Foto: Ronaldo Partha/Divulgação

SECA EXPLORANDO A MENTE
Deus Danado usa a estética do Sertão implacável para abordar a natureza humana
Por Isabella Valle

Um espetáculo dramático, sinestésico, expressivo e cheio de simbolismos. É a partir da subjetividade e da universalidade que se pode avaliar o resultado cênico que Deus Danado promoveu nos últimos dias 12 e 13, no Teatro Armazém, durante a derradeira semana de Festival do Teatro Brasileiro (FTB) – Cena Baiana em Pernambuco.

Talvez a peça tenha cansado a uns pernambucanos, por ser mais uma história ambientada no sertão, com personagens sertanejos, que sofrem com a seca. Porém não é em vão que Deus Danado, escrita por João Denys e dirigida por Alda Valéria, foi contemplada com 13 prêmios em todo Brasil, como o de Diretora Revelação e melhor ator (para Pisit Mota) no Braskem de Teatro 2003. Há cinco anos na estrada – completos durante o FTB aqui no Recife – a montagem, da Cia. de Teatro Rapsódia, joga na cara do espectador a sua própria natureza humana, seus medos, seus sonhos, seus desejos e perversões, usando o drama do sertão como situação limite.

“Nunca mais vou me livrar da sua carne grudada na minha carne”, termina a história, revertendo, mas, ao mesmo tempo, reafirmando a dependência entre os personagens Luiz e Teodoro, afilhado e padrinho, respectivamente interpretados por Pisit Mota e Bira Freitas. Os dois são os últimos sobreviventes da cidade de Cruz, que há muitos anos não sabe de chuva e já não semeia nada. Ficaram na cidade porque Teodoro busca incessantemente uma botija de ouro deixada como herança. Todos os dias, enquanto ele cava a terra, Luiz o serve e cuida da casa, enquanto espera o padrinho se convencer que eles deveriam ir embora para o “oco do mundo”. Além deles, apenas há Roseta, a vaca que, em horas de desespero, serve como companheira sexual, mas que não resiste até o fim.

Cheia de metáforas, a relação entre os dois, durante diversos dias e noites (muito bem manipulados pela iluminação de Will Silva), chega a ser violenta. Eles estão no limiar da loucura, em que o amor, o prazer e a dependência em pouco tempo se transforma em impulso, instinto e agressão. O jogo de poder, o vazio, a solidão e os desejos levam o árido aos personagens, que se mantêm um ciclo doentio, chegando à traição. A cegueira ao final da peça traz o poder a Luiz, que, sem mais medos, sem mais ver, sendo tudo escuridão, tudo noite, passa a ter o controle da situação e a dominar o padrinho, que o dominava.

Não se sabe se a história busca um realismo, se tenta tratar de conflitos familiares ou se procura colocar em dois personagens uma única pessoa, como se Teodoro e Luiz se completassem e se conflituassem como o próprio ser humano bastado em si mesmo. Para os mais socialmente engajados, a peça pode ser um tapa na cara das autoridades, que permitem que seres humanos possam viver naquela miséria. E é. Mas para os que também enxergam além, ela é um drama bastante psicológico e antropológico, que fala de todos nós, para mais adiante da causa social, das nossas misérias humanas.

Os que foram ao teatro esperando menos gestos, menos metáforas, menos drama, menos luzes quentes, menos barro e nus e, claro, mais ação e cadeiras mais confortáveis, de fato, não terminaram bem o dia. Ir assistir a Deus Danado está longe de ser um passeio divertido e as únicas gargalhadas que se percebe da parte do público são consequentes do desconcerto e da insegurança em encarar a si mesmo – ou ao ator simulando uma masturbação. Porém a peça não termina com a última deixa, com o fim do entretenimento ou com a volta pra casa. Ela fica se movimentando pela mente, muito além da pura e recorrente estética da seca.

[+] LEIA A COBERTURA DO FESTIVAL DE TEATRO BRASILEIRO: CENA BAIANA

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