(Re)Construção das imagens foi o mote da segunda-feira no Janela
Por Raphaella Spencer

Movimento de Libertação das imagens, esse é o nome da sessão que junto com a Salvar Arquivo (comentada na cobertura do sábado) mas remeteram a sensação “tapa na cara”, propíciando aquele estranhísmo saudável, que refresca nosso olhar e nos apresenta a outras relações de construção de imagem, um respiro para quem vive na busca de imagens ainda não vistas.

A primeira coisa que chamou a atenção foi a diversidade de curtas da sessão, foram nove dos lugares mais diversos. A co-produção Paraguai-argentina, Ouço seu Grito (Ahendu nde Spakui), de Pablo Lamar, exibido na Semana do Crítico no Festival de Cannes de 2008 e vencedor do BAFICI 2008 (Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente), foi o mais marcante, uma câmera fixa, com um plano aberto, enquadra as sombras formadas por um contra-luz, de uma casa com uma cadeira na varanda, no alto de uma colina. De dentro dela saem, um homem e um velório. Um anoitecer, com os sons da natureza, quebrados apenas pela beleza de um canto, cheio de lamúria e tristeza, trazem a escuridão e o fim da história, uma experiência sensorial diferente de todas as outras presenciadas durante a mostra.

Logo na sequência, outro curta, exibido na mesma sessão, também explora a quebra no uso da linguagem cinematográfica para contar sua história. Debajo, curta de Dominga Sotomayor, Chile, radicaliza, aponta a câmera para baixo, quase como se mudasse o ponto de vista de quem está na sala do cinema, experiência válida, mas que acaba colocando a forma antes da história, e se transformando numa experiência estética que não se justifica muito. Debajo, conta a história de Jaime, um homem que vive só e nesse dia recebe sua família em sua casa no meio das montanhas para assistir a um eclipse solar, vistos do alto, tudo ganha uma importância enorme, desde o simples ato de abrir uma garrafa de vinho, que nessa perspectiva é só uma mão encima de um círculo negro, até o pai que coloca a filha na cacunda e acabam se transformando numa terceira figura que surge dessa combinação. Vida longa ao movimento de libertação das imagens que também tem alguns bons representantes, dispersos, por aí em outras sessões da janela.

Ainda, na Fundação, a sessão Sozinho Ou Em Família, que agrupou seus curtas pela relação de seus personagens com o estar só, mesmo quando rodiados por seus familiares. Vale, aqui, uma referência ao curta polaco, Temporada de Patos, de Julia Ruszewiscz, 2008, uma família vive num cenário nevado, que por sí só já provoca uma certa disolação, uma situação muda completamente a forma de se relacionar de uma família e torna latente rancor, tristeza, insegurança. Apesar, do drama mais explícito, que poderia tornar o curta novelesco, a crueza dos sentimentos mostrados, a mãe que nega consolo ao filho, o irmão que nega Socorro ao outro, situações diferentes do que se esperaria de dramas que apelam para a esperança e a “bondade humana” para contar suas histórias, tornam o filme maior e nos remetem a outros cinemas do leste europeu, em bem menor proporção, me fez lembrar a forma de lidar e expor os sentimentos humanos de Bergman e Kiéslowski.

O ultimo curta do dia, Nós Três, de Umesh Kulkarni, Índia, 2008, poderia ser extremanete sensasionalista, não fosse a sutileza com que invade o espaço que dividem seus três personagens. A observação de um dia normal de um indiano defisciente, com os braços atrofiados, ele se barbeia, lê e escreve, utilizando os pés. Ponto, assim de banal a relação da câmera com o seu personagem, nada de trilha pra emocionar nem closes na dificuldade do rapaz, essa forma natural de lidar com a rotina dele e de sua família, acabam levando nosso olhar para os detalhes, seja a mãe que prepara a comida, varre a casa e faz suas orações ou o pai que entrega o jornal e assiste a televisão, nos colocando dentro da rotina comum, de uma família um pouco diferente.

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