DILEMA ÉTICO ENTRE DIRETOR E DOCUMENTADO
Filme de Diego Gozze costura em 13 minutos de duração as agruras por que passa o personagem de um documentário
Por Fernando de Albuquerque

Dentre toda a seleção de curtas que esteve em cartaz durante o Cine-PE o filme de Diego Gozze, Um Ridículo em Amsterdã, merece destaque. Primeiro pela solução narrativa encontrada para contar a história e pelos tons metainguísticos que o filme ganha quando sobem os créditos e a platéia se surpreende ao saber que se trata de uma ficção com roupagem de documentário. O enredo nos fala de um rapaz de classe média, Rafael Ramos, de 24 anos, que é dono de uma dramática história de vida. Depois de ganhar uma viagem para a Europa, ele participa de um documentário onde um jovem cineasta – aparentemente seu amigo – se apropria de sua história através de métodos nada conservadores. Descortinando, assim, a intimidade do protagonista que, até então, acreditava que suas exigências (“Por favor, não grava isso, certo!”) estavam sendo plenamente atendidas.

Em curtos 13 minutos o enredo se estende para as próprias agruras de Rafael, um homem que mora sozinho em um apartamento (e aí pense na bagunça) que sonha em ser ator, se possível de renome, e para atingir o seu objetivo vende as passagens de avião que ganhou de uma companhia holandesa. O prêmio foi resultado de uma festa de confraternização, onde o funcionário vestido de forma mais ridícula ganharia a competição.

O curta então ganha tons de um reality show sobre o caos da personalidade de um adulto meio juvenil, o que abre oportunidade para Diego Gozze brincar com metalinguagem. Em uma câmera ora com imagens bem construídas, ora tremidas, o próprio diretor faz as entrevistas do personagem, que “não sabe” que está sendo filmado e reage mal quando descobre isso. O susto ao público vem com os créditos e a mensagem de que tudo não passava de mera encenação. Na operação de mise-en-scène, a câmera do documentário na ficção (a do personagem do diretor) e a da ficção propriamente dita são fundidas sem fronteiras aparentes.

O autor do filme fica excessivamente próximo do personagem do documentarista. Essa aparente fusão, na verdade, se inviabiliza já que a narrativa constrói para a platéia um documentarista como algoz e o documentado enquanto vitima de seu diretor. Tais como em outros filmes, o olhar narrador e a dos personagens narrados, há uma tendência a se confundirem um com o outro, quando, em muitos casos, essa sintonia não existe enquanto operação discursiva.

Temos em Um Ridículo em Amsterdã uma profícua discussão sobre o conflito ético entre documentarista e o documentado. As relações de poder e as manipulações de fala por que passa o documentado que cede sua própria história para apreciação geral. Diego Gozze nos leva a conclusão de que há um custo para aqueles que desejam existir enquanto documento de exibição pública. E que não adianta ao documentado insistir em ter sua própria, mesmo ela sendo verdadeiramente dele, verdade, pois a imagem sobre ele do diretor do documentário é que prevalece. A partir do momento que é se torna cobaia, o documentado perde sua própria realidade que se converte em ficção.

UM RIDÍCULO EM AMSTERDÃ
Diego Gozze
[Brasil, 2008]

NOTA: 8,5

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