PARA DISCUTIR CINEMA
Cineclubes resistem ao tempo e falta de público
Por Lidianne Andrade

Depois da chegada dos complexos UCI de cinema aos shoppings da capital pernambucana, não havia mais desculpas para não assistir filmes: mais de 10 salas de exibição com uma variada programação de películas recém saídas do forno. Muitos dos cinemas com grandes prédios e estruturas belíssimas, com direito a pipoqueiro na porta e cambista, foram extintos e vendidos por falta de público, a exemplo dos clássicos do centro do Recife Cine Veneza e Moderno. Poucos resistiram como o São Luiz da Rua da Aurora, que fechou suas portas no ano passado (sem previsão de ser reaberto, apesar de novos projetos em andamento). Porém, um espaço para exibição e discussão da sétima arte nunca deixou de existir: os cineclubes, locais alternativos para exibição de filmes e, logo em seguida, um gostoso bate papo.

Desde a criação do primeiro cineclube no Brasil, o carioca Chaplin Clube, com sua fundação datada de 13 de junho de 1928, o movimento só tendeu a crescer. Atualmente as salas alternativas de exibição alcançaram a marca de 169 em todo o Brasil, pelo menos os registrados no Conselho Nacional de Cineclubes. O conselho não age como entidade reguladora que cria critérios para aprovação, já que a atividade é livre e pode acontecer em qualquer lugar, desde que tenha público e um filme com debates posteriores ou antecedentes. O CNC promove encontros entre os organizadores e ajuda em caso de problemas, como os envolvendo direitos autorais para exibição. “É um órgão apenas para ajudar em eventualidades. Não age como repressor ou ditador de padrões, porque não há padrão e na prática qualquer um pode montar seu cineclube, é uma atividade livre e o mais legal é isso”, explica Amanda Alves, uma das coordenadoras do cineclube Azouganda (Nazaré da Mata) e diretora de comunicação da Federação Pernambucana de Cineclubes, órgão recém criado no 1º Encontro Pernambucano de Cineclubes, que aconteceu em julho deste ano, no Festival de Cinema de Triunfo.

A entidade pernambucana, assim como a força dos cineclubes, ainda é pequena, mas constante. “Já contamos com nove cineclubes inscritos dos cerca das 15 existentes no Estado, um número significativo para instituições sem fins lucrativos”, conta Amanda. Vale ressaltar que existem muitos clubes ainda não cadastrados ou mesmo divulgados, mas firmes e fortes. Alguns nem tão desconhecidos assim, como o Revezes, que funciona na Universidade Católica de Pernambuco e completa 10 anos em março de 2009. Fundado pelos jornalistas Silvana Marpoara, Luiz Joaquim e o colunista de O Grito! Alexandre Figueirôa, já passou por diversas mãos até chegar na coordenação atual do estudante do 5º período de jornalismo da instituição Otávio Portugal. Assim como a maioria dos cineclubes, surgiu no meio universitário, ambiente mais propício para discussão pelo própria suscetibilidade para debates do local, além de espaço disponível para projeção. Com sessões quinzenais e sempre seguindo a linha de filmes alternativos, exibe desde películas brasileiras como Ônibus 174 a europeus inéditos, como o francês Le Chanson D´amor.

Infelizmente, o Revezes resiste ao tempo e à força de vontade dos seus coordenadores. A frente do projeto desde o começo desse semestre, Otávio é sincero sobre o número de pessoas nas sessões: “Exibimos filmes para em média 10 pessoas. Às vezes desanima sim, mas são sessões em horário de aula e de filmes que já passaram no cinema. Os presentes são apenas aqueles que querem discutir cinema e partilhar conhecimento. Um dia fiquei surpreso quando apareceram 20 pessoas na exibição do making off de Linha de Passe, um material exclusivo”, conta Otávio. “Mas nada que desanime, cineclube é para quem gosta mesmo e cumpre sempre seu papel principal: discutir cinema”, completa.

