A marcha lembrou ainda que a maior vítima da criminalização das drogas é a população preta e periférica

Fotos por Jonatan Oliveira, Fernando de Albuquerque e Alexandre Figueirôa/O Grito!
De Recife

Rolou neste último sábado (19) a 11ª edição da Marcha da Maconha do Recife. Cerca de três mil pessoas atenderam a convocação do Coletivo Antiproibicionista de Pernambuco (Cape), da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), da Acolher, do Recifree e da Associação Canábica de Pernambuco (Cannape) e realizaram uma das marchas com maior participação popular dos últimos anos. A concentração começou às 14 horas, na Praça Oswaldo Cruz, na Boa Vista e, um pouco depois das 16h20, a marcha iniciou seu percurso pela avenida Conde da Boa Vista indo até o Pátio de São Pedro, onde, à noite, ocorreu o 5º Festival de Cultura Canábica, com apresentação de artistas e bandas locais.

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Os organizadores da marcha levaram para as ruas, mais uma vez, a sua principal bandeira de luta: a legalização do uso e comércio de todas as substâncias psicoativas. Todos os coletivos envolvidos na preparação da marcha compartilham a posição de que a proibição das drogas pune e criminaliza de maneira seletiva e que a maior vítima de um judiciário racista e fundamentalista é a população negra, jovem e periférica. Para eles a guerra às drogas encobre, na verdade, uma guerra contra pretos e pobres e alimenta a indústria do pânico e do medo. O Brasil registra 57 mil mortes violentas por ano, grande parte em decorrência da política de guerra às drogas declarada contra a população negra e periférica. Por isso, a Marcha da Maconha do Recife defende um projeto político que respeite a liberdade e a condição de vida de todas as pessoas.

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Além de lutar por profundas mudanças no modo como as drogas são vistas e tratadas pela sociedade, o coletivo organizador da marcha vem percebendo as novas demandas propostas pelos seus integrantes e propõe frentes de batalha relacionadas entre si. E o amadurecimento da mobilização pela legalização pode ser conferida no sábado com a presença maciça de moradores e moradoras das periferias da Região Metropolitana do Recife. Inclusive com a participação de grupos independentes como o Movimento Legalize Já, de Jaboatão dos Guararapes, cujos integrantes foram todos vestidos com camisetas a favor da legalização.

A marcha teve um dos seus maiores públicos. (Jonatan Oliveira/OGrito!)

Os organizadores da marcha lembram ainda que a questão econômica, caso o plantio e a venda de maconha sejam liberados, também deve ser discutida para que mais uma vez a população da periferia não seja prejudicada. Eles observam que apesar da ilegalidade atual, existe uma movimentação financeira nas comunidades oriunda desse comercio, gente que sobrevive dessas vendas e políticas públicas precisam ser implementadas para não abandonar essas pessoas.

Esse ano o evento contou também com um forte apoio das entidades que defendem o uso medicinal da cannabis, inclusive com representantes do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas (CEPAD) e da Associação Brasileira de Cannabis e Saúde. Mães, cujos filhos precisam de medicamentos produzidos a partir da cannabis ou do consumo dela natural, participaram da concentração e deram seu depoimento público, pedindo para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acelerar a liberação da maconha para tratamento médico. Muitas doenças crônicas podem ser tratadas com o uso de remédios à base de THC, CBD ou um dos mais de 400 componentes da planta. Hoje, porém, pessoas que podem ser beneficiadas enfrentam um enorme tabu.

A proibição, além do atraso científico, torna arriscada a sua aquisição, seja através da compra, do plantio ou da importação de derivados. Graças à mobilização da sociedade, têm sido concedidos salvo-condutos para plantio caseiro e, em 2015, a Anvisa retirou o canabidiol do grupo de substâncias proibidas, reclassificando-a como substância de uso controlado, regulamentando assim sua importação. Durante a caminhada pela avenida Conde da Boa Vista, as mães com seus filhos, médicos e trabalhadores da área de saúde, estavam à frente da marcha entoando os slogans “Legaliza Anvisa, maconha salva vida” e “Remédio natural, maconha no quintal”.

O movimento da Marcha da Maconha, ao ampliar sua atuação, mostra que debater sobre a questão das drogas é tocar em problemas estruturais do país, como o machismo, o racismo, a violência policial. A relevante participação das mulheres e da comunidade LGBTQ na marcha, cuja presença também cresce a cada ano, é reflexo positivo desse novo momento, em que é fundamental denunciar a hipocrisia e o equívoco dos que em vez de debater o tema com serenidade e lucidez preferem a proibição e as armas.

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