E NÃO TEVE LEÃOZINHO, ENFIM
Primeiro dia do festival foi marcado pela histeria dos fãs do Beirut e histeria (no palco) das suecas do Those Dancing Days
Por Paulo Floro

Ainda eram 17 e poucas da tarde e fãs do Beirut já faziam fila em frente ao Teatro Guararapes, lugar onde aconteceram os shows do palco principal do Festival No Ar Coquetel Molotov este ano. Com discos lançados desde 2006, a banda formada pelo frontman norte-americano Zach Condom ficou famosa no Brasil por causa da minissérie Capitu, exibida pela Rede Globo que utilizou a música “Elephant Gun” em sua trilha. Mas, claro, que nenhum fã neófito do Beirut ousaria admitir que começou a gostar do artista por causa da Globo. Curiosamente, a referida música foi a única cantada em coro do início ao fim pelo teatro lotado.

Mesmo Beirut monopolizando corações e mentes do Centro de Convenções horas antes de sua apresentação, o Auditório Tabocas (o tradicional espaço dos shows gratuitos) mostrou coisas interessantes. A primeira delas foi a apresentação da banda pernambucana Ex-Exus, que fez um som experimental, com vocal gritado, começando os trabalhos do festival com uma proposta inovadora. Diferentemente da banda seguinte, a Dead Lover’s Twisted Heart, um amálgama de dezenas de bandas indies dos anos 00, de Kings of Leon ao TV On The Radio. Chamou atenção pela baterista bonitinha e profusão de guitarras, que, em alguns momentos parecia que ia empolgar.

Em comparação com o ano passado, o palco gratuito tinha uma estrutura boa e o público não precisou ficar apertado num espaço minúsculo como era a Sala Cine UFPE. A cantora Britta Persson, outra atração da Invasão Sueca presente no festival foi beneficiada pelo boa estrutura sonora do lugar, já que o som da moça é cheio de reverbs e efeitos sonoros de guitarra. Sem falar na sua voz, permanentemente distorcida. O destaque mesmo ficou por conta das meninas do Those Dancing Days. Elas eram só cabelo e atitude e botou todo mundo pra dançar. Um grupo de fãs se espremia em frente ao palco pedindo músicas, o que poderia levar as garotas a pensarem que são famosas no Brasil. O melhor momento foi a cover de “Toxic” de Britney Spears. Ainda bem que ser indie hoje em dia não é mais sinônimo de ser um chato.

– Os show do palco principal, no Teatro Guararapes este ano foram mais curtos, mas com qualidade surpreendente. Lotado, desde antes da apresentação de Jam da Silva, muita gente já sentava em frente ao palco, o que precisou de muita paciência do apresentador do evento para pedir que as pessoas se afastassem do local. Precisou seguranças fazerem uma espécie de barricada para conter uma eventual invasão no palco. Afinal, na apresentação do Beirut no PercPan, em Salvador, o público não só invadiu como roubou instrumentos do palco.

Jam da Silva, ilustre desconhecido foi feliz em seu show, conseguiu chamar atenção com sua música complexa e cheia de camadas, mas no fundo, fez algo tão ortodoxo que se tornou cansativo. Faltou um toque pop. Thiago Pethit, apesar de uma criativa proposta musical – chama atenção em seus registros sua voz, cheio de elementos surpresa – não deu muito certo no lotado teatro Guararapes. Engolido pelo palco tão grande, faltou “crescer” para aparecer, impor uma personalidade. Do meio pro final, iniciou um rebolado que defendeu até o fim. Tiê, outra boa novidade musical o acompanhou em algumas músicas. Acabou de modo abrupto, com o público atônito, talvez, tanto quanto Thiago.

Em seguida, o francês maluco Sebastian Tellier ameaçou fazer a melhor apresentação da noite. Se jogou no chão, falou em línguas estranhas (etílicas) e mostrou criatividade nos arranjos na guitarra e piano. Show impecável em presença de palco e massa sonora, só não foi perfeito porque foi curto. Demorou para o público entrar na sintonia de Tellier. No final, se via algumas pessoas de pé dançando.

Beirut entrou no palco do Guararapes depois de muito pantim. Era pedido que os fãs liberassem a área em frente ao palco. Depois, pediram que se sentassem. Realmente, é meio sem sentido cobrar que a plateia não ovacione o headline de um festival. O que se tem em mente ao fazer um festival de música num teatro? Populares, a banda não teve trabalho em se entrosar e falavam um português rudimentar o tempo inteiro. Soltaram, inclusive, “Toca, Raul”. Fica a dúvida se Zach Condom e sua trupe tiveram conhecimento que, por conta da trilha sonora da minissérie Capitu, da Globo ficaram famosos por aqui. Porque, estranhamente, essa foi o único hit cantado em coro. Talvez o Coquetel tenha conseguido abarcar um público não tão alternativo.

Depois de vários pedidos de música brasileira, a banda tocou “Aquarela do Brasil”, mas em inglês, no primeiro bis. Faltou coragem para, assim como fizeram com “Leãozinho” em alguns palcos norte-americanos, se aventurarem com mais força no português.

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