PRIMO POBRE NOVELESCO
Bodas de Papel parece produto da Televisa disfarçado de cinema cult
Por Rafael Dias

É muito comum a idéia pré-concebida de que novela televisiva é um produto ruim. Um artigo de consumo cultural menor, dentro da subcultura pop, “vendida”, diriam os fundamentalistas. Porém, bem ou mal, a novela faz parte do imaginário e da construção de sentidos da sociedade brasileira. Ruim (ou melhor, péssimo) é quando um outro meio se apropria disso em seus aspectos mais pobres e superficiais, como é o caso do filme Bodas de papel, de André Sturm. Com um roteiro simplório e uma direção tacanha, a obra é uma sucessão de erros que constrange até o espectador mais noveleiro.

Se ainda fosse uma novela da Globo ou da Record, vá lá. Mas não, o segundo filme de Sturm (Sonhos Tropicais) está mais para uma novela da Televisa, com direito a um romance piegas e diálogos infantilizados. Com ingredientes desses, não se poderia esperar outra reação do público do Cine PE, que teve uma sessão prévia do filme, senão de riso e deboche. Em alguns momentos, ouviam-se até gargalhadas. “Isso é uma novela, é uma merda”, gritou um dos espectadores, em alto e bom som. O desabafo irascível pode ser entendido como uma “basta” à onda de “globolização” do cinema brasileiro, que vem nos últimos anos tomando conta dos multiplexes, empurrando goela abaixo comédias bobas e filmes românticos água-com-açúcar.

O ponto nevrálgico de Bodas de Papel não chega nem a ser a pobreza de enredo, que parece zombar da nossa inteligência. O que há de mais aviltante é a pretensão artsy e o status pseudo-cult que o filme quer passar ao espectador. As cenas de sexo entre Helena Ranaldi e o ator argentino Darío Grandinetti, por exemplo, parecem uma pornochanchada reloaded anos 2000, com a diferença de imbutir um falso pudor. As falas dos personagens, que aparentam ser extraídas do maternalzinho (“Você tem que procurar a pipa no céu”, ou “Eu já disse que você está linda?”; ela responde: “Hoje não!”), são de uma pretensão poética e sentimentalóide que nem uma criança abaixo dos seis anos formula mais.

É constrangedor para quem vê, sobretudo quando constata o desperdício de um elenco primoroso (Sérgio Mamberti, Cleide Yáconis, Walmor Chagas), em papéis reduzidos e tolos, como para quem atua no filme, pressupõe-se. Darío Grandinetti, que fez o ótimo Fale Com Ela, de Pedro Almodóvar, está na pele de Miguel, um arquiteto argentino que mora em São Paulo há quatro anos e é convocado a reformar uma casa na cidade interiorana de Candeias. Ele é talvez o menos sofrível e o mais convincente do elenco, assim como Cleide Yáconis que tira leite de pedra. Mas o sotaque do ator, que registra um português de lugar nenhum, extirpa qualquer tentativa de naturalidade.

Aliás, Bodas de Papel é um filme artificial do começo ao fim. O romance entre Nina (Ranaldi) e Miguel tem nada de crível. Mal se conhecem, já estão na cama numa relação tórrida e, de repente, estão trocando juras de amor eternas. Os cortes abruptos e a edição inexperiente reforçam essa sensação. Também não há uma química entre o casal que justifique tamanho transbordamento amoroso. Em suma, é um filme totalmente equivocado. Para um diretor, dono de uma distribuidora de cinema (Pandora Filmes), poderia se esperar mais.

Para quem quiser se arriscar, o filme estréia no próximo dia 16 de maio, apenas no Recife, São Paulo e Rio. Mas, para quem tiver bom senso, não se aventure. O filme é uma bomba de papel.

BODAS DE PAPEL
André Sturm
[Brasil, 2008]

NOTA: 2,0

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