NOITE DE VIDA REAL
Entre a ficção e a realidade, Karolynne e seu pintinho roubam a cena da noite de quarta no CinePE

Por Alexandre Figueirôa
Articulista da Revista O Grito!, em Recife

Dois curtas digitais e dois em 35 mm deram prosseguimento à mostra competitiva do 14º CinePE na noite de quarta-feira. Entre eles o mais interessante foi, sem dúvida, Sweet Karolynne um documentário que brinca de forma inteligente com os limites entre realidade e ficção. A autora Ana Bárbara Ramos é mais uma realizadora vinda da Paraíba, estado onde a produção de filmes, embora relativamente modesta em relação a outros centros, sempre oferece boas surpresas aos festivais pelo Brasil afora. A garota Karolynne, cujo pai imita Elvis Presley e tem como animal de estimação um pinto, é um achado capaz de deixar qualquer cineasta exultante. O bacana do filme é que Ana Bárbara aproveita a espontaneidade da menina sem expô-la ao ridículo, tratando-a com o carinho e a liberdade que ela merece. A edição de som e imagem é precisa, mostrando que o formato digital quando bem trabalhado pode cumprir seu papel no universo do audiovisual com distinção e louvor.

O segundo curta da noite foi o carioca Sobe, Sofia de André Mielnik. Apesar da boa fotografia, o filme é muito chato e repete o chavão manjado de filmes intimistas metidos à besta. O cotidiano de uma pós-adolescente friorenta (estranhamente ela fica de cachecol o tempo inteiro mesmo dentro de casa quando todo mundo está de blusinha de alça) deprimida e entediada é motivo para muitas poses, silêncios, olhares vazios, e um final em que se sugere que a moça cansou de viver. Devia ter feito isto logo na sequência inicial, assim teria poupado a platéia de 15 minutos de bocejos. Um Prozac também talvez resolvesse o caso.

Já os curtas em 35 mm primaram pelo bom nível de qualidade da imagem e ambos apresentaram roteiros bem escritos e articulados, embora não sejam filmes inesquecíveis. Revertere ad Locum Tuum , ficção mineira de Armando Mendz tem uma história divertida sobre uma viúva que deseja ao morrer ser cremada e ter as cinzas jogadas na natureza. A partir daí a história brinca com o efeito que os caprichos dela geram no restante da família e com a nossa relação com os mortos. O elenco é bem dirigido e tem interpretações precisas de Otávio Augusto e Berta Zemel.

Por fim, tivemos A Noite por Testemunha, de Bruno Torres. O curta faz uma adaptação livre do famoso episódio em que cinco rapazes de Brasília atearam fogo num índio pataxó. O episódio chocou o país e ocupou espaço na imprensa por muitos dias. O filme é bem montado, tem um bom ritmo e Bruno (que pode ser visto como ator no fraco longa O Homem Mau Dorme Bem, de Geraldo Morais, exibido na noite da terça (27)) tem a mão segura na direção. Contudo, no final, ficamos com a leve sensação que os assassinos do índio não seriam tão maus quanto foi pintado e tudo não passou de uma brincadeira inconseqüente cujo desfecho foi mais trágico que o esperado. Se o diretor que também assina o roteiro optou por tentar entender o caso por este viés teria então de aprofundar o perfil dos rapazes para nos convencer de tal possibilidade. Mas o fato verídico, inspirador do filme, não deixa muito espaço para tal leitura.

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