Bloc Party (Foto:Reinaldo Marques/Terra)

SOBREVÔOS SOBRE O PLANETA TERRA
Polaróides gonzo do mais saboroso grande festival do ano com atrações de peso e 800 mil watts de potência sonora
Por Eduardo Carli

Caros leitores, peço de antemão que me desculpem pelo fiasco jornalístico que aqui se inicia. Mas hoje, do Planeta Terra, que sobrevoamos dentro de um OVNI com capacidades limitadas de energia e combustível, damos somente uma semi-cobertura. Um relato cheio de momentos “Houston, desculpe a nossa falha” e “perigo,perigo! despressurização da cabine!”. Um relatório cheio de lacunas, que a nave-mãe provavelmente irá abominar, mas que, imperfeito como é, vai aí, transmitido através da galáxia para aqueles interessados em estabelecer contato com tudo o que por lá rolou…

Também pudera: de um festival de dimensões planetárias, com tanta coisa simultânea ocorrendo, seria preciso toda uma equipe de repórteres circulando em UFOs para dar conta do recado. Eu, que ainda não mandei fazer meu clone e não levei à maestria os dons do tele-transporte, fui obrigado, como todo mundo, a fazer um percurso todo pessoal pela festança. Ver todas as atrações era humanamente impossível. Aguentar até o fim da bagaça foi, pra mim, tarefa irrealizável – chegou uma hora que eu corria o risco de minha navinha ir se espatifar no chão e tive que pegar carona num cometa e voltar ao meu planetinha de origem (informação confidencial!). Logo, se eu pecar por falta da não-tão-sagrada-assim Objetividade Jornalística, digam por aí que aderi ao gonzo e tá tudo limpo – e que Tom Wolfe nos abençôe!

Vamos lá… A segunda edição do grande festival organizado pelo Terra, o gigante portal da net brasileira, juntou 15 mil terráqueos para 10 horas de som ensudecedor. Eram com 800 mil watts de potência e as atrações mais saborosas dentre os grandes festivais nacionais de 2008.

Nesta dezena de horas de barulhinho-bom ininterrupto, ótimas atrações subiram aos 3 palcos paralelos. No Main Stage desfilaram atrações graúdas do rock de hoje (Kaiser Chiefs e Bloc Party), de ontem (Jesus and Mary Chain e The Offspring) e de amanhã (Mallu Magalhães e Vanguart). No Palco indie, o destaque foi para novos queridinhos da crítica musical (Animal Collective, Spoon , Foals), um novo talento tupiniquim (Curumin), sem falar na banda da ex-Pixies Kim Deal, o The Breeders. Havia ainda uma tenda eletrônica onde a tecneira, a cargo de DJs renomados (como Mau Mau e Mylo), botaram os interessados para dançar.

A organização esteve impecável: os shows começaram com pontualidade britânica, com qualidade de som ótima e absolutamente sem problemas técnicos, até onde testemunhei. Mais importante ainda: não havia absolutamente nenhuma fila nos numerosos caixas e bares. A falta de caipirinha, vodka, whisky, absinto e outros gorós de barato mais veloz podem ter incomodado alguns (conheço ao menos um!), mas a maioria parecia contente com a Skol a 4 pilas e o refri. Uma boa praça de alimentação, com feirinha hippie acoplada e tudo, contribuiu para o conforto do público.

Na Marginhal Pinheiros, em São Paulo, o acesso à Villa dos Galpões estava tranquilo, sem trânsito ou tretas para estacionar. Já os numerosos banheiros químicos estavam – pasmem! – cheirosinhos e decentes, o que é uma baita duma proeza, já que nesses horrendos sanitários quase sempre precisamos desobedecer o conselho da mamãe de segurar o pigulim com as duas mãos, já que uma delas tem que ficar reservada para tapar o nariz. Uma equipe de filmagem bacanuda tratou de fazer a transmissão ao vivo pela internet para um número infinitamente maior de pessoas do que as que ali estavam presentes em carne e osso. Um legítimo festival da era da cibercultura.


