4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias {4 Luni, 3 Saptamini Si 2 Zile (Romênia, 2007 – Drama) | Direção: Cristian Mungiu

DE ESPÍRITO LIVRE
Com filmes aclamados pela crítica nos últimos anos, a Romênia é o celeiro de produção cinematográfica de baixo custo com muito apuro estético
Por Gabriel Gurman

A filmografia de um país é o perfeito retrato audiovisual de sua história. Por mais que as influências se misturem (ainda mais hoje em dia, com a globalização), a cena cinematográfica de uma terra, nos traz a noção de como é – e foi – a vida no lugar em que a obra foi realizada. Truffaut, Rohmer e Godard não são a própria França? E o que dizer de Almodóvar, Ken Loach, Fellini e muitos outros que mostraram ao mundo, através da arte, alguns lampejos de como é a vida em seus respectivos países.

Esta característica bastante particular do cinema pode também ser uma porta de entrada para conhecermos países que sabemos muito pouco (ou nada) e raramente ouvimos falar por estas bandas. O quanto saberíamos (ou julgaríamos previamente) do Irã se não fossem as obras de Kiarostami e, mais recentemente, Jafar Panahi? Será que a imagem que temos da Tailândia remete verdadeiramente à situação de vida das pessoas que por lá vivem? Apichatpong Weerasethakul mostrou que não (apesar de ter confirmado minha teoria de que a maioria dos nomes tailandeses são impronunciáveis). Aliás, o próprio Brasil sofre com isso. Nos países onde somos “Brazil”, a imagem de bundas, praias e carnaval vem mudando aos poucos (logicamente, na elite cultural) graças a Walter Salles, Beto Brant, entre outros.

E o que nós brasileiros sabemos da Romênia? Talvez da boa seleção montada na Copa do Mundo de 94 e liderada por Hagi? A Transilvânia e a lenda do Conde Drácula (que aliás se tornou mais conhecida no Brasil graças à obra de Francis Ford Coppola, baseada no livro de Bram Stoker)? Alguns poucos também devem saber que a música “Festa no Apê” é, na verdade, uma versão para “Dragostea Din Tei”, do grupo romeno O-Zone. Mas, de uma maneira surpreendente, outro movimento vem chamando atenção para este pequeno país do leste europeu: o cinema.

Este país com pouco mais de 23 milhões de habitantes possui uma produção cinematográfica recente e pouco desenvolvida. Talvez, o único filme romeno mais conhecido por aqui seja o excelente Trem da Vida, de Radu Mihaileanu. Segundo levantamento da revista francesa Cahiers du Cinéma, os filmes nacionais representam apenas 4,8% de ocupação do mercado interno. No Brasil, por exemplo, onde os blockbusters chegam a ocupar 90% das salas de cinema, esta taxa é de quase 12%. Outro número assustador é o tamanho do parque cinematográfico romeno: em 2006, foram contablizadas apenas 32 salas de cinema em todo o país.

Mesmo com esses contratempos e sem qualquer apoio nacional, alguns diretores como Cristi Puiu, Corneliu Porumbiou e Catalin Mitulescu conseguiram realizar obras das mais originais do cinema europeu dos últimos anos. Mas, talvez, poucos seriam vistas ou conhecidas no Brasil se não fosse Cristian Mungiu e seu excelente 4 semanas, 3 meses e 2 dias.

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2007, o diretor escancarou as portas que já estavam semi-abertas por estes outros diretores – afinal, A Morte do Sr. Lazarescu já havia ganho o prêmio de Melhor Filme da seção Um Certo Olhar, também em Cannes, além de À Leste de Bucareste ter faturado a Camera D’Or, no mesmo festival, em 2006.

O tema “macroambiental” dos filmes é o mesmo para as quatro obras que ganharam destaque mundial – além das três já citadas, Como Eu Festejei O Fim Do Mundo – : o período nebuloso em que o país estava sob o comando de Nicolau Ceausescu. Chefe do Partido Comunista desde 1965, o presidente comandou um regime despótico até 1989, quando houve a Revolução Romena e o ditador foi derrubado. Aliás, houve ou não houve revolução? Ou, em romeno, A Fost Sau n-a Fost?, título original de À Leste de Bucareste.

