Foto: Paulo Floro/OGrito!.

Foto: Paulo Floro/OGrito!.

Da Revista O Grito!, em São Paulo

O primeiro show do novo disco de Karina Buhr, Selvática, aconteceu nesta sexta (2) no Sesc Pompeia em São Paulo e deixou algo muito claro. Precisamos de uma mulher perigosa como Karina como uma forma de contra-ataque ao estado do país atual. Sua presença é um revide à massa de ódio e conservadorismo que ganha força a cada dia. Selvática é um ato político em forma de performance artística.

No novo show, Karina chega raivosa, mas debochada. Irônica e abusada, ela adiciona ainda mais peso ao seu já conhecido show cheio de vigor. As faixas do novo trabalho ajudam a catalisar essa estilo mais pesado de apresentação. Ela chega com uma atitude punk em um sentido quase acadêmico do termo. Não é uma escolha puramente estética, mas de abraçar o confronto direto. Karina grita, cai no palco, levanta o pedestal como uma arma improvisada e enrola o fio do microfone no pescoço como se estivesse sendo enlaçada. Ela também não abre mão da própria sensualidade, mas que surge primeiro para seu próprio deleite.

Denise Assumpção no clímax do show. (Paulo Floro/Revista O Grito!).

Denise Assumpção no clímax do show. (Paulo Floro/Revista O Grito!).

Esse tom brutal da apresentação acende na plateia uma atitude de igual agressividade. E todos sabemos quem é o alvo. Em “Eu Sou Um Monstro”, seu single de estreia, ela manda uma real para os caras que ainda sonham com o arquétipo da mulher afável e calada. Na ótima “Pic Nic”, o recado é para a classe média privilegiada e reclamona (“chama o psicólogo”). Na média, todas as músicas estão com um instrumental mais pesado. O show contou com faixas antigas da cantora, mas foram privilegiados sons de tons mais altos como “Guitarristas de Copacabana”, “Copo de Veneno” e “Nassiria e Najaf”. A banda incrível de Karina, que já a acompanha há alguns anos, formada por Edgard Scandurra (baixo), Fernando Catatau (guitarra) e Guizado (trompete), conseguiu dar uma unidade às diferentes fases da cantora dentro do show do disco novo.

A apresentação chegou ao clímax com a participação especial de Denise Assumpção, que surgiu no palco como uma guerreira afro enquanto Karina marcava a percussão. Essa parte belicosa é de uma beleza e catarse pouco visto hoje no rock brasileiro. Ela declamou o texto da faixa “Selvática”, que é quase um manifesto contra o mundo reaça, misógino e violento em que acabamos nos tornando (“elas não precisam da sua opinião!”). Karina encerra a performance desta parte do show segurando uma Bíblia, talvez o mais machista dos livros já feitos. É curioso (e revoltante) que em 2015 ainda precisemos nos insurgir contra temas que já deveríamos ter superado há anos. O que Selvática nos avisa é que, para lidar com essa turba conservadora e raivosa, o revide precisa vir com uma virulência e peso na mesma medida.

O show contou com três bis, com a plateia sempre ovacionando e pedindo mais, incluindo uma reprise de “Eu Sou Um Monstro”. Ao final da apresentação, Karina se mostrava bem à vontade e tirava onda com a plateia, fazia piadas. Selvática é seu melhor show até agora e o disco é um dos mais necessários para o cenário pop do Brasil em muitos anos.

Enlaçada com o fio do microfone: marca de Karina. (PF/OGrito!).

Enlaçada com o fio do microfone: marca de Karina. (PF/OGrito!).

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