Uma leitura da coletânea de poesias de Miró e como ela diz muito sobre o Recife marginal

Por Victor Augusto

Um livro comprido e fino com uma figura alta e magra estampada em sua capa. É assim que Miró até agora apresenta-se ao leitor. Com a mão no lado esquerdo do peito despido, a imagem dá a sensação de que, ao fazer o movimento de abertura da obra, o leitor inicia sua jornada como quem é convidado ao coração do artista.

O livro, publicado pela Cepe Editora e organizado por Wellington de Melo, baseado na primeira edição, de Sennor Ramos, reúne em um único volume a obra de . Mais que uma coletânea de poesias, trata-se de um registro histórico de publicações datadas de 1985 a 2012, a partir do olhar de um poeta preto, pobre e periférico.

“Puta que pariu com tanto P, porra!”, grita a introdução da obra, escrita por Wilson Freire, adaptando a fala do próprio poeta feita para documentário Miró: Preto, Pobre, Poeta e Periférico, lançado pelo cineasta em 2008. As palavras são o abre-alas para os onze livros que atropelam o leitor com uma leitura rápida e pesada: dizCrição (2012), Quase crônico (2010), Tu tás aonde? (2007), Onde estará Norma? (2006), Pra Não Dizer que Não Falei de Flúor (2004), Poemas Para Sentir Tesão ou Não (2002), Quebra a Direita, Segue a Esquerda e Vai em Frente (1999), Flagrante Deleito (1998), Ilusão Poética (1995), São Paulo é Fogo (1987) e Quem Descobriu o Azul Anil? (1985).

O grito da introdução se assemelha àqueles já conhecidos pelos que visitam frequentemente a Rua Mamede Simões. É que João Flávio Cordeiro da Silva, nome de batismo de Miró da Muribeca, tem o costume de romper o burburinho do reduto boêmio recifense com sua poesia performática, que invade os ouvidos e rouba o olhar sem pedir licença. Esse pedido, porém, só é feito quando o poeta deseja sentar na mesa de alguém para dois dedos de prosa.

Desde 1962, ano em que João Flávio nasceu, até dizCrição (o último livro contido na obra), publicado em 2012, foram 50 anos de uma amarga e feliz trajetória. As 222 páginas da edição contam de forma poética “alegrista” – como definiu no já citado documentário – as mudanças pelas quais a sociedade passou em cinco décadas vividas, vistas, ouvidas e declamadas pelo poeta pernambucano.

Em “Confesso que também vivi meio século”, poema do livro Quase Crônico, Miró da Muribeca conta a saga de um jovem negro nordestino que viaja para São Paulo. Em outras palavras, a sua saga. Nos versos, a história do país nesses anos é contada através dos cantores cujas vozes escutava do seu apartamento 902 como quem assistia pessoalmente aos seus shows, dos autores a quem declarava seu amor e das pessoas que passavam diante da sua janela.

Com uma poesia que vem do seu apartamento para a rua ou da rua para os livros, Miró viu e sentiu, de Recife a São Paulo, as mudanças que a geopolítica e a economia mundial causaram nos comportamentos das pessoas e na construção das cidades pelas quais passou. As histórias declamadas pelo poeta não são extraordinárias, mas aquelas que, mesmo vistas das formas mais corriqueiras, exercem seu grau de importância na construção da realidade brasileira. Que mudança a queda do Muro de Berlim poderia causar que sua mudança forçada para a Bomba do Hemetério já não havia promovido?

No poema “Grafia”, por exemplo, o poeta surpreende o leitor ao anunciar que “roubaram as árvores que esverdeavam teus olhos e plantaram meninas de catorze anos vendendo seus corpos”. Impactante, Miró até agora consegue apenas com o texto carregar a mensagem que se propõe a espalhar.

Carregada de significados, a poesia de Miró da Muribeca não precisou vivenciar nenhuma Batalha dos Guararapes. Bastou, para ele, vivenciar um negro sendo arrastado por policiais pelas ruas do Recife (fato que se repetiria com ele anos depois). Suas palavras, escolhidas a dedo para que entrem sem resistência no coração do leitor, encantam e machucam como a ponta de um anzol ao expor e denunciar a dura e cruel realidade de forma poética.

É dessa forma, como quem acompanha os fatos narrados por Miró da janela de um ônibus que transita pela periferia, que o leitor avança pelo duro terreno dos versos da obra. Seu deleite existe, mas não é proporcionado ao público como uma descrição purista do “belo e sublime”. Ao tornar “poetizáveis” as mais diversas situações, trágicas ou não, Miró subverte o estigma do suburbano de Dostoiévski.

Mas, claro, trata-se de um poeta performático. A compilação das obras de Miró da Muribeca traz ao leitor a facilidade de caminhar contra a linha do tempo ao ler as poesias das mais recentes às mais antigas. Cabe à imaginação ouvir a voz do poeta, sentir os arrepios das variações da sua voz e tremer com a fixação do seu olhar. Claro que, ao fim, fica a vontade de procurá-lo ou, pelo menos, andar mais atento pelas ruas da cidade.
“Ficou explícito que o poeta Miró traz em sua obra um forte caráter performático, enraizado em uma ancestralidade trovadoresca. Sua literatura pode ser considerada marginal, por atuar fora do mercado editorial, e abordar contextos e temas que dizem respeito a uma minoria marginalizada por um contexto histórico opressor”, crava artigo publicado por Jefferson Moura de Souza, da Universidade Estadual de Feira de Santana.

Miró não coube nas ruas, virou livros. Não coube nas páginas, virou documentário de Wilson Freire em 2008. Também não coube no enquadramento das câmeras e virou coletânea. Voltou a não caber no papel e sumiu. Não coube no telefone, não atendeu as ligações deste jornalista e encontra-se fora de área ou desligado, vendo o mundo à sua maneira e traduzindo o cotidiano em poesia.

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