Mallu Magalhães (Foto: Reinaldo Marques/Terra)

TERRÁQUEOS DE BRILHO DESCOMUNAL

Os grandes destaques? Aos meus olhos, estes:
A pequena Mallu Magalhães, a coisa mais fofa e enternecedora do indie-folk nacional, arrasou no palco mais gigante que ela já enfrentou e ganhou sem grilos o coração de um público que, em sua maioria, não estava lá para vê-la. Mesmo antes do lançamento de seu álbum debut, a guria prodígio, com seus 16 anos recém-completados, já aparece como uma gigante no cenário musical brasileiro e, de longe, como a novidade mais saborosa que 2008 nos trouxe.

Quem, como eu, teve a honra de ver os primeiros shows de Mallu, no começo deste ano, no minúsculo pub Milo, em São Paulo, sabe o quanto ela evoluiu em termos de segurança e desenvoltura no palco. Ao ponto de ser hoje uma frontwoman de primeira, com um carisma natural que raramente se vê por aí, um repertório incrivelmente consistente e já desfilando hits irresistíveis como “Tchubaruba”. Brincalhona, lúdica, extremamente bonitinha e encantadora, Mallu esbanjou talento e espontaneidade. Seu figurino, então… um primor! Cartolinha azul na cabeça, gravatinha borboleta pequena por cima da camisa listrada, uma calça cor-se-rosa que parecia algum estranho tipo de pijama com defeito de fabricação – e pantufas! Alguns gritaram que ela se parecia com um Willy Wonka adolescente (“cadê os Oompa Lompas?”, gritavam os mais empolgados).

Mallu Magalhães – do believe the hype! – já entrou numa boa trilha, vendo como modelos só nego bom: Bob Dylan, Johnny Cash, Elvis Presley, velhos blues e folks, sem falar dos Beatles (de quem ela tocou “Your Mother Should Know”). Ao que parece, tem tudo para se tornar uma espécie de Cat Power cantando lentos sadcores, ou uma Regina Spektor cheia de criativas soluções vocais, ou algo totalmente original que vai quebrando as casquinhas do ovo.

Mallu é uma figurinha tão adorável e doce que você imagina que é produto da fantasia – quase um personagem do Sítio do Pica Pau Amarelo, com carne feita de marshmallow e olhos de chocolate. Monteiro Lobato bem poderia tê-la criado para fazer, lá no Sítio, musiquinhas bacaninhas à base de estados exaltados de consciência possibilitados pelo pó de pirlimpimpim. E eu num duvido nada que naquele estojinho da gaita ela guarde, em segredo, a Emília, Pedrinho e o Visconde de Sabugosa, que vibram em segredo à cada acorde e melodia.

Se ela já transborda tanto talento e faz música que nos deixa tão alegres agora, aos 16 e tendo poucas feridas na carne, imaginem o que um par de corações partidos não farão por ela. Quando essa garota ganhar o blues, corram por suas vidas: ela vai derreter corações.

O Jesus and Mary Chain, uma das grandes bandas noisy dos anos 80, fez um comeback competente, barulhento e que passeou bonito pelos grandes discos da banda, especialmente Psychocandy, Darklands e Automatic. “Head On”, hit já regravado pela Legião Urbana, foi cantado em coro pela galera. “Blues from a Gun”, uma das melhores músicas da banda, também saiu maravilhosamente esporrenta. Maneirando um pouco no feedback e nas microfonias, que influenciaram toda uma geração, de Ride a My Bloody Valentine, a banda ainda assim provou porquê já foram vistos como deuses do caos barulhento bem feito no mundo do rock alternativo.

Mas, como seria de se esperar, a atitude de Reid e companhia no palco é sempre contida, fria e quase antipática. Você fica imaginando que nem uma multidão em polvorosa, em ovações entusiásticas, faria se desenhar um sorriso na face do vocalista – ou do resto da banda.

