O diretor Evaldo Mocarzel durante o Cine PE (Foto: Andrea Rego Barros)

MOTOR, NA PARADA DESCE!
Ou os guerrilheiros da Kombi treme-treme

Por Alexandre Figueirôa
Articulista da Revista O Grito!, em Recife

Na terça à noite, depois de participar, no stande da Prefeitura do Recife, no hall do Centro de Convenções, de um debate com o cineasta Cláudio Assis em torno da questão da representação da periferia no cinema brasileiro, adentrei curioso o Teatro Gurarapes na última terça-feira (27) para ver o novo documentário de Evaldo Mocarzel cujo título Cinema de Guerrilha prenunciava uma experiência no mínimo instigante. O cineasta tem em seu currículo documentários memoráveis como Mensageiras da Luz (2004) e Do Luto à Luta (2005), entre outros trabalhos interessantes e ganhadores de prêmios, inclusive aqui no CinePE. Desta feita, porém, Mocarzel errou a mão e nos apresentou um dos documentários mais irritantes dos últimos anos.

A aventura de registrar a experiência de jovens na periferia de São Paulo interessados em audiovisual e fazendo filmes poderia ter sido muito melhor articulada. Não estamos questionando de forma alguma os méritos da iniciativa, algo que por sinal também é feito em outras partes do mundo e, no Recife mesmo, podemos citar a experiência do Auçuba e da Kabum neste sentido. O problema do doc de Mocarzel está na forma escolhida pelo cineasta para nos trazer o relato fílmico de tal empreitada.

A primeira questão que ecoou por todo o Teatro Guararapes na segunda noite do Cine PE, em Recife, foi por qual razão quase 80 por cento do filme se passa no interior de uma Kombi? Um crítico renomado do Recife, em tom de brincadeira (claro) disse que viu a hora ter um deslocamento de retina. Não era para menos, pois durante boa parte do filme quatro ministrantes das oficinas de cinema descrevem o processo de trabalho do grupo e relatam fatos de suas vidas para uma câmera trêmula, pelo sacolejo do veículo. Será que era para dizer: olha, gente, a periferia é longe pra cacete! Não bastasse o incômodo destes planos repetidos e visualmente cansativos, o discurso dos tais oficineiros todos aparentemente egressos das classes ditas desfavorecidas também soava monótono, contraditório e repleto de frases de efeito, como aquelas decoradas por militantes de movimento estudantil, para impressionar a classe média – vilã e responsável por todos os males do planeta – mas, que parece ser o lugar ideal que todos desejam um dia alcançar.

Da periferia, ou ao menos dos integrantes da oficina filmada, acabamos sabendo muito pouca coisa. Quando saiam da bendita Kombi só nos foi permitido ver os oficineiros darem ordens aos jovens pretendentes a cineastas de como fazer um filme. Os meninos e meninas até tentam expressar alguma coisa de suas condições de excluídos, mas o resultado de seu trabalho não nos foi apresentado.

O que foi filtrado e oferecido ao espectador foi o olhar do realizador e de sua visão idealizada do subúrbio, cuja complexidade sócio-cultural é mil vezes mais intensa que as evidenciadas no tal cinema dito de guerrilha. Se a intenção é dar voz por meio de imagens aos protagonistas e mostrar o que eles sentem e pensam dêem-lhes as câmeras, as ilhas de edição e deixe-os contar suas próprias histórias, sejam elas confusas, bem ou mal filmadas, desprovidas de verniz intelectual e tolas, caricaturas da subcultura pop, pouco importa, mas ao menos saberíamos que são sinceras e não um relatório de prestação de contas de uma ação programada falsamente travestida de cinema marginal.

CINEMA DE GUERRILHA
Evaldo Mocarzel
[Brasil, 2009]

NOTA: 0,0

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