DO BREGA AO SUBLIME
Noite de quinta-feira foi uma das mais interessantes na mostra de curtas do CinePE

Por Alexandre Figueirôa
Articulista da Revista O Grito!, em Recife

Mais um curta digital justificou a ida ao Centro de Convenções nesta décima quarta edição do CinePE: Ensaio de Cinema, ficção de Allan Ribeiro, do Rio de Janeiro. Simples na forma, quase minimalista, mas uma fonte inesgotável de emoções indescritíveis e uma declaração de amor a mais completa e intensa das artes. Num apartamento em Santa Teresa, dois homens maduros, um negro e outro com leve sotaque estrangeiro, moram juntos e compartilham o fascínio pela imagem em movimento. No início vemos os dois ocupados em afazeres cotidianos. Um prepara o café da manhã e o outro faz os arremates finais de um vestido. Depois, o homem que tem sotaque posiciona as duas mãos como se estivesse com uma câmera enquadrando um plano cinematográfico e começa a percorrer o apartamento descrevendo o que vê en tre as mãos a partir de cenas de filmes que assistiu: Visconti, Antonioni, Bergman… o companheiro negro surge vestindo a roupa que confeccionava antes e passa a ser personagem do filme imaginário do companheiro. Caminha pelos cômodos apertados, dança, e neste momento a câmera invisível e a real se confundem, sempre nos remetendo a cenas de filmes até o desfecho quando ela enquadra a janela que se abre para a cidade do Rio de Janeiro ao fundo. Corte. Os dois voltam aos afazeres domésticos e à noite, enquanto comem um pão feito pelo homem de sotaque, conversam sobre o ensaio realizado horas antes. Este acha que não incluiu cenas de filmes brasileiros no seu filme imaginário. O negro lembra então de Macunaíma, Dona Flor e seus Dois Maridos, Madame Satã… aparecem os créditos finais.
A delicadeza e o sentimento que Allan Rib eiro coloca nesta performance, aparentemente banal, talvez tenha sido percebida em toda sua intensidade apenas pelos muitos cinéfilos espalhados entre as centenas de espectadores do Guararapes. Não importa, seu trabalho mostrou que o cinema, como a existência, é um universo ainda em expansão e que as câmeras nas mãos de pessoas inteligentes e sensíveis, tal e qual o telescópio Hubble, ainda produzirão descobertas impressionantes e inesquecíveis.

Depois de Ensaio de Cinema ficou difícil fruir os demais filmes exibidos sem estabelecer comparações. Azul, do cearense radicado em Pernambuco Eric Laurence, rodado em 35 mm, tem uma fotografia exuberante e tecnicamente é irrepreensível. A cor azul enche a tela e inunda todas as cenas, desde os grande planos abertos até os bem cuidados mínimos detalhes do filme. Os enquadramentos, a edição de som e a montagem revelam terem sido muito bem estudadas pelo cineasta para atingirem o efeito desejado. Mas, talvez, lhe falte o que o filme de Ribeiro esbanjou. A emoção para contar a história de uma mulher e sua relação com o filho, inspirado num conto de Luzilá Gonçalves, mesmo que ela fosse contida e interiorizada ficou refém de um racionalismo estétic o exacerbado. A Montanha Mágica, do também cearense Petrus Cariry, foi outro filme repleto de belas imagens, mas que infelizmente tropeçou num equívoco cada vez mais comum em curtas contemporâneos: gente falando de si mesmo e nos torturando com textos sentimentalóides, com a profundidade poética de um pires, os quais nada acrescentam ao espectador.

Completaram a programação da noite da quinta o paulistano Circuito Interno, de Júlio Marti, filme-denúncia em formato de ficção sobre imigrantes bolivianos ilegais que são explorados em oficinas de costura clandestinas espalhadas pelo centro de São Paulo; e dois filmes pernambucanos que tentam entender o fenômeno da música brega no estado em que a estrela foi o ídolo cult da cena local: João do Morro, o qual, claro, estava lá no Centro de Convenções para frisson dos fãs. O primeiro foi o digital Do Morro?, de Mykaela Plotkin e Rafael Montenegro, que centra sua narrativa exatamente neste novo hype das plagas recifenses, artista do Morro da Conceicão que mistura pagode com suingueira e sa be-se lá mais o quê e é responsável por sucessos como a polêmica música “Papa-Frango”. O documentário, na verdade, está mais para o formato grande reportagem e perde sua força por conta de uma polifonia excessiva de depoimentos com um monte de gente querendo explicar porque João do Morro é o que é, e também discutir de pirataria musical aos rumos da indústria cultural, mas que no final não esclarece porra nenhuma. Talvez se tivesse centrado seu foco no próprio artista o resultado fosse bem mais interessante. Nisto, Faço de Mim o que Quero, de Petrônio Lorena e Ségio Oliveira foi mais feliz. Sem sonoras definindo isto ou aquilo, as imagens circulam pelo universo da música brega e me pareceram suficientes para apontar o que está acontecendo na música popular. Pena que este percurso não tenha sido melhor desenhado de modo a amarrar um discurso imagético mais coerente. Por este deslize em alguns momentos o que parecia ser uma sincera afeição aos protagonistas deste universo musical desprovida de ranços sociológicos, acaba dando a impressão de que, no fundo, os realizadores revelam um olhar que se não chega a ser preconceituoso, é reticente. Todavia a forma como os créditos finais do curta foram pensados são um show de criatividade e valem pelo filme inteiro.

Sem mais artigos