Como legítimos precursores do shoegazing (ou olhação de sapato), o Jesus & Mary Chain continua uma banda que não tira os olhos dos próprios tênis. Apesar disso, a banda é um souvenir vivo de quão maravilhosamente nova era aquela orgia de microfonia e melodia que espalhou mel e barulho nas trilhas dos anos 80.


Breeders (Foto: Marcelo Pereira/Terra)

Mera sombra do passado, também, a Kim Deal, chefa do Breeders. A mocinha que dividiu a liderança dos Pixies com Frank Black durante aqueles 4 discos antológicos da banda que Cobain adorava, com o Breeders me pareceu bem menos inspirada e inspiradora. Algumas músicas sensacionais, como “Cannonball”, tavam lá para redimir o show, mas no geral me ficou a impressão de uma banda pouco empolgante, apesar de super bem-intencionada.


Offspring (Foto: Eduardo Lopes/Especial para Terra)

Já o Spoon disputa com a Mallu o título de meu show predileto da noite. Os caras provaram em cima do palco porque são uma das bandas mais respeitadas do indie rock contemporâneo lá fora, muito merecedores de estarem no mesmo patamar de bandas com sucesso popular mais vasto, como os Strokes, o Franz Ferdinand ou o White Stripes. Enquanto o Offspring, no palco principal, tocava seu hardcore-pop a todo gás, para delírio dos malucos pogantes, que dançavam em rodinhas frenéticas, o quarteto americano derramou sobre o público colheradas e mais colheradas de uma música original, aventureira e tocada com muita empolgação.

A esta altura do campeonato, este repórter que vos fala, depois de copos de cerveja um tanto excessivos (cuja quantidade prefere omitir para que o leitor não suspeite da credibilidade do relato), viu-se em maus lençóis. De um lado, uma banda sensacional em cima do palco, fazendo um show daqueles que deixam todos os nossos sentidos grudados nos músicos, no ambiente, em estado quase de contemplação mística e de entrega total à dança. De outro, uma necessidade absolutamente imperiosa e cruel de ir ao banheiro, tamanha a quantidade de líquido que se acumulava em sua pobre bexiga urinária já extremamente dilatada. Não concebo elogio mais belo ao show do Spoon do que esse: os malditos conseguiram me reter até o fim ali, enquanto eu segurava com martírios indizíveis com meu nobre esfíncter aquele jorro salvífico de mijo que me solicitava. Porque, putaqueopariu, não dava vontade de perder um segundo daquilo. Por pouco não faço xixi nas calças…


Kaiser Chiefs (Foto: Reinaldo Marques/Terra)

Quanto ao Kaiser Chiefs e ao Bloc Party, caro leitor, deixo mais duas lacunas no relato. “Houston, Houston, temos um problema de comunicação…”. No caso do Bloc Party, vi umas 4 ou 5 músicas, achei meio mala e fui fazer outra coisa, nem me lembro bem o quê… Acho reencher o tanque da minha navinha movida a Skol. Ao menos eles provaram, depois do vexame que foi fazer playback no último VMB, que ao vivo sabem reproduzir o que se ouve nos discos. Quanto ao Kaiser Cheifs, bem… minhas pobres pernas estavam em estado de petição de miséria, meu estado de consciência já bastante alterado e o cansaço no corpo depois da maratona de shows rezava por casa, banho e cama. Até considerei que seria mais nobre e profissionalmente ético acompanhar de cabo a rabo o evento, como um jornalista decente e todo generoso com seu público leitor – mas ei, antes de jornalista sou um ser alien de limitadas capacidades fisiológicas, e um que foi dar um role no Planeta Terra mais pela curtição que pela profissão, e um que, além do mais, têm tendências ao alcoolismo e à estragação… Em suma, perdi o último show da noite, mal aê, mas me contaram que foi legal.

(…)
Câmbio, câmbio, nave mãe! Exploração gonzológica do Planeta Terra completada com sucesso, apesar das panes alcoólicas, lacunas e apagões. Iniciar processo de retirada!

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