Cena de KFZ 1348 (Foto: Divulgação)

Menino Aranha e KFZ 1348
Por Raphaella Spencer

É fácil, através de uma conta superficial, perceber o caráter inédito que a Janela, como iniciativa, vai oferecer aos cinéfolos recifenses. Desde sexta-feira (14), iniciou-se uma maratona com uma média de seis sessões por dia com até dez curtas por mostra, multiplicados por mais oito dias que ainda vêm por aí. E aí, dá pra fazer essa continha? Enfim, mais que quantidade, com a pequena mostra do que consegui assistir na sexta já deu para perceber também que sera uma semana de muita qualidade nas exibições.

Comecei, pelas sessões da sala do Cinema da Fundação. Na competitive internacional, O amor, o sexo e outras histórias, pela qual abri os serviços, gratas surpresas, cinco delicados curta-metragens construíram com sutileza as sensações e emoções que acompanham marcantes experiências sexuais. Detalhe, dos cinco curtas, três foram exibidos na edição do festival de Cannes 2008, isso mesmo, agorinha, um deles, Man (Myna Joseph, EUA), contou como, através do encontro entre uma garota e um homem, duas irmãs acabaram tendo que compartilhar um momento único na vida de uma delas, questionando, através de uma situação extrema os limites do laço de fraternidade e amor que podem unir irmãos ou grandes amigos.

Em seguida houve a primeira etapa das competitivas nacionais, com a sessão De Fato 01, Nas margens e de cima. A sessão, toda composta por filmes com bases documentais, trouxe curtas que em comum tinham o isolamento, a solidão, o individual, mesmo em meio a coletivos, como elo. O curta Priara Jô, Depois do Ovo a Guerra, de Komoi Paraná, um dos resultados do projeto Video nas Aldeias, nos presenteou com um registro muito íntimo e espontâneo da brincadeira de guerra entre crianças da tribo Paraná. Mesmo sem entender seu idioma é fácil, pela linguagem universal dos gestos, entender a intenção de suas ações. São crianças que, mesmo sem ter vivido a guerra, conseguem supor em detalhes e com muita imaginação, o que se passa na disputa de poder.

Com a presença da diretora, Mariana Lacerda, que participou de um debate com o público após a exibição de seu curta, podemos entender um pouco mais, as questões que a levaram a realizar o curta Menino Aranha, exibido recentemente na Mostra Internacional de São Paulo. O curta conta através de depoimentos em Off, um pouco da história de Thiago João, adolescente que teve sua imagem usada pela mídia que explorava suas contravensões como feitos heróicos, mas que contraditoriamente, não se abalou, quando do assassinato brutal do menino, com tiros a queima roupa, que nunca foram explicados.

A diretora criou um universo imagético explorando a arquitetura das fachadas de prédios nos bairros da Zona Sul de Recife, região onde João costumava escalar prédios de até 33 andares. É através da brutalidade desses prédios, cada vez mais altos e mais deslocados do resto da cidade, que a diretora, criou, diferente do que se poderia supor, um delicado retrato, bastante humano, sobre um menino, que todo o tempo permanence sem identidade na narrativa, o que abre muito o curta para a nossa participação, que como espectadores somos convidados a imaginar essa figura capaz de tais feitos.

Esperado com muita ansiedade, na mesma noite, ainda aconteceu o lançamento estadual do documentário longa-metragem KFZ 1348. A premissa do longa é a procura pelos oito donos de um mesmo fusca, que contam através de suas vivências, um pouco da história da nossa sociedade entre a compra do carro novo, décadas atrás e sua corroção total nos fundos de um ferro velho, atualmente.

Detalhe, que acho importante compartilhar e que fizeram da sessão um momento ainda mais especial, foi a presença de cinco dos seis donos do carro que moram em Recife, os outros dois são paulistas, estado onde começa a trajetória do carro. Aquelas pessoas tão distintas, de realidades tão diferentes puderam se ver justapostas contando uma história em comum.

Eu estava ao lado de uma delas, uma cabelereira, Dona Ninha, que o tempo todo completava o sentido do que estávamos assistindo com seus comentários sobre cada circunstância, concordando, discordando, rindo e se emocionando com seus próprios relatos. Os diretores, Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso, também estavam presentes. Os dois fazem parte da Símio Filmes, e vêm desenvolvendo projetos individuais importantes. Conhecendo um pouco o retrospecto de seus projetos individuais fica fácil perceber por que em parceria eles conseguiram um resultado tão bom.

KFZ 1348 é um filme com muito conteúdo, passa pela biografia de oito personagens sem esquecer a história social e econômica do país que justifica a mudança do valor e do perfil dos donos do carro, mas com tudo isso ainda é um belo filme, fácil de assistir, com um universo imagético inovador e delicado. O filme ganhou o Prêmio Especial do Juri na Mostra Internacional de São Paulo.

Sem mais artigos