Crédito: Val Lima/ Divulgação

Crédito: Val Lima/ Divulgação

Espetáculo da Cia. Circo Mínimo mistura circo, teatro, dança e crítica ao regime militar

PRIMEIRO DIA: GENINHA ROUBA A CENA E CIA. PAULISTA POUCO ENCANTA
por Fernando de Albuquerque e Júlia Veras

Pelo mnos nos últimos anos uma característica não muito orgulhosa permeava os dias de abertura do Festival Recife de Teatro Nacional: a ausência de platéia. Era constrangedor ver as autoridades, patrocinadores e (pior ainda) o homenageado de cada ano falar às moscas em um dos principais teatros recifenses. Mas esse ano foi um pouco diferente. Palmas! A área da platéia estava lotada, a primeira linha de frisas também e aos poucos, com o andor do tempo e o atraso da sessão (que prevista para as 20h só teve início às 21h30) fez com que o teatro de Santa Isabel ganhasse mais corpo. Palmas novamente!

Dentre as falas de tanta gente e a não presença do prefeito do Recife, João Paulo Gomes, quem roubou a cena, muito mais que o próprio espetáculo que estava sendo apresentado foi Geninha da Rosa Borges, a homenageada desta edição. A diva do teatro pernambucano, dona de uma espontaneidade que nega a própria profissão a que se dedica, foi aplaudida de pé a cada suspiro que dava e apresentou três pequenos trechos do clássico de Lorca, Yerma, que dirigiu anos antes e apresentou o texto como Solilóquios de Yerma.

Na sequência entrou no palco a companhia paulista Circo Mínimo com a montagem Miranda e a Cidade. O espetáculo, montado em comemoração dos 20 anos de atividades da cia., conta com dramaturgia de Aimar Labaki e direção de Rodrigo Matheus. A peça é uma adaptação para “A Tempestade” e mantém aqui os personagens de Próspero e Miranda de Shakespeare. A inovação da trama está no transporte do enredo para o Brasil do regime militar, no início da década de 70.

Na história, Próspero é um publicitário que foi para uma mítica ilha com a filha para fugir da ditadura militar, depois de ter ajudado a difundir a ideologia da soldadesca. Ele, contudo, é obrigado a voltar à cidade para continuar ajudando o regime com sua genialidade e deixa sua filha na ilha e assim salva na ignorância. Uma espécie de analogia tardia ao mito da caverna. A adolescente parte em busca do pai na cidade grande e o enredo começa de verdade.

Miranda e a Cidade, contudo, força um pouco a barra ao juntar Shakespeare, circo, crítica à ditadura, teatro e dança. É tanta linguagem junta que gera uma espécie de dispersão na platéia. Nessa contramão o público se vê diante de belas cenas. Tanta amálga gera uma pequena, porém desastrosa pergunta e que vai de encontro a uma das primeiras falas de Próspero (“Perguntas mal formuladas geram resposts indesejadas”): o que se deseja dizer com a peça?

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