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O CINEMA VÊ O FUTURO
A discussão sobre o cinema digital já existe desde o século passado, mas agora que o futuro chegou, autores e profissionais correm para assimilar as mudanças
Por Cláudia Vital

O cinema digital tem sido uma nova maneira de fazer e mostrar os filmes, mudança que tem sido considerada pelos profissionais da área algo tão importante quanto o advento do som e da cor nos filmes no início do século XX. O processo fotoquímico aplicado à película vem sendo substituído pelo processo fotoelétrico, onde a luz é transformada em eletricidade e codificada em fileiras de zero e um. O resultado é facilidade, economia de tempo e de dinheiro na produção, distribuição e projeção dos filmes.

Os irmãos Lumière Desde a existência do primeiro filme, em 1895, pelos irmãos Lumière, o cinema sempre usou rolos de filme para transmitir as imagens. Isso começou a ser mudado quase um século depois e de lá para cá as transformações têm ganhado velocidade. Nos anos 1960 a vídeo-arte e seus experimentalismos parecem ter preparado o terreno para o surgimento do cinema digital, mas foi com a chegada dos computadores em 1990 que o tom experimental deu lugar ao profissionalismo. Os computadores passaram a ser utilizados na pós-produção dos filmes facilitando a edição das imagens.

Há dúvidas sobre qual foi o primeiro filme todo digital. Em 1995, duas obras brigam pelo título de pioneiros no cinema digital, Cassiopéia, do diretor brasileiro Clovis Vieira e Toy Story, do norte-americano John Lasseter. O ano de 2002 é marcado pelo lançamento de Star Wars II, considerado o primeiro filme digital de alta definição. Nessa época o cinema digital já tinha chegado a Europa e o Japão e já existiam mais de cem salas preparadas para esse formato.

Hoje, há centenas de cinemas digitais espalhados pelo mundo, mas estão concentrados principalmente nos Estados Unidos, pois os grandes estúdios uniram-se para criar um padrão de equipamentos e um formato para financiar essa troca. Lançaram o padrão Digital Cinema Initiatives (DCI) e os filmes produzidos por esse poderoso grupo, responsável por 68% da bilheteria brasileira em 2006, só poderão ser exibidos em salas com certificado DCI. No Brasil, a conversão ainda está insipiente. Existe aproximadamente 145 salas e um total de 2,1 mil cinemas com projetores digitais. No entanto, apenas duas salas estão no padrão DCI, o que significa que os exibidores digitais correm o risco de ficar sem conteúdo em suas salas por não terem o certificado DCI. Calcula-se que o investimento necessário para transformar as salas e projetores analógicos para digitais no Brasil seja de 250 milhões. Enquanto isso, país ainda busca criar seu próprio modelo de cinema digital.

toy-story-2.jpgSem sombra de dúvidas, o sucesso do cinema digital está na vantagem do baixo custo na produção. Com o sistema analógico, as companhias cinematográficas gastavam, e ainda gastam, muito dinheiro com a gravação de fitas, distribuição e recolha de filmes para os cinemas do mundo inteiro. Assim, essas empresas geralmente escolhem a dedo os filmes que irão distribuir e são bastante cautelosas com número de cinemas em que os filmes serão exibidos, com receio de não ter o retorno do investimento. Mesmo assim, a indústria cinematográfica ainda abre mão de milhões de dólares por ano na fabricação e distribuição das obras analógicas. Com a distribuição de dados em formato digital todo esse processo torna-se desnecessário. O filme pode ser gravado em DVD, difundido por cabo ou mesmo por satélite. Dessa forma, os custos de distribuição são drasticamente reduzidos, e não faz grande diferença para o bolso das distribuidoras exibir um filme em 15 ou em 15 mil cinemas.

