UMA VIAGEM
Fechando o segundo dia de competição no Cine PE, Paraísos Artificiais consegue envolver público com trama sobre a juventude

Por Rafaella Soares
Da Revista O Grito!, no Recife

Uma curiosa movimentação aconteceu no hall do Teatro Guararapes na noite da sexta-feira (27), antes do longa da segunda noite do festival Cine-PE. Em sua XVI edição, o evento tem a tradição de concentrar um público mais expressivo no fim de semana contemplado dentro da sua programação. Muitos dos presentes ali eram espectadores ansiosos por tentar identificar uma eventual aparição na telona, durante a exibição de Paraísos Artificiais. O filme do diretor Marcos Prado teve pré-estreia local sob o olhar atento e os 3 mil assentos do local disputados. Entre suas locações está a Reserva do Paiva, no Litoral Sul do Estado em tomadas que envolveram mais de 2 mil figurantes.

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Não demora muito, a produção começa a desmantelar muitos dos clichês esperados – seja por ser uma produção Globo Filmes, o que provoca por si desconfiança prévia em se tratar de uma realização comercial demais, seja por ter um elenco vindo de produções da televisão – incluindo a atriz Nathália Dil, além de Luca Bianch, Bernardo Melo, Lívia de Bueno e Divana Brandão.

O filme ambienta muitas das cenas em uma rave, gravada na Praia do Paiva, litoral sul pernambucano. Daí ser objeto de fetiche de uma turma que estava bastante imersa no universo raver, com ênfase em um período entre 2005 e 2008, quando a tribo enfrentava horas de música eletrônica em festas regadas a lisergia.

A que vemos na tela foi uma edição da Universo Paralelo, uma das mais famosas do circuito. Importante contextualizar o cenário antes de falar mais sobre como a obra foi bem sucedida em focar os jovens da geração Y sem maiores estigmas e facilidades maniqueístas. Isso ajuda a conquistar de primeira quem está na cadeira, e se sente envolvido pela história de Nando e Érika.

A história deles, desenrolada de forma não-linear, tem início quando a jovem DJ faz sua estreia na famosa festa eletrônica de 10 dias (sediada originalmente na Bahia, o que teve que sofrer interferência por redução de orçamento). Na viagem, Érika vai acompanhada da amiga Lara, com quem mantém um relacionamento afetivo. O entendimento sexual das duas, assim como a vontade de experimentar novas sensações é buscar um sentido de liberdade prometido em uma mascada de peyote ou um comprimido de ácido.

Com uma fotografia incrível de Lula Carvalho (filho de Walter Carvalho), imagens bem elaboradas e um trabalho de elenco assinado por Fátima Toledo, que soube imprimir um caráter de veracidade nas atuações, o filme revela um olhar palpável sobre as dinâmicas de relacionamento das pessoas que frequentam raves, entre si e com os elementos desse universo: sexo, drogas, aventura.

A trama transcorre fluida, quando surgem os desdobramentos que ligam o primeiro encontro entre Nando, Érika e Lara, até o reencontro dos dois primeiros em Amsterdã. Quando isso acontece, duas mortes acidentais já mudaram por completo a vida do casal, mas com a prisão de Nando, por porte de drogas ao desembarcar de volta ao Brasil, que o ciclo deste romance pouco convencional se fecha. De quebra, um Rio de Janeiro nublado e noturno se descortina para quem assiste, com uma mostra do que é exatamente essa relação que passa do chopp no Baixo Leblon para a venda de substâncias ilícitas com a inocência de quem troca a prancha de surf pela vida adulta.

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