MAR DE PROBLEMAS, INOVAÇÕES E SURPRESAS NA SAUNA CINE UFPE
Palco gratuito do festival revelou nomes curiosos da nova cena independente, mas apresentou problemas na sua atração mais aguardada
Por Paulo Floro

Dia 1: Parede sonora e guitarras inglesas from Natal

A Sala Cine UFPE confirmou este ano sua vocação como espaço privilegiado para novas sonoridades e boas novidades escondidas na cena independente nacional. O que talvez a organização do evento ainda não tenha percebido – ou talvez tenha, mas não há muito o que fazer – é que o local é um sucesso de público. É notável que quase todos os shows estejam com platéia lotada. Neste ano, com uma estrutura melhorzinha – controle na entrada, palco maior – se viu enormes filas antes das apresentações. Pra completar, alguns dos melhores momentos do festival aconteceram ali, como Guizado e Zeca Viana e Onomatopéia Bum.

Logo no primeiro dia chamou atenção o instrumental potente de um bando de garotos que aglomeram uma animada platéia na frente do palco. Eram os pernambucanos do A Banda de Joseph Tourton, que continuaram com os trabalhos experimentais da noite. Eles até ensaiaram adentrar em cenários mais pop, mas se destacaram mesmo no virtuosismo nos instrumentos, sobretudo em músicos de tão pouca idade. Antes, o Burro Morto, da Paraíba tinha aberto a seleção cabeça com seu som instrumental com um pé na psicodelia. A chapação do som fez todo mundo mexer o corpo e muitos saíram da salinha numa espécie de transe após estes dois shows.

O último show, o Guizado, confirmou a experiência quase sinestésica. Mesmo com recorrentes problemas de som, a banda formada por medalhães da cena indie paulistana, entre eles Curumin na bateria, não faria feio se tivesse tocado no palco principal. Com um recém-lançado disco, o elogiado Punx, Gui Mendonça, o homem por trás do projeto Guizado tem como proposta usar instrumentos inusitados para criar melodias pop, dançantes, experimentais e pesadas. Vanguarda, alguns dizem, mas é melhor não arriscar.

Antes, deslocado na noite, o Bandini (RN) lançou seu pós-punk para a platéia. O local demorou a lotar, mas logo entusiastas da banda davam uma forcinha ao grupo, que demonstrou nervosismo no início da apresentação. O apelo pop é inegável, o que fez dos potiguares uma surpresa naquela noite instrumental. Calcados em nomes recentes como Editors e Interpol, a sonoridade da banda, mesmo que ainda precise encontrar uma maturidade que só virá com o tempo representa uma nova geração de bandas antenadas com o que estã acontecendo no cenário pop mundial, como o Sweet Fanny Adams, por exemplo. Ainda conta ponto para a banda o fato de tocarem apenas músicas próprias – como bem avisou o vocalista Felipe no início do show – e o frescor juvenil que mistura inocência com pretensão. Boa aposta.

Zeca Viana  (Foto: Divulgação)

Dia 02: Dia de azar para os Doces Bárbaros

O caos ameaçava a se instaurar no segundo dia da Sala Cine UFPE desde o início, com o atraso de quase duas horas no show do Pocilga DeLuxe. Logo mais, o local iria presenciar o episódio mais constragedor do festival durante a apresentação dos suecos do Club 8, que tiveram a apresentação comprometida. O dia era mais pop, com a esperada apresentação da noite, Zeca Viana e A Onomatopéia Bum e seus figurinos de super-herói.

André Balaio e sua Pocilga DeLuxe pensaram uma performance interativa, com uma espécie de gincana que consistia em acertar todos os filmes que passavam no telão. Não deu muito certo, mas funcionou no show, criando uma experiência audiovisual interessante. Cenas do filme Metrópolis, de Fritz Lang eram exibidas enquanto a banda falava de uma boneca inflável, entre outras sacadas interessantes. O público esboçava reação de estranheza para as letras debochadas do grupo, como “Amor de Cemitério” e “Bandida”. Alguns exclamaram “isso é tão idiota quanto genial” ou “é cada coisa absurda”. Difícil mensurar o quanto isso tem de positivo. No mais, o pop-rock sacolejante do Pocilga injeta bom humor na cena, o que é muito válido.

O show mais legal da Sauna Cine no sábado foi Zeca Viana e A Onomatopéia Bum, que chegaram vestidos de super-heróis, em figurino assinado pela grife pernambucana Meketrefe. Zeca, baterista do Volver chamou os amigos para fazer um show recheado de referências. Até as imagens preenchiam uma proposta. A banda mostrou tanto carisma que ouviu sons de “aaahhh” no final, mesmo entrando praticamente desconhecida no palco. As letras pertencem a um mundo de histórias em quadrinhos pulp, de desenhos animados antigos, de jogos de montar. Boas idéias misturadas a um deboche ensaiado e cheio de graça das irmãs Egito (Sofia e Maíra). Até a fleuma do guitarrista convidado Domingos, do Monodecks soava engraçado.

Em seguida o Akin apresentou seu rap de fundo social, característica lugar comum no Hip Hop brasileiro. Mesmo com um discurso um tanto mofado, de nuances quase apocalípticas, ele chamou atenção com uma sonoridade sofisticada que colocou todo mundo pra dançar. Depois que Akin e seus amigos saíram do palco, uma pequena multidão já se aglomerava à frente do palco esperando o Club 8. O enfado da demora se transformaria em tensão logo.

Mais de uma hora se passava e problemas técnicos não permitiram a entrada da dupla sueca. Apenas Johan Angergård, uma das metades do duo, tentava de todo jeito arrumar as coisas. Jornalistas e fotógrafos se acumulavam no local, enquanto o show de Catarina acontecia no Teatro. Quando o defeito parecia resolvido e a banda entrou ovacionada, o teclado de Karolina ainda não funcionava, o que atrapalhou a performance dos dois. Pra completar, um grupo exaltado de fãs, alguns bêbados aumentaram ainda mais o azar dos suecos. Eles se mostraram surpresos ao ver a platéia lotada cantar algumas de suas músicas, mas a resposta do público era pouca. O entrosamento banda-platéia foi prejudicado por um estresse coletivo que ainda pairava. Eles saíram sem tocar os hits do último disco (o melhor da banda), The Boy Who Couldn’t Stop Dreaming, “Football Kids” e “Whatever You Want”.

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