Ambiente de discussões – Nada de salas lotadas como em pré-estréias famosas nas portas dos cinemas, onde os ingressos são vendidos muitas vezes com antecedência. Nos cineclubes, com entrada gratuita em sua maioria, os grupos são reduzidos, só freqüenta mesmo quem curte falar sobre a sétima arte. “São ambientes para conversar, tirar dúvidas e trocar conhecimento. O cineclube deve ajudar a formar uma consciência crítica e dar bagagem às pessoas. Isso só se consegue vendo filmes e discutindo”, comenta o crítico de cinema e editor do portal PE360graus Rodrigo Carreiro. “A idéia básica é expandir a cabeça dos cinéfilos para melhor usufruir dos filmes, além de apresentar novidades sob uma ótica curatorial. De cineclubes saíram bons cineastas”, comenta o critico Luiz Joaquim, que, diga-se de passagem, remete ao cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, freqüentador de um dos cineclubes mais famosos daqui na década de 80, o Jurando Vingar. A mesma roda de conversa gerou outros nomes da cena áudio visual pernambucana como Paulo Caldas, Lírio Ferreira e Cláudio Assis.

Mas nem todos agem como palco de discussão. O Azouganda, de Nazaré da Mata vem preencher uma lacuna de moradores e estudantes que não dispõem de dinheiro para locomoção até Recife para assistir filmes. Fundado há três anos, funciona dentro das dependências da Universidade de Pernambuco (UPE), com exibições quinzenais. “Nosso maior freqüentador é um cabloco de lança de Nazaré que tem muita dificuldade de leitura, mas assiste a todos os filmes (até mesmo os legendados) e sempre comenta depois com agente”, conta Amanda Alves, uma das coordenadoras. Ao contrário dos clubes de discussão da capital, o Azouganda leva em público números de sucesso entre os cineclubistas, com sessões variando entre 50 e 60 pessoas. “Nosso público é alto, mas sabemos que não é apenas amor à sétima arte: muitos deles são de cidades vizinhas que não tem cinema e outros são alunos que simplesmente não querem assistir aula”, conta a coordenadora.

Sabendo da necessidade do contato com o cinema do público local ser maior que as discussões teóricas, já que muitos tem apenas o ensino fundamental, o Azouganda exibe de tudo, não apenas filmes fora do grande circuito. “Nossa sessão mais cheia foi com a exibição de A Hora do Pesadelo, com 120 pessoas assistindo”, comenta.

Salas vazias – Infelizmente salas lotadas não são a realidade dos cineclubes locais. A média nacional é 30 pessoas por sessão, segundo dados da Federação Pernambucana de Cineclubes. Muitos deixaram de existir, como o Barravento, da Universidade Federal de Pernambuco, e o sem nome definido da Aeso, em Olinda, por falta de público. “Salas lotadas não é o nosso alvo, queremos que as pessoas, mesmo que não assistam ao filme todo, fique para o debate pós-exibição”, declara Otávio, do Revezes.

Mas pouco importa um grande público desde que a função principal de um cineclube seja cumprida: trocar conhecimento. “Há pessoas que pensam que colocar um projetor na rua e exibir filme é um cineclube. O que importa é o debate, a discussão, esta é a principal característica de um cineclube”, explica Ge Carvalho, presidente da Federação Pernambucana de Cineclubes e um dos organizadores do A Moeda Digital (no momento com suas atividades paralisadas para mudança de sede), que alcançava a média de 40 pessoas por sessão. “O primeiro 1° Encontro de Cineclubes de Pernambuco foi criado para tentar unir as entidades em atividade e também deixar claro valores quanto a sua função. Um cineclube é um espaço de áudio visual para debater informações, propagar idéias e, de certa forma, modificar o ambiente em que está inserido. Não é só para exibir filmes. Claro que não é uma proposta de mudar o mundo, mas de certa forma mudar a arte”, diz Ge em entrevista por telefone.

Atualmente, acredita-se que Pernambuco alcance a marca de 16 cineclubes, um numero que deve crescer nos próximos anos. “A proposta da federação é criar um cineclube pelo menos em cada cidade. Acreditamos que o Estado está com uma atividade forte na cena audiovisual e a atividade cineclubista tende apenas a crescer. Vamos em cada cidade, do litoral ao sertão, para conscientizar da importância do papel da sétima arte além do quanto importante pode ser a presença de um cineclube em sua cidade, o quanto é possível aprender com a atividade”, explica Gel. Por hora, a federação espera que as pessoas procurem o órgão para um cadastro ou mesmo informações de como criar um.

Para os que sentem dificuldade em manter seus cineclubes, Ge deixa um conselho: “O que falta sempre é organização. Com o sem federação, é preciso saber articular e fazer bons contatos. Organizar datas e cumprir, divulgar e contar com um bom grupo na coordenação. Um cineclube é igual a qualquer empresa administrativa, precisa de trabalho para acontecer”, explica.

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