Abril Pro Rock dribla concorrência com batidão étnico e medalhões do pop local

Por Jaime Medeiros
Do Recife

Fotos Rafael Passos / Abril Pro Rock

O último dia do Abril Pro Rock 2012, neste domingo (22 no Chevrolet Hall, foi, mais uma vez, pautado por um ecletismo e a apresentação de novos nomes. Desta vez, no entanto, contou com dois medalhões que foram importantes para a história do festival, Otto e Mundo Livre SA. Foram eles os responsáveis por contextualizar no palco a importância que o APR conquistou ao longos dos anos. Com um salão bem esvaziado, o dia ainda teve a explosão étnica e dançante do Antibalas e Buraka Som Sistema.

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Terceiro dia de festival, um pouco mais de 17h30, e a Bande Dessinée (PE) já estava no palco. Com um som que poderia ser facilmente trilha sonora de qualquer filme hollywoodiano na década de 70, os pernambucanos fizeram um show morno, acompanhados por pouco mais de cinquenta pessoas. O grupo, que vem conquistando espaços cada vez melhores para tocar trabalha seu primeiro disco, lançado ano passado, Sine Qua Non.

Em seguida, ainda com um público muito pequeno – que parecia estar mais interessado em andar pelos quiosques espalhados pelo local – a banda Strobo (PA), composta por apenas dois integrantes, subiu ao palco para fazer o seu show. Diferente da banda anterior, os paraenses mostraram que possuem um som bem agitado, semelhante a qualquer pista de dança em determinados aspectos.

O paulista Leo Cavalcanti

Aos poucos, o espaço do Chevrolet Hall, antes quase que completamente vazio, agora estava sendo preenchido por pessoas que chegavam a todo momento. Terceira banda a subir no palco, a também pernambucana, Ska Maria Pastora (PE), outra banda instrumental da noite, mostrou que as vezes só uma boa melodia não é capaz de entreter um público por muito tempo. Foi mais uma banda local que apresenta um trabalho novo, As Margens do Rio Doce. Em seguida, o paulista Léo Cavalcanti surgiu como uma boa surpresa na noite, com um vocal cheio de personalidade e banda bem calibrada. E conseguiu segurar sua apresentação ainda que poucas pessoas o conhecessem.

Todo o carisma da Bande Dessinnée

Chegou a hora então de dar vez aos americanos da banda Nada Surf (EUA). De volta ao Brasil – onde vieram pela primeira vez em 2004 – e agora tocando pela primeira vez em Pernambuco, eles se mostraram tímidos, mas ainda assim o primeiro contato com público foram palavras em um português esforçado.

O público – que antes estava disperso – pareceu ter se interessado e, pouco a pouco, foi se aproximando do palco onde a banda estava tocando. Com um álbum recém lançado, The Stars Are Indifferent to Astronomy, o grupo acabou por tocar músicas desse novo trabalho, como “Waiting or Something” e “Looking Through”.

De qualquer forma, era certeza que as mais conhecidas fossem tocadas. No momento em que começaram a tocar “Popular”, música responsável pela fama alcançada pela banda no cenário independente dos EUA, o público pareceu ter se entregado – em parte – ao que, até então, estava sendo o melhor show da noite. Ainda tocaram hits como a fofinha “Always Love”, que teve o seu refrão cantado em coro, e “Blankest Year” – ponto alto e melhor música do show.

O Nada Surf contou com ajudinha dos fãs no gargarejo

Os veteranos do Mundo Livre S/A, liderados pelo guitarrista e vocalista Fred Zero Quatro, subirem ao palco. Presentes na primeira edição festival – 20 anos atrás – a banda parecia estar ali tocando para amigos intímos, onde todos se conheciam, e ambos pareciam estar aproveitando o show. Com direito até a uma música de Jorge Ben Jor, era notável o clima totalmente despretensioso, onde foi possível ouvir músicas do disco mais recente da banda, Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa, e até dançar e gritar a letra de músicas mais conhecidas do público, como “Computadores Fazem Arte”, relembrando a primeira edição do Abril Pro Rock, que contou com a partipação de Chico Science e a Nação Zumbi.

O Antibalas (EUA) chegou com uma poderosa mistura de afrobeat, música eletrônica e dub e, dada a relevância que tem no cenário musical (foi fundada por Fela Kuti nos anos 1970), era uma das atrações mais interessantes da noite. O grupo trouxe cores étnicas ao APR e soltou faixas com influências de yorubá e jazz, ainda que tenha sido prejudicada por um som muito alto, em que se ouvia o vocal com muita dificuldade.

Otto apoiando o #OcupeEstelita

Penúltima atração da noite – porém a mais aguardada – Otto sobe ao palco vestindo uma camisa do protesto #OcupeEstelita, movimento contra a destruição do Cais José Estelita para construção de 13 torres residenciais. Ele usou o show em vários momentos para reclamar do “concreto que avança sobre o Recife”. Protestou ainda contra os viadutos na Agamenon e destruição de áreas de mangue.

Dono de um carisma bem característico, ele parece ter o público na palma das mãos. Com um show repleto de músicas conhecidas, como “Crua”, “Ciranda de Maluco”, “Saudade” e “Seis Minutos”, ele não privilegiou seu último disco de 2010, Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, como costuma fazer. Acabou seguindo a proposta do festival de fazer referência ao seu passado, já que o músico esteve presente na primeira edição. Por isso, mandou faixas da Nação Zumbi e chamou Ortinho para encerrar o show. Otto fez um show digno de um festival tão importante como o Abril Pro Rock, e cumpriu as expectativas da boa parte do público que estava ali apenas para vê-lo.

O batidão do Buraka Som Sistema

Kuduro do Buraka Som Sistema encerra festival com dancefloor rebolativo

Por Paulo Floro

O combo português Buraka Som Sistema encerrou a 20ª edição do Abril Pro Rock. O grupo é uma das apostas da cena eletrônica atual e vem se apresentando em palcos internacionais desde que lançou seu segundo disco Black Diamond (2008). Seu diferencial maior é seu intercâmbio com artistas e ritmos de países africanos, como a Semba, Kalemba e o kuduro. Eles tocaram faixas do trabalho mais recente, lançado ano passado, como a faixa-título “Komba”.

A melhor parte da noite foi a faixa “Aqui Pra Vocês”, que originalmente tem vocais da MC brasileira Deize Tigrona – ouvida no palco. A curiosa formação de três vocais, DJ e duas baterias dá um som encorpado e forte ao show, com as batidas reverberando pelo corpo, mas novamente era bem difícil entender o que estava sendo cantado. Como funk e hip hop são gêneros que privilegiam bastante a voz, prejudicou um pouco a apresentação.

O público – que tinha recarregado as baterias com as batidas que se assemelham ao funk – dançou até perto das 2h30 da manhã, despedindo-se do festival.

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