Foto: Flora Pimentel / Divulgação

Foto: Flora Pimentel / Divulgação

celebra exílio e o silêncio em estreia solo no

Rodrigo Amarante, atração de maior destaque este ano no festival No Ar Coquetel Molotov, reafirmou no palco o auto-exílio expresso em seu disco de estreia solo, Cavalo. Ele levou para o seu show a mesma nudez nos arranjos, o minimalismo e não fez nenhuma concessão aos fãs que pediram durante toda a apresentação músicas de . “Vou cantar música nova”, disse ele, tentando esconder uma timidez. E depois soltou, faceiro, “Ahhh, Recife”.

Leia Mais
Coquetel Molotov e os novos ídolos

Amarante abriu o show com “Irene”, uma das músicas mais bonitas de Cavalo e a que melhor exemplifica a proposta atual do músico em criar um som mais introspectivo e melancólico. No palco, as músicas do álbum pareceram menos inóspitas e sem tanto rigor estético, o que permitiu uma aproximação do músico com seu público. Na sua estreia solo, Amarante se afastou definitivamente do Los Hermanos ao tentar composições que o levasse para bem longe do pop onde estava confortável. É um trabalho de autoconhecimento e estudo de suas limitações e possibilidades. E é essa “imperfeição” a parte mais interessante de Cavalo.

É daí também que vem o nome Cavalo, que nas religiões africanas representa o “duplo”, aquele que recebe o espírito. Representa também o animal que precisa ser domado para servir de veículo. Amarante quis mostrar que foi preciso dessa descoberta e do domínio de sua criatividade para sair a galope. O músico teve alguma dificuldade para conseguir a concentração necessária do público para levar toda essa proposta artística para o ao vivo. Nas primeiras faixas a euforia era enorme e sem sintonia com a beleza sombria e delicada de “Fall Asleep”. Aos poucos, os fãs foram entrando no mesmo ritmo do músico e, como se embalados, ou domados, se preferirem, se sentaram e curtiram aquela solidão no palco.

Foto: Flora Pimentel / Divulgação

Foto: Flora Pimentel / Divulgação

Deve ser um desafio para Amarante empreender uma turnê de um disco em que ele desfia sua solidão e diversos momentos de silêncio e vazio enquanto ainda precisa lidar com um legião de admiradores que ainda o identificam como uma das partes mais conhecidas do Los Hermanos. É um exílio que precisou ser feito para o músico encontrar suas possibilidades – e o resultado foi um disco difícil, mas contundente no que pode significar em um campo mais íntimo de cada ouvinte. Parte disso se perdeu ao vivo, mas ainda assim rendeu um espetáculo muito bonito e minimalista. Acompanhado por Gabriel Bubu (baixo, guitarra, teclado, percussão, voz), Gustavo Benjão (guitarra, MPC, percussão, voz), Lucas Vasconcellos (teclado, MPC, percussão, voz) e Rodrigo Barba, também do Los Hermanos (bateria), Amarante conseguiu defender seu repertório, talvez ainda estranho aos ouvintes, com muita personalidade.

Ele conseguiu a atenção necessária para tocar a triste “Mon Nom”, tocada ao piano e recebeu o entusiasmo do público com a animada “Maná”, ovacionada e bastante aplaudida e “Tardei”, que se tornou um hit desse disco tão anti-hits. O show ainda trouxe faixas inéditas, a exemplo do que aconteceu em outras apresentações da turnê, a exemplo de “Um Milhão” e “Dancing”.

Ao final do show, uma parte da plateia invadiu o palco do Teatro da UFPE e tentaram agarrar o músico, que correu para os bastidores. Foi o suficiente para quebrar aquele clima de cumplicidade que tinha se estabelecido pouco tempo atrás. Ao final, Amarante retornou para o bis e cantou “Evaporar”, do Little Joy, única faixa de um projeto paralelo seu (nada de Los Hermanos). Foi um show muito curto e muito direto, daqueles que repercutem horas – ou dias – depois de encerrado.

Sem mais artigos