Cena do filme Os Bizarros Amigos do Ricardinho

CINEMA, ASPIRINAS E JABUTIS
Mostra competitiva de curtas do CinePe prossegue com noite de filmes metidos a insólitos

Por Alexandre Figueirôa
Articulista da Revista O Grito!

A exibição dos filmes da sexta-feira no CinePE começou com um atraso de mais de uma hora por conta de um protesto nas imediações da Ilha do Maruim, em Olinda, que paralisou o trânsito nas imediações do Complexo de Salgadinho. Bom para Amanda Mansur que pode curtir o lançamento do seu livro “O Novo Ciclo de Cinema em Pernambuco: a Questão do Estilo” sem ter que disputar a atenção com cinéfilos apressados em entrar no Teatro Guararapes. A mostra competitiva começou com a sala ainda meio vazia e o público não demonstrou o mesmo entusiasmo receptivo da noite anterior, a não ser com os dois últimos filmes exibidos em 35 mm: Os Amigos Bizarros do Ricardinho, do gaúcho Augusto Canani e Quando a Chuva Chegar, da paraense Jorane Castro. O primeiro arrancou boas risadas e aplausos e o segundo, apesar do estranhamento da platéia, também foi bem recebido. Todavia, foi um programa de filmes que se não impressionam, flertam com temas e formas narrativas inventivas.

Os Amigos… brinca com a história de um rapaz que mora em Viamão e trabalha numa agência de publicidade em Porto Alegre. Seu estilo lembra um pouco certo humor que parece ser peculiar aos filmes gaúchos e lá no fundo parece ter bebido na fonte Jorge Furtado. Mas funciona, é engraçado e o protagonista Ricardo Lilja imprime veracidade ao seu papel de um rapaz cujas tensões no ambiente de trabalho são resolvidas com ele contando histórias insólitas de seus amigos e familiares aos colegas. Este foi mais um filme a ter também como personagem um jabuti, um elemento recorrente e que pelo visto está se revelando uma tendência no cinema brasileiro, pois o animal foi visto em pelo menos dois outros curtas entre os exibidos no CinePE. Uma coincidência, no mínimo, inusitada.

Já o trabalho de Jorane Castro está centrado no efeito que um apartamento amplo localizado no centro de Belém provoca em seus moradores. Ao atravessar a soleira da porta do mesmo, seus ocupantes e visitantes são arrebatados por uma incontida força erótica que os leva a transar com a primeira criatura que aparecer pela frente, independente se for homem ou mulher, jovem ou idoso. Ninguém escapa e o casal que habita o imóvel chega até a pensar em se mudar, pois tal arrebatamento está colocando o casamento deles em risco. Depois ponderam que esta animação sexual pode até ser interessante. Pena que, por conta da duração do filme, os personagens não sejam melhor apresentados e construídos e o filme, embora apresente uma boa fotografia e planos bem compostos, dê saltos na narrativa, saltos os quais, nos primeiros momentos, não deixam o espe ctador perceber ao certo o que está acontecendo.

O outro curta em 35 mm foi o documentário Zé(s), de Piu Gomes. O filme estabelece um encontro cinematográfico entre o criador e mentor do Teatro Oficina Uzyna Uzona, José Celso Martinez Correia e Zé Perdiz, mecânico brasiliense cuja oficina se transforma em teatro. O documentário consegue resgatar a trajetória dos dois personagens centrais, mas foi outro trabalho que pela duração de 15 minutos não permitiu um adensamento de sua narrativa. Para quem não conhece Zé Celso e o que ele representa para o teatro brasileiro não pode aquilatar o significado maior deste encontro de realidades aparentemente tão distintas.

Entre os digitais tivemos mais um filme narrado em primeira pessoa: Se Meu Pai Fosse de Pedra, realizado por Maria Camargo, filha do escultor Sérgio Camargo a quem o trabalho é dedicado. A fotografia é bem cuidada e a diretora tenta articular texto e imagem de uma forma poética de maneira a revelar para o espectador uma síntese dos trabalhos de seu pai. Pena que ela prefira investir mais em cenas prosaicas de sua convivência com os próprios filhos. Elas, embora tenham sentido na amarração do roteiro, dispersam a atenção e enfraquece uma melhor percepção das esculturas de Sérgio Camargo e de sua importância como artista. O outro curta veio da Paraíba, ou Parahyba, como os cineastas do estado vizinho gostam de inscrever nos créditos de suas obras. O diretor é Ely Marques e foi rodado em 16 mm. Como esta bitola não está sendo mais utilizada nos festivais, O Plano do Cachorro foi exibido em formato digital. Ele mostra dois homens que se perseguem e brigam entre si até que um cão de rua olhe-os atônito e saia correndo assustado. A idéia é um pouco ingênua, mas a execução do filme tem qualidades e Ely e sua equipe, pelo que pudemos ver, poderão, no futuro, desenvolver projetos mais arrojados.

Sem mais artigos