O Festival No Ar Coquetel Molotov chegou à maioridade. Com o maior público de sua recente história se firmou como um dos principais eventos do calendário cultural de Pernambuco, além de se destacar em importância no cenário pop nacional. Distante de todos os lugares do Grande Recife, o teatro da Universidade Federal de Pernambuco não mostrou nenhum empecilho para o público que movimentou o Centro de Convenções. Entre as principais atrações, nomes desconhecidos ou ainda promissores como Cibelle, Love is All e Vamoz!.

Com o formato “show de rock em teatro”, o No Ar consolidou personalidade em relação a outros festivais pelo país. Catequizou também um público, mais aberto a novidades, sem necessidade de um grande medalhão para comparecer ao evento. E se engana quem pensa que o público são os chamados “indies”, rótulo cada vez mais estreito. O que se viu nos dois dias de apresentações foi uma fauna bem heterogênea. Deve ser curioso para uma banda, sem disco lançado no Brasil, chegar numa cidade onde todos pulam e cantam e se divertem com suas músicas.

Diversa também foi a escalação este ano. Post-rock, samba, indie, pop francês e o projeto Invasão Sueca, imbutido no festival. O apoio do Funcultura e da TIM deu maior visibilidade ao evento, com programação multimídia, que começou semanas antes das apresentações do teatro. Ainda não foram divulgados os números deste ano, mas o calor na sala Cine UFPE, a vibração do público, filas para comprar ingresso e teatro lotado deixava tudo evidente.

SEXTA 14 SETEMBRO 2005

SALA CINE UFPE

Peso Pra Começar
Por Paulo Floro. Fotos Helder Tavares

Com cenas de violência no telão, (Clube da Luta, Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes) o Fóssil deu início aos shows deste No Ar. A banda escalada para abrir o festival, o Backstages não pôde se apresentar. A sala que no dia seguinte atingiria o cúmulo do aperto e claustrofobia, já se mostrava pequena para a platéia. Post-rock instrumental, a banda do Ceará mostra ares promissores e mandou bonito com suas guitarras pesadas, sempre com muita força e, claro, violência.

O Elma continou a linha post-rock-instrumental-barulhento da Sala Cine UFPE, com a diferença que, os paulistas fazem heavy metal. E tome bate-cabelo. O peso do metal-indie do grupo contagiou o público, que mesmo sentado (ou deitado em almofadas) respondia batendo a cabeça e vibrando a cada mudança de direção das três guitarras. O show contrastava com o tom intimista da minúscula sala, e levava alguns fãs a uma interação desnecessária com a banda. O vocalista da banda Angst que assistia aos shows chegou a opinar sobre o som. “Eu sei o que é ter uma banda de rock experimental”, disse. “Cala a boca bicha babona”, respondeu a platéia.

TEATRO DA UFPE

Volver :: Grande!
Por Paulo Floro. Foto Helder Tavares

Volver (Foto: Helder Tavares)

Bruno Souto Maior, vocalista do Volver esbanjava carisma e abriu o palco principal do festival. Elogiou a qualidade do som do teatro, mandou seu maior hit “Você Quem Pediu” e recebeu uma boa resposta do público. A mistura de jovem guarda e Strokes da banda parece guardar boas surpresas. O grupo experimentou música do novo disco, com previsão para início de 2008, Acima da Chuva. A banda, que desde o carnaval não se apresentava em Recife, mereceu aquele palco grande para apresentar seu novo repertório e, tocar num evento deste porte, depois de tanto tempo pode representar uma nova fase do Volver.

Supercordas :: Baixos Teores
Por Paulo Floro. Foto Helder Tavares

Supercordas (Foto: Helder Tavares)

É preciso investigar os motivos que fizeram o show dos cariocas do Supercordas tão ruim. Um ótimo disco, Seres Verdes Ao Redor (2006) e letras bem construídas não foram suficientes para garantir um bom show. O som, agora péssimo, pode ter ajudado, mas é fato que carisma e presença de palco compensam certos transtornos técnicos. Sons de pássaro, barulhinhos e outros atrativos sonoros não ajudou a banda, que num ensaio de interação com a platéia soltou o infeliz comentário na música “Fotossíntese”: “Da terra de onde viemos também tem muito manguezal”. Era tarde demais para manter qualquer esperança de recuperar algum bom momento, mesmo em ótimas canções como “3000 Folhas”, “Frog Rock” e “Ruradélica”.

