Da Revista O Grito!, em Belo Jardim (PE)

As veias da América Latina estão abertas em Belo Jardim (PE). Desde esta segunda (21) acontece na cidade do agreste pernambucano o IV Cine Jardim – Festival Latino-Americano de Cinema de Belo Jardim. A partir dessa edição o evento expande seu alcance abrindo suas mostras para os filmes produzidos pelos países latinos. A participação de filmes vindos de outros países ainda é pequena – na mostra competitiva de curtas temos os curtas Argentinos El Niño y la Noche, de Claudia Ruiz, e Los Dos Cines de Yody Jarsún, de Alejandro Bermúdez, e o colombiano Mañana, de Camilo Obregón – mas já é um bom início de abertura para receber filmografias que infelizmente circulam muito pouco entre nós.

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Na mostra competitiva de longas-metragens os filmes em exibição são todos brasileiros, mas a primeira produção exibida na abertura do festival fez jus a nova proposta do evento. O documentário experimental do cineasta Paulo Dantas, Kinopoéticas InArmónicas, lança seu olhar sobre o continente sul-americano desenvolvendo um ensaio poético a partir de episódios históricos. Dantas tem na sua carreira várias realizações onde investiga episódios sociopolíticos e culturais e mescla sua pesquisa jornalística com filmes emblemáticos que retrataram esses acontecimentos.

A programação de curtas até o momento tem apresentado filmes muito interessantes, mostrando a diversidade da produção vinda de vários estados e países. No primeiro dia da mostra competitiva um dos destaques foi Fantasia de Índio, da cineasta estreante Manuela Andrade, que por conta de uma possível ascendência indígena foi ao encontro dos xucurus e se encanta com o contato com um povo que enfrenta uma luta constante para regularização de suas terras e preservação de sua cultura. Outro documentário tocante exibido foi Flecha Dourada, da catarinense Cíntia Bittar, com antigos lutadores de tele-catch falando sobre suas memórias no ringue.

Flecha Dourada fala dos saudosos filme de tele-catch. (Divulgação).

Na noite de quarta (23), a mostra competitiva de curtas foi centrada em filmes com personagens femininos e a violência e abusos cometidos contra a mulher. Tentei, de Laís Melo e Mañana, de Camilo Obregón falam de mulheres que enfrentam o medo de denunciar seus maridos por conta das ameaças que recebem deles diariamente. O último curta exibido, Filme-catástrofe, de Gustavo Vinagre, é uma curiosa fábula sobre a necessidade das mulheres se unirem para se confrontarem com constante assédio abusivo dos homens em suas vidas.

Além das mostras competitivas, o Cine Jardim tem uma vasta programação de mostras paralelas, debates e oficinas voltadas sobretudo para os estudantes da cidade de Belo Jardim. Ontem, foi realizada ainda uma masterclass com o professor e pesquisador Bertrand Lira com o tema Documentário e Intervenção. Nesta quinta haverá o lançamento do livro História do Cinema de Animação em Pernambuco, de Marcos Buccini e, no sábado. será a vez do crítico e pesquisador Davi Kinski apresentar seu livro Pasolini, do Neorrealismo ao Cinema Poesia.

Organizado pela Pontilhado Cinematográfico, do cineasta Léo Tabosa, com apoio do Instituto Conceição Moura, o festival esse ano faz também uma justa homenagem ao ator, diretor, cineasta e produtor Cleto Mergulhão. Natural de Belo Jardim, Mergulhão foi o primeiro presidente da Associação de Cineastas de Pernambuco, em 1979. Atuou e dirigiu o filme O Último Cangaceiro (1971) e O Palavrão (1978), o último longa produzido antes da retomada do cinema pernambucano com Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, em 1997. Realizou também em 1973 e 1977 duas mostras de filmes Super 8. Para homenagear Mergulhão foi instituído um concurso de filmes realizados por jovens diretores do agreste pernambucano com prêmios em dinheiro.

Apesar de alguns transtornos provocados pela greve dos caminhoneiros que vem atrapalhando a chegada dos convidados e a participação de estudantes de áreas mais afastadas do centro de Belo Jardim nas sessões, o festival prossegue até sábado.

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A diretroa Déa Ferraz, que levou seu novo filme, Modo de Produção. (Divulgação).

Trecho de Kinopoeticas Inarmonicas. (Divulgação).

Bandeira de Retalhos do diretor Sérgio Ricardo. (Divulgação).

O colombiano Mañana, exibido em Belo Jardim. (Divulgação).

Os diretores de Açúcar, Renata Pinheiro e Sergio Oliveira. (Divulgação).

Trecho de Açúcar, exibido na mostra de longas. (Divulgação).

Flecha Dourada fala dos saudosos filme de tele-catch. (Divulgação).

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