VONTADE DE CORRER
Filme brasiliense de Geraldo Moraes, não encanta plateia e não fecha o ciclo virtuoso aberto por si mesmo

Um posto de gasolina com nome estranho e no meio do nada. Terra de chão batido. Um vigia medroso. Uma negra fogosa. Um loiro fiel. Uma mulher de fibra e um mendigo borracheiro (como assim?) que não convence ninguém. Esses são os personagens que compõem o longa O Homem Mau Dorme Bem, de Geraldo Moraes. Exibido ontem, no Cine PE, ele foi o segundo filme da noite e deu partida a sua exibição com uma plateia reduzida e nitidamente cansada.

A trama acompanha a realidade de três personagens com realidades bem distintas, situados em unidades geográficas bem variadas e cujo cotidiano é cercado por um posto de gasolina. O centro da narrativa gira em torno de Rita, dona do posto e interpretada por Simone Iliescu e de um palhaço de circo que se transforma em garimpeiro e depois em mendigo borracheiro, por Luiz Carlos Vasconcelos. A verdade é que Rita se apaixona pelo palhaço que parte numa busca frenética em busca de ganhar dinheiro para comprar o dote da moça. Ele vira garimpeiro, acha diamente, ouro e acaba “rico”.

A história do romance entre Rita e Carboré, como se chama o mendigo borracheiro, é até interessante. O que desgasta a apreciação do filme é sua estrutura e a forma com que os personagens se apresentam. Eles despencam na tela tal como maçãs caindo de sua macieira, sem muito pudor e nenhuma explicação deixando o espectador sem saber o que fazer para compreender a trama.

A primeira dúvida que rodeia os primeiro 30 minutos de projeção gira em torno da protagonista. Quem é? É o vendedor de CDs que vaga pela rodovia? É a negra fogosa que dança “rock” como se fosse bolero? Ou é a moça da cidade pequena que ganha a vida lavando roupa? Não se sabe…é preciso esforço. Moraes não apresenta seu protagonista. Sua heroina que – passiva, indolente e se entregando completamente a sorte – não é sujeito de sua própria vontade. Não se aventura e não apresenta as mínimas marcas que norteiam a personalidade e atuação do herói ou mesmo do anti-herói.

Enquadrado dentro da política de baixo orçamento (e talvez resida aí a justificativa para os sérios problemas de edição e montagem), o filme, custeado em aproximadamente R$ 1,6 milhão tenta meditar sobre a condição dos que vivem à margem. A história parece favorecer muito mais o espaço que seus personagens. E isso fica claro nos diálogos escassos e na pouca interatividade deles. Mas o filme não atinge o seu objetivo. Não apresenta seus personagens. Não narra sua história. Não transmite sua mensagem.

Para quem estava nas cadeiras, da primeira até a última fileira, era possível prever os diálogos, as cenas e até mesmo brincar de dizer, cinco segundos antes, o que os protagonistas iriam falar. O Texto é sofrível, a montagem não ajuda e a edição joga no chão qualquer capacidade de entendimento. Palmas, contudo, para o vendedor de CD’s pirata, o Wesley. O ator deu um banho de interpretação e também para o mendigo borracheiro que antes era palhaço e garimpeiro. Aqui o ator Luiz Carlos Vasconcelos tira leite de pedra.

NOTA: 0,5

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