Espera não muito agradável dos Cohen
Por Raphaella Spencer

Finalmente sábado, fim de semana, sessões lotadas e muita expectativa pela sessão exclusiva do mais recente filme dos Irmãos Coen, Queime Depois de Ler (Burn After Reading, 2008), mas esse é um parágrafo a parte. Antes rolou um momento recordar é viver com a sessão anterior ao filme.

Salvar Arquivo, esse é o nome da competitiva nacional, que antecedeu a exibição do longa dos Irmãos. Quem chegou cedo, se confrontou – acho que dá pra usar essa palavra – por que foi uma sessão nada confortável, afinal, como o próprio nome sugere, tratou-se de uma compilação de memórias audiovisuais com valor que vai além da intenção, do momento em que foi feito, mas ganha valor exibida junto com outros registros como panorama de coisas vividas e acontecidas.

O que você diria de umas imagens com qualidade que lembra quase VHS, uma jovem evangélica que chega de visita na casa de seus parentes no Ceará, figurinos com muita ombrera, cabelos cheios de permanente e muita flor de plástico? Tudo isso, já anuncia um registro “de época” importante, que alguém teve a sensibilidade de trazer a tona, e que bom. Bem, essa é a minha descrição, do que para muitos pareceu a eternidade, em que juntos a família de evangélicos rezam e interpretam o salmo do dia em Jarro de Peixes, curta cearense de Salomão Santana.

Além disso, a sessão ainda trouxe outras inusitadas surpresas, como o Nossos Filhos Ponto Com, de Eduardo Wotzik, RJ, que apesar do nome eloquente, se trata nada mais nada menos que de um gerador de caracteres no qual acompanhamos a troca de mensagens instantâneas entre um casal de adolescentes “mmmuuuuuuiiiitttooo queridos”, com direito a tudo que incomoda os simples mortais a favor do uso da língua portuguesa do jeito que ela é. O curta carioca Ismar, de Gustavo Beck, exibido no início do ano entre os curtas digitais do Cine PE é sempre bom de rever. Com o sonho de conhecer Hollywood, um adolescente de 12 anos entrete o público de programas como o Jô Soares Onze e Meia e o Céu é o Limite, respondendo dificílimas perguntas sobre o cinema clássico americano além de cantar e sapatear como um verdadeiro miquinho amestrado. Mas por onde anda o adulto Ismar, com um passado tão pertubador e insólito? Essa é a pergunta que o curta responde. Mais uma prova de que na dúvida é sempre melhor apertar o rec, pois um ponto de vista é o limite entre um simples registro e o que é história.

Com a sala lotada, a tão esperada estréia do filme dos Irmãos Coen, se tornou decepcionante. Queime Depois de Ler é uma comédia mirabolante e ponto. A história de dois funcionários de academia de ginástica (Brad Pitt e Frances McDormand) que confundem um CD de divagações de um alcoolatra e ex-agente da CIA (John Malkovitch) que quer virar escritor, com um valioso vazamento de informação oficial da inteligência Americana e tentam se aproveitar disso para fazer algum dinheiro com a espionagem russa, Tendo que lidar ainda com a intromissão de personagens caricatas como o ninfomaníaco e ex-guarda costas aposentado “que em 20 anos nunca deu um tiro!” (George Clooney), só tornam toda a situação mais esdrúxula.

Como boa fã dos Irmãos Cohen, depois de conhecer filmes como Barton Fink (1991), Fargo (1996) e Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), não espero só humor de um filme dos diretores, e por isso me senti um pouco frustrada. Queime Antes de Ler, não tem personagens tão consistentes quanto o maníaco obsessivo interpretado por Javier Barden, nem tem subtramas de ação ou suspense tão estruturadas quanto nos filmes anteriores, por isso e por toda a expectativa gerada com a proximidade entre o lançamento dos dois filmes, acabou deixando a exibição um pouco aquém das expectativas.

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