CATARSE EMBAIXO DO TORÓ
Primeiro dia teve o pop abusado de Catarina e o caso de amor com Pernambuco de Gogol Bordello
Por Paulo Floro

A chuva não colaborou no primeiro dia do Rec Beat, às margens do Rio Capibaribe, no Carnaval no Recife. O segundo grande show de Catarina Dee Jah (o outro foi no Coquetel Molotov, ano passado) começou com pouca plateia, já que uma considerável parcela dos que vieram assistir ao festival estavam abrigados na tenda eletrônica. Com um mix de referências, que ia dos mash-ups, passando pelo pop chiclete, a artista olindense desfilou série de hits das carrocinhas piratas e rádios populares FM’s e tocou músicas de seu EP, que estava circulando no backstage.

É muito pouco dizer que Catarina toca uma releitura do brega, apesar dos gritos de “Liberdade ao Brega” entoados pela mesma. Ela se insere num contexto da música pop atual, onde os ritmos mais ortodoxos dão lugar à estilos, antes entendidos como periféricos, como o pagode, o brega, sertanejo, jovem guarda e o que mais você possa torcer o rosto. Catarina é criativa, bem-humorada, o que compensa seus trejeitos vocais. Até a metade do show, ela parecia um tanto tensa, mas logo em seguida iniciou uma performance lasciva – não chegou ao nível perigheti, contudo – que culminou com o clímax, o hit “Meu Novo Namorado”, cantado em coro pela público. Sua banda estava muito boa, alternando paisagens eletrônicas, com outras mais roqueiras e até dub.

Camarones Orquestra Guitarrística (Foto: Daniela Pinheiro/ Divulgação)
Camarones Orquestra Guitarrística (Foto: Daniela Pinheiro/ Divulgação)

Em seguida, entraram os ainda desconhecidos por aqui, Camarones Orquestra Guitarrística, que fez todo mundo bater cabelo e fazer air guitar em plena chuva. A música sem vocais não desanimou o público, sobretudo porque grande parte do repertório era de covers, entre elas até uma do seriado Flintstones. A vocalista também era bastante carismática, ainda que suas falas por vezes não tivessem tanta necessidade. Como uma orquestra, a banda de Natal é interessante justamente por seu som quase ininterrupto.

Original Hamster (Foto: Daniela Pinheiro/ Divulgação)
Original Hamster (Foto: Daniela Pinheiro/ Divulgação)

Em seguida, entra o Original Hamster, do Chile. Seu show é simples, seguido de uma picaque e microfone. Foi um show de música eletrônica bastante animado, ainda que não tenha trazido nada de muito interessante ou inovador. No entanto, mandou bem na presença de palco, mesmo se escondendo atrás de macintosh. Em alguns momentos, fez pose de rockstar, balançando os cabelos e cantando. Ninguém estava prestando atenção nele. Uma grande roda de street dance se formou nesse momento. Seu encerramente foi com Tom Jones, numa versão suja e muito dançante.

DJ Dolores (Foto: Daniela Pinheiro/ Divulgação)
DJ Dolores (Foto: Daniela Pinheiro/ Divulgação)

O DJ Dolores parecia chegar com o jogo ganho, tocando em pleno Carnaval do Recife. Mas o público demorou a responder ao som de Helder Aragão, pseudônimo do DJ. Júnior Black iniciou fazendo as vezes de MC, enquanto uma garota iniciava uma série de perfomances em cima da picaque. Em seguida, ela se jogou no chão, fazendo estripulias. O set seguiu cheio de misturas, indo do black, passando por ritmos mais tradicionais e outras coisas mais pop. Para quem já assistiu a outras apresentações de Dolores, esta foi uma das mais memoráveis, mas ainda assim bastante consistente.

Gogol Bordello (Foto: Daniela Pinheiro/ Divulgação)
Gogol Bordello (Foto: Daniela Pinheiro/ Divulgação)

Para encerrar, substituindo Afrika Bambaataa, que não pôde viajar por questões de saúde, o Gogol Bordello fez um show com o melhor entrosamento com a plateia. Repleto de misturas, ele mostrou que seu punk cigano funciona muito bem no Recife. Uma garota da banda roubou a cena, no entanto. Até da pista, era possível ver sua calcinha rosa, a cada passo de dança. Ela também falava bom português e traduzia as conversas de Eugene Hutz com os foliões. Como Marina De La Riva, ano passado, Hutz também usou golpes baixos para conquistar o público – já chegou vestindo a camisa de Pernambuco, tocou “Morena Tropicana” e gastou muito tempo lembrando a importância do Estado para sua música. Pela segunda vez no Carnaval da cidade, essa empatia parece ser sincera. No clímax do show, se abalou o maior temporal daquele dia chuvoso. O público estava todo ensopado, e embarcou numa catarse pulando e alastrando a lama entre os convivas. Este repórter, inclusive teve todas suas anotações molhadas.

Visto da plateia, este show confirmou a vocação do Rec Beat em ser o mais interativo e intenso dos festivais independentes que acontecem no País.

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