Ben Harper e Vanessa da Mata (Foto: Divulgação)

Artistas mostram que, assim como festival também têm sua cota de ativismo verde
Por Eduardo Carli

Ben Harper
“Black Rain”, uma das grandes canções compostas nesta década, promete que uma chuva negra há de cair. Quando Ben Harper entrou no palco, junto aos Inoccent Criminals, veio encarnando sua própria profecia. Não, não foi uma chuva ácida ou uma névoa produzida por poluentes que ele trouxe junto: foi só uma tempestade de música negra de primeiríssima qualidade que o cantor/compositor, em sua terceira passagem pelo Brasil (veio em 1998 e 2007), nos deu.

Harper parece encarnar, e com igual competência, vários mestres negões que vieram antes dele abrindo caminhos – e cujos rastros ele segue. Por horas, ele assume uma persona rasta que lembra Bob Marley. Quando assume as seis cordas de sua guitarra, deitada em seu colo, parece estar possesso pelo espírito de Jimi Hendrix. Em suas canções mais sussa, parece um cantor folk esfarrapado dos primórdios do estilo. E não deixa de passear pelo soul, evocando mestres como Al Green e Bill Withers – como fez na maravilhosa cover que perpetrou de “Use Me”, um clássico de Withers (que também ficou lindo na voz de Fiona Apple).

Como se não bastasse, Harper, em músicas mais engajadas, ergue o punho fechado como se fosse um militante negro apaixonado, remetendo a heróis como Malcolm X e Martin Luther King. Quando ele canta “Você pode matar os revolucionários, mas a revolução você nunca vai enterrar”, sente-se na espinha que “Black Rain” é certamente uma das mais poderosas e empolgantes canções de protesto já compostas. Nesta década, quase não tem rivais nesse ramo – quiçá “Combat Rock”, do Sleater-Kinney, e só.

Com seus versos revoltados e performance vigorosa, “Black Rain” foi o ápice da noite. Com os versos que demonstram toda a ebulição de Harper contra o poder corrupto: “Não ouse falar com a gente como se trabalhássemos pra vocês / Nos vendendo falsa esperança como uma nova droga a que estamos viciados / Não vai demorar muito até que as massas encham as ruas / E derrubem vocês!”

Mandando ver solos de guitarra sensacionais e viajantes, com um timbre delicioso, Harper demonstrou ser um músico plural e um compositor versátil. Sua postura no palco, um tanto tímida e contida, é compensada pela convicção e serenidade com que ele se entrega à sua música. Seu dueto com Vanessa da Mata, no hit “Boa Sorte”, foi acompanhado por um vasto coro popular e serviu como um ótimo fechamento para o show.

Dave Mathews Band

Parcial e Desobjetivamente
Por Ana Alice Gallo, especial para O Grito!

Fazia sete anos desde o nosso primeiro encontro. Ele chegou sem muito aviso, cinco minutos antes do combinado, e foi logo relembrando os velhos tempos. Um tanto mais calvo, mas ainda mais feliz apesar do mau tempo que se revezava nos céus com algumas estrelas. Sorria. Bêbado, com certeza, mas empolgadíssimo, ensaiou passos de dança desengonçados que me fizeram rir. O resto foi um lapso de duas horas e meia na minha mente, que ainda tenta retomar pedaços do que aconteceu.

Fica brega quando é outra pessoa falando. Mas quando você é fã da espécie mais ridícula, de dar piti, chorar e cantar junto, fica assim, achando que mundo mudou por uma noite de show. Eu, por exemplo, desisti de disfarçar no último domingo, no Festival About Us, quando a Dave Matthews Band entrou no palco.

Não foi escandaloso como da primeira vez, no Rock in Rio, quando eu me transformei numa abóbora fincada no chão durante três músicas, chorando feito pata. No entanto, seria inútil tentar manter algum tipo de integridade jornalística enquanto a banda destilava seus “hits”, com a ilustre presença do guitarrista Tim Reynolds, um dos grandes parceiros de composição de Dave Matthews, e os malabarismos do baterista Carter Beaufort se revezavam à minha frente, um show à parte. A participação de Ben Harper em “All Along the Watchtower”, que se transformou em lead para quem cobria o evento, foi pífia para quem já se contentaria com a explosiva versão da DMB pra esse clássico do Dylan, mas deu ainda mais emoção ao momento.

Impecável do ponto de vista técnico e empolgante se considerarmos o bandleader um verdadeiro fanfarrão, o grupo deixou o coração dos fãs em frangalhos ao disparar “Tow Step” de cara, “Crash into me” na primeira meia hora de show, emendar “What would you say” e “Too Much”, não sair sem antes cantar “Ants Marching”, voltar e logo atender o pedido da galera por “#41”, e fazer todo mundo perder a voz com “Warehouse” e “Stay”. Como eu disse, minha mente sofreu um colapso e eu realmente não vou me lembrar de todos os detalhes. Mas fã que é fã sempre quer mais, e ficaram faltando boas músicas do melhor álbum do grupo, o “Before These Crowded Streets” (1998), como “Rapunzel” e “Don´t Drink the Water”.

Nosso amigo Fred analisou a coisa de um ponto que eu nunca tinha pensado, mas é real: mesmo sem grande divulgação na mídia ou nas rádios, a Dave Matthews Band tem fãs no Brasil tão fervorosos quanto o Los Hermanos. O grupo teve problemas de distribuição no país e há anos os CDs não eram mais vendidos por aqui (voltaram a ser vendidos agora, com o show). No entanto, isso só atrapalhou os fãs quando Dave anunciava como novas as canções que faziam parte de seu recente álbum, “Stand Up”, do qual pouca gente ouviu falar por aqui (mas que é bem do bom). De resto, a platéia era toda sorrisos, gritos e coro.

E eu, bem, eu estou tentando achar o caminhão do qual eu caí.


Ben Harper & Vanessa da Mata – “Boa Sorte/Good Luck”

Confira as fotos do Show (Thiago Carrapatoso)

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