Beto Figueiroa/ Divulgação

A chuva intensa e o feriado no meio da semana não impediram que o hall Centro de Convenções – localizado na transição entre Olinda e Recife – se transformasse num mar de gente. Às 19h (com a sessão iniciada “oficialmente” às 18h30) havia um contingente gigantesco de possíveis espectadores tentando adquirir ingressos. Bem ou mal, a apresentadora do Cine-PE, Graça Araújo, enquanto convidava realizadores para anunciar seus curtas bravejava que na frente do teatro ainda restava poltronas vazias. Mas vamos aos filmes…

Na competição de curtas estavam Porcos Não Olham para o Céu, Ismar, Cânone para 3 mulheres, Dreznica, Ocidente, Uma e Décimo Segundo. Os dois primeiros no formato digital e os cinco últimos em 35mm deram o tom de uma das noites cuja seleção foi a mais bem acertada e notadamente experimental até então. Tendo o hermetismo como a marca principal, a sensação que pairava era de que, finalmente, o Cine-PE entrava nos eixos ao conjugar gente de talento com produções de excelente nível.

A ficção riograndense de Daniel Marvel e com roteiro de Everton Klein, Porcos Não Olham Para o Céu, foi quem deu partida à competição nos falando sobre o desespero de uma personagem com transtorno obsessivo compulsivo (o TOC). Catarina, interpretada pela estudante de jornalismo Jê Martins, decide dar cabo à sua existência tomando comprimidos que encontra no armário de seu banheiro. Depois de tomá-los, folheando o jornal do dia, vê na grade de televisão um programa especial que iria falar sobre aquelas velhas curiosidades do mundo animal (as formigas não dormem e os porcos não olham para o céu devido às dobrinhas no pescoço, etc, etc…). Lendo isso, ela julga que não pode perder o programa, então passa a lutar de todas as formas para colocar o que ingeriu para fora e para isso lança mão de uma miríade de produtos, alimentícios ou não (!), para vomitar. O argumento poderia ser considerado fraco se não fosse uma direção de arte acertadíssima, fotografia impecável e soluções lúdicas, inteligentes e muito irônicas para contar a história esdrúxula da morte de uma anônima. O melhor curta da noite!

Alguém se lembra de um gordinho peidão que decorou enciclopedicamente filmes clássicos hollywoodianos? Ele apareceu em O Céu é o Limite e no Programa do Jô, quando esse ainda era às 23h no SBT. O menino, com apenas 12 anos, surpreendeu o país com sua sapiência e deu pano pro riso na platéia do Cine-PE. Era impossível não cair na gargalhada quando o menino mal vestido e trôpego tropeçava, dançava em momentos nada haver ou se desesperava porque não se lembrava da resposta certa para ganhar o dinheiro necessário para conhecer Hollywood. Até então seu sonho.

Mas o filme de risível se torna forte quando procura o seu personagem hoje. Ele está em uma pequena festa, ao que parece no seu apartamento. Está barbudo, magro, com um look descolê, carrega certa timidez e é uma vaga lembrança do que foi. Poderíamos dizer que o curta nos fala sobre o tempo, sua passagem e transformações, mas não. Essa não é a idéia. Mas é quase impossível não notar a questão da morte que, na simbologia das cartas de tarô, significa pura transformação. Ismar, hoje, é outro. Não apenas fisicamente. E o assustador está na permanência do que foi um dia, capturada e armazenada para futuras averiguações em fitas VHS. E, no fim do curta, Ismar, ainda com 12 anos canta. Canta o que já foi.

Cânone Para 3 Mulheres entrou para o hall de piores animações do Cine-PE. O curta endinheirado não passa de um mero exercício em 3D de como mixar cores berrantes em personagens fisicamente mal compostos. Uma pena, produções como essa, receberem bons patrocínios. Já Dreznica, da carioca Anna Azevedo, provoca uma reflexão sobre imagens a partir do depoimentos de deficientes visuais que contam como é viver sem enxergar, como é contraditório ver imagens quando sonham e ao acordar tudo voltar à escuridão.

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Kléber Mendonça Filho, Emilie Lesclaux e o diretor Léo Sette antes da apresentação do curta Ocidente

Ocidente, do pernambucano Léo Sette, foi o filme de maior caráter experimental do Cine-PE. No curta, se vê dentro de um trem um casal de idosos. Ele lê um livro, ela folheia um jornal. O espectador vê a paisagem externa e interna do vagão em um plano fixo captado por fora do TGV que vai de Paris à Marselha. Há, ainda, a incorporação de outras imagens de paisagens, de um casal de beijando, de outros casais parados. Lembranças e reflexos de sentimentos que permanecem atrelados em cada relacionamento amoroso, a incomunicabilidade entre as pessoas. Poderíamos elencar várias temáticas. Nenhuma delas, contudo, caberia à esse curta de seis minutos que causou tédio e bocejos.

Na seqüência vieram o brasiliense Uma, de Nara Riella, e Décimo Segundo, do pernambucano Léo Lacca. Protagonizado por Anna Canton, André Deca e Érica Lacerda, Uma, nos conta do desespero de uma mulher que no meio de um casamento morno tenta encontrar sua própria identidade para salvar o casamento e a própria filha. A história é contada de trás para frente e de forma a confundir o espectador. Já o pernambucano Décimo Segundo tem início com um homem, recortado apenas pela boca, lançando uma brincadeira no interfone, espécie de código secreto com a pessoa do outro lado da linha. Depois do elevador passar por 12 andares, a platéia conhece a outra jogadora que faz uma brincadeira escondendo a bagagem do sujeito. São gestos mudos, frases e tirações sem qualquer contexto ou explicação que fazem com que o espectador sinta falta da senha de acesso ao universo da copa de um apartamento qualquer, em um lugar qualquer, com pessoas anônimas. Assim Lacca mostra o poder que as lentes têm de contar histórias sem precisar de muitas palavras. Totalmente desnecessárias as vais que o filme recebeu no final.

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A equipe do curta Décimo Segundo foi aplaudida quando subiu ao palco e vaiada após apresentação do filme

Longas
Cansativos, monotemáticos, redundantes e sem impulso. Assim poderíamos caracterizar os longas Olhar De Um Cineasta (SC) e Pernambuco: O Golpe (PE). O primeiro nos conta um perfil de Marcos Farias, cineasta precursor do Cinema Novo, através de depoimentos de gente importante como Cacá Diegues, Eduardo Coutinho, Nelson Pereira dos Santos. Já o longa pernambucano, sem ser inédito e não estar na concorrência, seguiu na mesma linha de reunir depoimentos e imagens preciosas de um dos períodos mais obscuros da política nacional.

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