Clarah Averbuck (Foto: Edson Kumasaka/ Divulgação)

AMORES E ATROPELOS
Revelada na internet, dona de romances de formação que marcarão os anos 2000, Clarah Averbuck é hoje, a principal representante da literatura pop no Brasil
Por Talles Colatino

O que faz um artista ser um bom artista é a sinceridade do seu trabalho. A meta de qualquer artista é fazer com que o público encare sua criação como algo que possa ser, realmente, parte de sua vida, mesmo que boa parte deles negue isso. Com Clarah Averbuck não é diferente. Ou melhor, com a obra de Clarah Averbuck não é diferente. Sincero é o adjetivo que melhor se enquadra em qualquer análise sobre o que ela mostrou ao público até agora.

Editorialmente, ela assinou apenas três livros. Um número pequeno que se perde mais ainda na imensidão de publicação virtuais que Averbuck vem colecionando desde seu primeiro e mais famoso blog, o brazileira!preta. O texto de apresentação do blog contém a essência de todos os desdobramentos que a literatura de Clarah tomaria a partir dali. “Aqui você poderá me ver usando ‘eu’ quantas vezes por parágrafo bem entender, sendo macho pra caralho, sendo guei pra caralho, abusando de piadas internas, não dormindo, utilizando o caps. Indiscriminadamente, praguejando, me referindo a mim mesma na terceira pessoa, morrendo de dor, afogando o jogo, rindo da minha própria desgraça e achando tudo ótimo. Três vivas para o umbiguismo”, dizia o texto, para quem entrasse no blog.

Com sua primeira novela, lançada em 2002 e intitulada Máquina de Pinball, Clarah Averbuck anunciava o preço de ser quem ela era sob o codinome de Camila, personagem central do livro. Camila representa a vida de Clarah, desde que se mudou de Porto Alegre para São Paulo e do que enfrentou na nova cidade, sem esconder os momentos difíceis. A diferença entre Camila e Clarah é a óbvia de que a criadora se coloca acima da criatura, que por sua vez obedece aos seus comandos. Camila, em Máquina de Pinball, é parte da vida de Clarah mais a parte da própria vida que Clarah inventou. As aventuras de Camila perduraram na sua próxima obra ficcional, Vida de Gato (2004). No intervalo entre essa ponte de ficção surge Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante, uma coletânea de crônicas publicadas no brazileira!preta e textos até então engavetados.

Os livros estão impregnados da cultura pop na qual Clarah construí e distribui sua literatura. Citações e referências diretas a ídolos seus, como Bukowski, Fante, Tom Waits e Strokes comprovam que canônico para Clarah é aquilo que couber melhor no que você quer expressar. Bitchnik como se auto-considera, num trocadilho bem infame sobre a geração beat, Clarah é o tipo de escritor moderno e moderninho que nos faz abrir um sorriso meio sacana ao se deparar com um capíítulo que se inicia com uma letra de PJ Harvey. E vamos combinar que isso não é nenhum pouco ruim.

Clarah faz da sua vida ficção, e fica difícil para ela nos convencer do contrário, visto os atropelos de Camila ao longo dos seus romances e a vida igualmente aventureira de Averbuck. E talvez venha daí o sucesso da escritora. Adolescentes se identificam e adultos se colocam em contradição ao ler a literatura de Clarah. Mas, sem dúvida, o maior papel de Clarah não está na representatividade do seu texto perante o quadro da literatura contemporânea. Clarah faz bons textos, mas o mérito maior deles está na comprovação que, na literatura, não há limites que não possam ser ultrapassados para alimentar o lirismo em nossas cabeças. Mesmo que esse lirismo venha da vida de uma jovem adulta que pira com as letras de Fiona Apple, considera Courtney Love a mulher mais foda dos anos 90, tem um pé no junkie, os dois na sensibilidade e sensualidade feminina e o corpo todo na sinceridade com que os sentimentos explodem em palavras e ações. Assim como Camila é. Assim como Clarah também.

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