COISAS DO CINEMA
Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho “esquenta” noite de abertura do Cine PE

Por Alexandre Figueirôa
Articulista da Revista O Grito!, em Recife
twitter.com/alexfig2

A primeira rodada de curtas da décima quarta edição do Cine PE foi legal. Dos cinco filmes exibidos – dois em formato digital e três em 35 mm – apenas o que abriu a noite não disse a que veio. Tanto, de Nataly Callai é mais uma dessas boas idéias que são desperdiçadas pela imaturidade da realizadora. Ao tentar mergulhar no universo de uma jovem que sofre por conta do fim de uma relação amorosa, ela apenas esboça o que poderia ser um exercício imagético mais denso em torno de tal situação. A garota abandonada passa o seu tempo ouvindo as gravações deixadas pelo ex-companheiro na secretária eletrônica e em vídeo quando eles eram felizes e anda feito uma doida por cima da mesa bebendo vinho. E fim.

Bem mais hábil foi o paraibano Paulo Roberto que estreou na realização audiovisual com um documentário simples sem grandes arroubos criativos, mas trabalhando de forma correta um personagem excelente. La Traz da Serra é um desses filmes pequenos, que em pouco tempo conquistam a plateia e sem pretensão de inventar a roda conseguem dar conta de contextualizar uma situação a partir de um olhar sagaz em que os mínimos detalhes, de imagens e falas, não são desperdiçados para mostrar a vida de um grupo de pessoas numa região isolada do interior da Paraíba.

A mesma sensação foi obtida por Marcelo Caetano no documentário Bailão, uma homenagem sensível e honesta aos homossexuais que já passaram dos 60 anos e que quase todos os finais de semana vão ao ABC Bailão, em São Paulo para dançar, beber, conversar e aproveitarem a liberdade que não tiveram na juventude. O filme entremeia imagens do baile, onde homens grisalhos dançam abraçados, com as imagens de alguns deles caminhando pelo centro de São Paulo enquanto narram com uma sinceridade comovente os anos sombrios de sua condição quando se defrontavam com a repressão dos costumes, a repressão política e a epidemia de Aids que tirou a vida de muitos companheiros. O curta, rodado em 35 mm, não é panfletário, não levanta bandeiras, apenas deita seu olhar de forma carinhosa a um grupo de pessoas que apesar das conquistas do movimento gay na atualidade convivem com as marcas de um passado que estão entranhadas em suas existências.

O Filme Mais Violento do Mundo, de Gilberto Scarpa é uma brincadeira bem humorada sobre um cineasta que insiste em rodar filmes de gosto duvidoso e vive atolado em dívidas. Para sair da situação financeira ruim ele aceita o conselho de um produtor em rodar um filme que trate de temas que segundo ele interessam ao público, ou seja, sexo e violência. Scarpa joga com os clichês das discussões que estão em voga no cinema brasileiro contemporâneo e dá um tiro certo na sua proposta. A piada em torno do cinema pernambucano, usada como mote pelo produtor vivido por Antonio Abujamra, para apontar um caminho a ser seguido pelo cineasta fracassado se quiser fazer sucesso é uma das inúmeras referências que o diretor pinçou para construir o roteiro do seu curta. E deu certo. A platéia presente ao Cine PE gostou.

Mas a estrela da noite foi mesmo Recife Frio de Kleber Mendonça Filho. Foi o filme mais aplaudido e se o foi o mérito é mesmo do que vemos na tela. A idéia é simples: como seria a cidade do Recife se de repente ela deixasse de ser uma cidade tropical e a temperatura beirasse zero grau? Com isto Kleber faz um passeio inventivo e repleto de sarcasmo com a capital pernambucana. Brinca com seus habitantes, seus hábitos, seu cotidiano e, sobretudo, com sua arquitetura, esboçando uma defesa de suas construções e de seu traçado que vem sendo paulatinamente devastado pela especulação imobiliária. Ironiza também as relações sociais estabelecidas e as imagens estereotipadas com o qual Recife é vendida pelo mundo afora. O filme já foi exibido em outros festivais e merecidamente ganhou prêmios, algo que certamente vai acontecer no Cine PE.

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