Love is All :: Pequenos Ilustres
Por Paulo Floro. Foto Helder Tavares

Love Is All (Foto: Helder Tavares)

O palco ficou grande para o Love is All. A diminuta vocalista Josephine aproveitava para passear de um canto a outro com sua voz nada elaborada, aos gritos, pulando, dançando de um jeito desengonçado. Donos de um ótimo disco de estréia, Nine Times The Same Song (2006), o grupo tocou quase todas as músicas de sua recente carreira e mandou a ainda inédita “Wishing Well”. O show foi rápido de tão divertido. O Love is All leva ao extremo a máxima do “pop desprentensioso e descompromissado”. Zero de afetação, misturam punk com ingenuidade. Desconhecidos de grande parte da platéia, cativaram o público, conversando bastante, e animando a noite após o show morno do Supercordas. Melhor show do festival esse ano.

Prefuse 73 :: A Vibe Ideal
Por Rafaella Soares. Foto Helder Tavares

Prefuse 73 (Foto: Helder)

Quem entrou no teatro na hora das mãozinhas pra cima estilo “Yo” de antemão acompanhou com a cabeça em sinal de aprovação a novidade que estava no palco. Liderada pelo inquieto Scott Herren , o projeto conta com dois dj’s e um baterista e fizeram um show instrumental mais enérgico e inovador que as indie bands presentes na noite. Curioso ver a última apresentação ainda arrancar entusiasmo da platéia que estava lá claramente pra ver Love Is All, sem ter nem mesmo alguém nos vocais. Músicas de até seis minutos se misturam a vinhetas de poucos segundos, numa bem amarrada colcha sonora com forte influência de hip hop. Os títulos são um pouco estranhos: lembram muitas vezes esdrúxulas manchetes de jornal. Além da aparente influência americana, no entanto, o homem por trás das picapes assume beber na fonte de muitos nomes brasileiros,como Lula Côrtes,Secos e Molhados, Cassiano, Gal Costa, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Tim Maia, entre outros. Isso talvez explique seu trabalho com o Savath & Savala, algo próximo da argentina Gotham Project. Numa escalação perfeita, Prefuse 73 teria entrado depois de Supercordas, banda que se for chamada de morna já sai no lucro. O objetivo de um Festival no fim das contas bastante heterogêneo, se concretiza quando revela nomes interessantes dessa forma, despretensiosamente.

SÁBADO, 15 SETEMBRO 2007

SALA CINE UFPE

Pop Apertado
Por Por Paulo Floro e Breno Soares, texto e fotos

Suburban Kids With Biblical Names (Foto: Paulo Floro)

Meio sem sentido colocar uma banda experimental como o Conceição Tchubas ao lado do pop escandinavo do Hello Saferide e Suburban Kids With Biblical Names. Mas esse foi o menor dos problemas da Sala Cine UFPE neste segundo dia. Centro de Convenções lotado, era preciso se aventurar para assistir aos shows. O rock pesado e indigesto do Conceição Tchubas agradou aos fãs de post-rock instrumental que marcaram presença no primeiro dia.

Na apresentação das meninas do Hello Saferide, o que era caótico atingiu o limite do suportável. Calor de matar e muita, muita gente na sala. Foi preciso abrir um corredor entre as pessoas para que a banda entrasse. Era tanta gente que nem mesmo jornalistas que cobriam o evento conseguiram chegar próximo das cantoras. Tirar fotos então, era bem complicado. Espantosa é a capacidade do público em consumir novidades. Em condições tão ruins, quem estava presente se emocionou com o pop singelo da dupla sueca. Pontos altos foram a cover de “God Only Knows”, dos Beach Boys e uma música em sueco.

O show do Suburban Kids with Biblical Names começou tranquilo, com música de batidas leves, que foram embalando gradativamente o público. O calor fazia com que as pessoas não se movessem muito, mas isso não durou muito tempo, pois as canções agitaram bastante os presentes. Munidos com um ipod para levar as batidas eletrônicas, o SKWBN entraram em um momento pop eletrônico e convidaram os espectadores a se levantar e dançar, o que foi prontamente atendido pelo público mais que empolgado da banda. Pessoas cantando as letras, outras praticamente penduradas para vê-los deram o toque de sucesso a apresentação dos suecos. Conterrâneos dos garotos, entre eles os Love is All não conseguiu entrar e se limitou a prestigiar do lado de fora, aos bafos de calor de quem estava dentro da platéia.