Antigamente, a edição do filmes era feita na moviola, um equipamento que literalmente era responsável pelos cortes na montagem. Com a ajuda dos computadores houve um grande avanço, mas agora é possível editar as imagens logo após a sua gravação, sem ser necessário passar por qualquer processo de conversão. O sistema de projeção também desfrutou de facilidades e se tornou um ponto fundamental do novo cinema. Os filmes analógicos produzem imagens com grande beleza e expressividade, porém, o projetor mecânico acaba desgastando a qualidade do filme, ou seja, quanto mais o filme é exibido mais sua imagem tende a piorar. Com o cinema digital a imagem não perde qualidade conforme vai sendo exibida, a nitidez de um filme feito em 2007 e exibido em 2057 deverá ser a mesma. Além disso, o formato digital possibilita flexibilidades como maior manipulação da imagem e reprodução do filme em várias línguas.

Cassiopeia Quando o assunto é pirataria, o sistema digital também oferece saída. O difundido sistema de reprodução ilegal provoca prejuízos de mais de três bilhões de dólares anuais para a indústria cinematográfica, e encontra no cinema digital um método que pode ser eficaz. Os filmes digitalizados são cifrados e protegidos por um eficaz sistema chamado algoritmo AES Advanced Encryption Standard, em português Padrão de Criptografia Avançado, e guardados num disco rígido que é enviado para as salas de espetáculos, evitando assim os DVDs e a transmissão por difusão ou terrestre, que poderia ser facilmente copiada. Enquanto o filme estiver em trânsito encontra-se assim protegido e a cada vez que os cinemas pretendem exibir o filme, têm de inserir um smart card e obter uma autorização online para desbloquear o disco rígido e poderem projetar o filme.

Questões de beleza

Cena de Diante de tantas vantagens parece impossível encontrar defeitos no cinema digital. Todavia, alguns fãs, cineastas e estudantes da arte cinematográfica acreditam que o cinema digital só não conseguiu superar o analógico em uma questão: a qualidade e beleza da imagem. Dificilmente o cinema digital conseguirá reproduzir uma certa aura existente nos filmes de película. No entanto, apesar de muito caras, já existem câmeras digitais com excelentes lentes e que gravam em alta definição.

Não há dúvidas de que a parceria entre cinema e tecnologia seja uma combinação promissora. Cineastas consagrados já deixaram a película de lado e uma infinidade de vídeos caseiros faz sucesso em sites como o Youtube. Qualquer um pode fazer um filme, basta ter em mãos uma câmera ou até mesmo um celular. É o caso do filho do jornalista e professor Cláudio Bezerra, que tem apenas 11 anos e brinca com a câmera fazendo telejornais. Segundo o professor, além da democratização que o cinema digital oferece, há um ponto essencial. “A maior contribuição que vejo é o surgimento de um tipo de cinema baseado no imprevisto. Como não é preciso gastar dinheiro com filmes e mobilizar uma grande equipe, as pessoas não se importam em deixar a câmera ligada e acabam captando cenas admiráveis. No campo do documentário isso tem sido uma grande vantagem”, afirma.

Há ainda uma diferença pouco observável entre o cinema analógico e o digital. O pós-graduando em cinema, Chico Lacerda, fez recentemente um estudo que comparou filmes pernambucanos digitais e analógicos feitos nos últimos sete anos. Ele chegou à conclusão de que os temas dos filmes digitais são predominantemente urbanos, já os analógicos falam mais sobre a área rural. “Penso que isso acontece porque os filmes digitais são feitos com pouco dinheiro e de forma independente, o que dá mais liberdade na escolha do tema. Já os analógicos geralmente são financiados pelo governo, que acabam aprovando mais projetos de cunho social”, explica.

O cinema, depois da TV, é considerado o mais poderoso meio de comunicação em massa. Uma mudança tão grandiosa como a digitalização do cinema vai afetar direta ou indiretamente todo o mundo. Uma vez que se tornou mais acessível, a produção independente tem sido ampliada. Eu, você, qualquer um pode fazer um filme, e quanto mais filmes forem feitos, maior será a aproximação do público com a linguagem e a compreensão da arte cinematográfica.

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