Sabe-se que na capital do país, houve revolução definitivamente. Mas, e na pequena cidade do interior onde o filme é passado? Para resolver esta questão, o jornalista Jderescu (Teodor Corban) leva dois convidados que participaram do movimento do fatídico dia 22 de dezembro de 1989 ao seu programa de entrevistas. Porém, o que vemos dali em diante é uma sucessão de histórias de um destes entrevistados, aparente herói, mas que logo são desmentidas por telespectadores que participam do programa pelo telefone. O outro entrevistado, um velho aposentado, é quem dá o tom que marca o começo e o final do filme: “São como as luzes de uma cidade. A primeira acende e, de pouco em pouco, as outras vão se acendendo. Foi assim na nossa cidade”. Ou seja, de revolucionários, eles pouco tem. Além da revolução, um dos temas mostrados no filme é o alcoolismo, que assolava o primeiro dos entrevistados.


A Morte do Sr. Lazarescu { Moartea Domnului Lazarescu (Romênia, 2005 – Drama) | Direção: Cristi Puiu

Problema recorrente na sociedade romena, o vício é tema principal de A Morte do Sr. Lazarescu, de Cristi Puiu. O filme mostra um senhor velho e abandonado que se encontra com fortes dores de cabeça e estômago. Devido a seu alcoolismo, poucos dão importância às dores que está sentido, seria apenas uma ressaca. Ao longo do tempo, vemos que é muito mais que isso, e acabamos por agonizar ao lado do velho senhor pelo pouco caso dos médicos de diversos hospitais que Lazarescu passa. Com um fino humor negro (que não é suficiente para tirar o pesado drama da história), o filme mostra uma situação tão comum nos países de terceiro mundo: a má qualidade dos hospitais públicos. Às quase 2h30 do filme são pasadas nesses ambientes imundos e sem a menor estrutura onde a grande preocupação é se livrar dos problemas e não curá-los.

Esta realidade cruel pode também ser vista no filme que mais ganhou fama dentre os romenos, 4 meses, 3 semanas e 2 dias. Um registro semelhante, mas mostrada de maneira muito mais violenta aos olhos. Não entrarei na questão do filme em si (até porque este já foi muito discutido em vários lugares, inclusive aqui n’O Grito!), mas é interessante perceber a unidade entre as obras até aqui discutidas. São filmes de orçamento baixíssimo, que abusam de câmera na mão (ou, da ausência de tripé, como aparece em À Leste de Bucareste) e de planos longos. Seguindo a frase de Godard que dizia que “cada corte é uma mentira”, estas obras romenas já foram apelidadas de Nouvelle Vague do leste europeu.

Ambiente – Esse universo “macroambiental” é gerado dos pequenos causos de pessoas comuns. Sejam elas professores, aposentados, alcoólatras ou duas colegas de faculdade. No caso de 4 meses, 3 semanas e 2 dias, apesar de se passar durante o período ditatorial, não há referências diretas ao comunismo. Já no caso dos outros dois filmes citados, assim como em Como eu Festejei o Fim do Mundo, que segue a proposta de “grandes temas contados sob a visão de uma criança”, lembrando Machuca, O Ano Em Que meus Pais Saíram de Férias, Kamtchatka, entre outros e, talvez por isso, perca sua força, a referência a Ceausescu é direta.

Segundo Cristian Mungiu, foi preciso aparecer uma nova geração de cineastas para que se começasse a entender o que havia acontecido na Romênia e, como sabemos, o cinema é a melhor forma de arte para isso. A questão que fica é se a Romênia é apenas uma “nova onda” passageira ou se diferentemente daquele boom de novos diretores surgidos logo após a queda do ditador (Daniel Barbulescu, Radu Nicoara, entre outros), estes grandes cineastas vieram para ficar. Esperamos que sim!

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