TEATRO DA UFPE

Vamoz! :: It’s Only Rock’n’Roll
Por Paulo Floro. Foto Helder Tavares

Vamoz! (Foto: Helder Tavares)

“Isso é um show de rock, galera, vamos ficar de pé”, pedia Marcelo Gomão, vocalista do Vamoz!. Não é o primeiro a pedir que o público se levante das confortáveis cadeiras do teatro. O desconforto foi logo embora nas primeiras músicas, com o público cada vez mais empolgado. Com produção caprichada, baseou o show no disco novo Damned Rock’n’ Roll, mas cativou o público com faixas do primeiro disco To The Gig On The Road (2003). Show do Vamoz! é uma catarse roqueira, com todos os elementos clássicos incluídos e este não foi diferente. Foi também a primeira das bandas da noite a servir bebida ao público. No fim, um agradecimento emocionado encerrou o primeiro show no mais lotado dia da história do Coquetel Molotov.

Wado :: Nada Demais
Por Paulo Floro. Foto Helder Tavares

Wado (Foto: Helder Tavares)

Mais um prejudicado pelo som ruim do segundo dia, o alagoano Wado teve que improvisar conversando com a platéia. Em alguns momentos, quase se torna constragedor ouví-lo falar
sobre inúmeros assuntos, enquanto o som era ajustado. O sambinha com ares de dub fez bonito após o peso do Vamoz!. Com certo carisma, Wado não chegou a encontrar seu público, apesar de muitas pessoas estarem de pé, dançando. O problema da apresentação do músico é sua linearidade, sem muitas surpresas ou evoluções. Tímido, não teve muita relevância naquela noite.

Cibelle :: Emoções
Por Paulo Floro. Foto Helder Tavares

Cibelle (Foto: Helder Tavares)

De Londres, a cantora Cibelle chegou emocionada em Recife, onde beijou o chão do palco e esbanjou carisma. E carisma foi arma importante na apresentação da cantora, já que novamente o som deu problema e foi preciso conversa pra entreter o público. Talvez irritados pelo calor e teatro lotado, o público abusou da má educação. Mas Cibelle não se importou muito. “É ótimo poder cantar e não explicar as letras”, disse bastante feliz em tocar no Brasil. Novo problema técnico e alguém grita: “Cala a boca, porra”, ao que ela prontamente responde: ““óxente, fala assim comigo não”, imitando o sotaque de Recife. Foi delicioso. Cibelle não precisou fazer nada para cativar o público, mesmo afetada pelo clima caótico que era aquele sábado no festival. Na catarse de “London, London” usou barulho de brinquedos e, ao sair, implorou mais 10 minutos. Podia ter ficado 30, que estava tudo ótimo.

Nouvelle Vague :: Go Out On Friday Night, Come In On Saturday Morning
Por Rafaella Soares. Foto Helder Tavares

Nouvelle Vague (Foto: Helder Tavares)

A banda entrou quando o teatro já estava lotado, flashes espocando por todos os lados, e como esperado, baseou a apresentação no disco Band a Part (2006). Recife foi a última cidade que recebeu o quinteto francês e suas versões bossa nova e lounge para clássicos ingleses dos anos 80. A cover da banda inglesa P.I.L. “This is not a Love song” abriu o show, com as dancinhas performáticas das vocalistas Melanie Pain e Phoebe Kildeer empolgando a platéia. A dupla,vestida como melindrosas modernas, ganha a platéia entre mímicas e coreografias fofas e a iluminação ajuda a criar um clima algo anos 20. Seguiram outros sucessos como “Human Fly”,”Let me go”, ”Guns of Brixton” e “Don’T Go”, cantadas em coro pelo público. Aos poucos a interação ficou maior e o auge da noite foi o momento em que a banda tocou o hit “Too drunk to fuck”, de Dead Kennedys. Pra delírio geral, as meninas socializaram com o público uma garrafa de uísque, esvaziada em poucos segundos por quem estava no gargarejo. Em seguida surgiram os primeiros acordes da seqüencia mais bacana da noite: “Dancing with myself”, “Heart of Glass”, “Blue Monday”e “Even Fallen in Love”. O set list teria sido perfeito se “Love will tear us apart” e “Bella Lugosi’s dead” fossem seguidas de “The Killing Moon”, pedida insistentemente pelos saudosistas entusiastas do Echo and the Bunnymen. Depois de acesas as luzes do teatro, a banda brindou os fãs no bis com uma versão quase em slow motion de “I Just Can’t get Enough”, proporcionando um final extasiante.

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