Foto: @rodcebrian/reprodução Instagram

Madonna faz homenagem às periguetes em show com referências à política global
Turnê MDNA começou no Rio com quase três horas de atraso e teve público abaixo do esperado

Desde que começou a turnê MDNA, que promove o álbum de mesmo nome, a cantora Madonna faz pequenas surpresas em cada País. Uma delas é uma tatuagem em suas costas, que sempre dialoga com a cidade em que está. No show que ela fez no Parque dos Atletas, no Rio de Janeiro, este domingo, ela mostrou um desenho escrito “PERIGUETE” e disse: “Sou periguete? Uma periguete inspira outra periguete. Quero dedicar esta música a todas elas.

Este foi um dos destaques do show que reuniu cerca de 65 mil pessoas no Parque dos Atleas – 90 mil foram postos à venda. Marcado para começar às 20h, Madonna entrou no palco apenas às 23h, o que fez com que o público levantasse vários coros de vaias. Ao apagar das luzes, acabaram-se as irritações com um espetáculo visual que une parafernália, danças milimetricamente coreografadas e um telão de LED, que segundo a organização, é o maior do mundo.

A abertura mostra um incenso gigante manuseado por monges que participam de um canto gregoriano enquanto esperam a popstar. Ao aparecer, ela inicia com “Girl Gone Wild”, do disco novo. Este primeiro ato mostra uma catedral gótica e mistura religião e militarismo. Todo o roteiro do show mostra uma vontade de Madonna em remixar todas as suas referências passadas. Tudo é pincelados em pouco mais de duas horas de show: sexo, religião, materialismo, espiritualidade, e um dos seus temas atuais, política e ativismo.

Em um conversa com o o público, após a abertura repleta de armas e sangue nos telões, ela prega uma mensagem: “Sabe como você pode mudar o mundo? Mude a si mesmo”. Ela citou conflitos na Palestina, Síria, Irã e nas favelas do Rio. “As pessoas estão morrendo sem nenhum motivo”. Ainda trabalhada no ativismo, o show traz dois clipes interessantes no telão. Em um deles, uma animação subverte ilustrações clássicas como pop arte, gravuras russas e comerciais americanos dos anos 1960, para falar do empoderamento feminino, direitos homossexuais, etc. Na música “Nobody Knows Me”, colagens de imagens de personalidades é a forma de Madonna criticar nomes como Sarah Palin, Papa Bento 16, Putin, ao mesmo tempo em que se mostra parte de outras culturas, ao aparecer de burca, por exemplo.

São desses remixes, que MDNA mostra-se mais interessante em palco do que em disco. É um show com um roteiro muito bem pensado e integrado e que faz ligação com as atuais preocupações de Madonna enquanto estrela pop: ser universal. Batucadas, música cigana, indiana, hip hop, tudo é parte desse caldo cultural que ela tenta tangenciar.

Periguetismo!
Um dos momentos de maior interação com a plateia foi quando cantou “Like A Virgin” apenas de lingerie. Neste momento, todos puderam ver a tatuagem nas costas escrito “periguete”. A música, lentíssima e arrastada, estava quase irreconhecível, mas foi interessante em surpreender o público. Sensualizando no palco, ela cantou ao lado de um piano, mordeu uma maçã e jogou para a plateia que se encontrava no meio do palco, chamada de “golden triangle” (triângulo dourado). Tirando onda, disse: “você acaba de cometer o maior erro de sua vida”. Nesse momento, ela ainda brincou com dinheiro na calcinha e ganhou R$10 de um fã.

Madonna ainda encontrou espaço para outras aventuras em português (bem misturado com espanhol). “Estan listos?”, gritou em certo momento. Como o povo vaiou por ela ter falado espanhol, corrigiu-se: “está prontos?”. Disse ainda “It’s hot! Muito caliente”, reclamando do calor. Em “Express Yourself”, como vem fazendo em outros shows, ela fez uma alusão ao plágio de Lady Gaga tocando trechos de “Born This Way”, para depois enmendar seu hit “She’s Not Me”. O público, claro, apoia essa pequena malvadeza.

Na música “Open Your Heart”, diversos balões em formato de coração foram levantados pelo público. “Adoro os balões. Eu te amo Brasil”. Neste momento, o seu filho Rocco (11) fez uma participação dando cambalhotas e dançando com bboys. E, claro, o momento ‘bandeira enrolada ao corpo’ não faltou, para o delírio de todos. O repertório ainda trouxe surpresas, como a faixa “Love Spent”, uma das melhores do novo álbum, mas pouco executada na turnê.

Nem tudo é lindo e maravilhoso
Pode-se dizer que Madonna e a produção local do show mereceram as vaias pelo atraso de cerca de três horas – o show estava previsto para as 20h e começou às 23h. Foram cerca de três vaias, além de gritos coletivos de “começa”. Com filas gigantescas para comprar fichas para alimento e bebida e longa espera para os banheiros, a experiência antes do show foi um martírio.

Quem acabou absorvendo a hostilidade do público foi a dupla de DJs Felguk, escalada de última hora em substituição ao cantor Will.i.a.m, que cancelou. Eles tocaram cerca de uma hora, mas foi suficiente para ouvir reclamações de todos e até vaias. Desnecessário, mas a culpa toda foi da produção. Outro ponto negativo foi a volta, desorganizada e sem nenhuma informação para o fã na volta para casa.

Do show, os pontos negativos ficaram com o repertório. “Celebration” como música de encerramento não tem tanta força quanto um grande hit da cantora. Outro problema é que nem todas as faixas de “MDNA” funcionam tão bem no palco (caso de “I’m A Sinner”). “Candy Shop”, de Hard Candy, não combina bem com o estilo cabaré. A versão de “Turn Up The Radio” teve uma execução fraca, com poucos recursos, o que chega a ser um desperdício. Sem falar que Madonna praticamente ignora dois discos amados por crítica e público, Ray Of Light (1998) e Music (2000).

Tudo é mega
Ensaiado e perfeitinho, o show de Madonna até carece de certa naturalidade, espontaneidade – com exceção dos momentos de conversa com o público – mas, essa teatralidade é também uma vantagem. Mistura de musical da Broadway e abertura de Olimpíada, a música acaba aparecendo como adereço.

É um espetáculo de alta tecnologia que surpreende os olhos a cada nova música. O palco eleva-se em diveros pontos, músicos tocam suspensos por cabos, o telão exibe imagens com efeito 3D, há um jogo de espelhos móveis em “Human Nature”, uma estrutura imita um trem em movimento. Tudo é mega. Tudo isso potencializa a experiência da simples performance musical.

É um exemplo de profissionalismo e competência adquirido em anos de experiência com mega turnês. Aos 56, e em boa forma, Madonna mostra que ainda tem fôlego para surpreender seu público.

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