fui conferir o meu primeiro set de dubstep, com um DJ inglês chamado Mala. Primeiro set in loco, pois o dubstep é isso: só faz sentido em um enorme sistema de som. O drum’n’bass é a “ciência” das batidas aceleradas e cheias de subgrave; já o dubstep é a “ciência” do subgrave. A batida é econômica e minimalista e as linhas de baixo são todas de subfrequências, às vezes uma só nota durando 8 compassos. Esse subgrave que dá a onda. Lá no meio desse minimalismo, aparecem alguns elementos as vezes como synths, samples ou MC ao vivo, soltando umas frases, sem mandar o rap linear que funciona em outros ritmos como o drum’n’bass. Basicamente a onda do reggae levado a extremos sensoriais.

O clima estava descontraído. Duas vezes desconhecidos me ofereceram um “porro” (mas eu eu consegui levar a noite inteira sem drogas, nem sequer uma mísera cafeína, um único chiclete com aspartame!). Tudo que consumi foram água, 2 fatias de melancia [sandia, 1,30 euros], 1 pêssego [melocoton 1,30], uma maçã verde [me deram] e de manhã um mix de castanhas e frutas desidratadas [2,00] compradas num posto 24h.

Apesar dessas novas tendências terem ficado na menor pista (menor sistema de som, a única sem telão), o sound-system estava ótimo: não estava agressivo, e o grave envolvente. A 10 metros das caixas, mesmo sentindo o nariz e o céu da boca vibrarem com o grave, dava pra conversar numa boa.

A cada linha de baixos subgraves que estouravam nas caixas, o público vibrava. Aí está um ritmo produzido especificamente para sistemas grandes. Não teria a menor chance no Brasil, onde essa “tecnologia” de sistemas de som com atenção no subgrave ainda não chegou. Como o dubstep não faz o menor sentido em caixas caseiras ou num fone de ouvido (que não reproduzem essa onda do subgrave no corpo), é um ritmo que não tem o menor futuro comercial (venda de musicas pro grande publico), por exemplo. Até mais do que ritmos como techno ou drum’n’bass, deve ser curtido naquele contexto, in loco, como falei acima.

Buraka Som Sistema
Realmente o luso-angolano Buraka tem uma pegada muito boa, o Lil’ Johnny, o produtor “cabeça” do grupo, é muito talentoso em grooves e timbres, e o resultado é um som original, interessante, que mexeu todo mundo. Houve um momento em que eles fazem uma referência ao Brasil, e tentam apresentar um funk carioca estilizado, misturado com kuduro e loops de samba, que realmente não funcionou bem. Apesar de um pouco verde em performance, o potencial é grande, só falta uma direçao maior de palco e movimentação.

Sábado, dia 21
Se os organizadores reclamaram que na sexta deu 60% da lotação, no sábado deve ter dado 40%. Talvez pela pouca forca do line-up, talvez pelo preço de 52 euros. Mas ainda sim era bastante gente.

Cheguei as 23:30 e ainda peguei o pedaço do show do Yazoo. Sim, aquele grupo dos anos 80 que canta “Situation”. Chato demais. E o line up da maior pista, a club (só pra ter uma idéia, um galpão de uns 100 metros quadrados, com nada menos que 10 telões) deu varias mancadas pelo resto da noite, como Rings of Saturn (EUA), que em pleno horário de pico (3 da manhã) parou a pista com seu som ambiente super-viajadão com projeções de fotos do espaço. Logo depois o inglês Clark fez um “live” de techno com duas MPCs, mas o resultado final ficou pior do que usar dois cds players, e nao agradou o público. Às 5 da manhã, o top DJ espanhol Oscar Mulero teve que ressuscitar a pista com um techno Detroit caretão (no sentido tradicional). Os fritos gostaram, mas é inevitável a sensação de que o techno, assim como o house e o psy (que não rolou no Sónar, pois é considerado musica eletrônica de adolescente por aqui) não mudaram nada nos últimos 10 anos.

Falando em idade, observei melhor e vi que a faixa etária mais forte do Sónar foi entre 25 e 35 anos. Isso deve abaixar ano que vem, já que o festival esta se tornando mais pop.

Miss Kittin (Divulgação)
Miss Kittin

Miss Kittin apenas ronronando
Todo mundo só falava na francesa, e quando estava pra começar só se via um rio de gente indo pro Sónar Pub (a segunda maior pista, ao ar livre. As outras foram Park e Lab), deixando as outras sensivelmente desfalcadas. O anunciado “live” da moça se resumia a ela mixando as bases de suas proprias músicas (techno e electro bem produzidos, mas com nada de surpreendente) e com um microfone na mão cantando suas letras pop, como “Kittin Is High”, atrás dos CD players. Deu uma sensação de enganação, e deu saudade da heróica Peaches, aquela sim sabe segurar um show sozinha sem deixar a peteca cair.

Bonde do Rolê (Divulgação)
Bonde do Rolê

M.I.A. miou
Enquanto isso, Buraka som sistema fez DJ set e agradou, levou a pista de umas 50 pessoas para umas 500, no final do set. Depois de aprender mais passos de dança típicos deles, pra minha surpresa fui me apresentar pro Lil’ John dizendo que eu era o “Lúcio do Brasil” e ele falou “Lucio Kappa??” Trocamos CDs e combinamos outras coisas. A M.I.A., que se apresentaria depois, faltou, e o curitibano Bonde do Rolê a substituiu, sendo os únicos representantes brasileiros do festival, em uma apresentação constrangedora. Eles tinham que fazer o “Melô Da Cara De Pau” de tentar ganhar dinheiro gigolozando o estereótipo de “brasileiro é só putaria”. Um gringo do meu lado perguntou sarcasticamente, enquanto dois deles simulavam uma posição sexual no palco: “no Brasil todo mundo é assim?” e eu respondi no meu portunhol: “si, todo el mundo, toda la hora!” As bases do BDR são simplórias, sempre sampleando riffs manjados (e datados) de pop e rock + batidas do funk carioca, como o Edu K já faz há muito tempo. Os quatro integrantes gritavam, (e pra piorar, as vozes estavam 5 vezes mais altas que as bases, até parecia que o operador de mesa queria boicotar a apresentação), soltavam letras sexuais ultra-apelativas, sem o menor conteúdo (nem sequer há duplo sentido!) ou originalidade. Me fez ter saudade de quando eu tocava com o Funk Fuckers.

E a mistura tá chegando
Foi surpreendente o festejado Girl Talk não ter sido escalado para o festival, afinal atualmente ele realmente é um dos expoentes máximos em termos de discotecagem, apesar de afirmar mil vezes que “nao é DJ”. Mas o mash up não fez feio: a maior surpresa da noite foi o nova-iorquino A-Trak que aos poucos conquistou o público e promoveu uma catarse coletiva. Primeiro porque ele faz suas próprias versões, seus bootlegs de músicas club/dance, surpreendendo a todos (viva a liberdade digital, nada disso seria possível usando vinis). Segundo, porque ele tem uma técnica perfeita misturando efeitos digitais (muitos e bem usados, sem cansar) e turntabilism, tudo com serato (aliás, só vi 2 DJs no festival usando vinil), terceiro porque ele promove a mistura, um set que varia de estilo e bpm, contando uma historia cheia de referências de musica pop, hip hop e club music. O futuro está nas misturas, só falta os curadores do Sónar se ligarem nisso pra que a próxima edição seja ainda mais interessante.

* Lúcio K é DJ e produtor musical
Sem mais artigos