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Foto: Eduardo Magalhães/ Divulgação

A dor e a delícia de se expor

Por Renata Arruda

Quando conversei com Cícero em 2012 ele despontava: depois de ser considerado um dos melhores álbuns de 2011 em diversas listas, seu Canções de Apartamento estava prestes a sair em versão física pela Deck e colecionava elogios de público e imprensa especializada – o que me levou a perguntá-lo se não sentia medo de possíveis críticas negativas. admitiu que sim: “Medo de críticas eu tenho. Me expus demais no disco, tudo que falarem dele, estão falando de mim. Então eu tenho medo sim!”. Pouco mais de um ano depois, lançava  (Deck), álbum cuja proposta estética vem na contramão do anterior e dividiu opiniões, sendo alvo de diversas críticas. “Ficou marcado na minha memória afetiva como uma época ruim, infelizmente. Mas foi necessário, importante, um rito de passagem”, conta ele.

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Ainda em 2013, o músico participou do disco Vazio Tropical, de , compondo a faixa “Zelo” e colaborando em “Rosa”, e regravou três de suas canções (a saber: “Ela e a Lata”, “Tempo de Pipa” e “Duas Quadras”) ao lado de , Momo e dos músicos portugueses Diego Armés, Fred Ferreira, Bernardo Barata e Alexandre Bernardo para a coletânea , lançada este ano em Portugal e produzida por Fred Ferreira com gravações adicionais de Bruno Schulz e Bruno Giorgi e que encontra-se disponível gratuitamente na web no site da NOS Discos. Com boa aceitação no país, o músico carioca se prepara para retornar na semana que vem, onde se apresentará no festival Fusing Culture Experience e depois volta ao Brasil para o último semestre da turnê de Sábado

Para O Grito!, Cícero falou sobre Sábado e mandou por meio de assessoria o faixa a faixa feito do disco feito por ele em release, que você lê abaixo:

Poderia comentar um pouco sobre a concepção de Sábado? Quem é o Cícero que ele retrata?
São duas perguntas rs. A concepção foi artesanal como a do primeiro, com motivos e intenções diferentes, mas com o mesmo princípio. O que ele retrata eu já não sei. Vai além dos meus motivos e intenções. Não é subjetivo, é objetivo, mas individual. Nada que eu fale sobre mim vai mudar o que cada um vê em mim; é assim com os discos e com todo mundo.

Uma vez você comentou sobre “a arte que fazemos pra transver o mundo”, usando uma expressão de Manoel de Barros em uma reflexão sobre a comunicação entre artista e público.  Como você utiliza a noção de “ transver o mundo” na sua música?
É o que o Manoel fala mesmo. Em discos, Inventei um apartamento, inventei uma cidade, inventei memórias, sensações, paisagens, pra mim e pra outras pessoas. Usei pra isso meu olhar, algo que todo mundo tem. Isso também é transver a realidade e ver ela apresentar outra possibilidade. O jogo não tem a ver com fama, fama não é real, esse jogo é real, necessário e libertador. Por isso a música, pra mim, tem que estar a serviço disso.  Eu invento, vira real e aí o mundo opera a partir dessa lógica pra mim. Minha realidade mudou completamente umas três vezes ndos últimos 3 anos por força da minha imaginação, eu só posso acreditar que isso é verdade.

Em entrevista a O Grito! em 2012, você me disse que tinha medo de críticas por ter se exposto demais no CançõesSábado é um disco mais contido e que dividiu opiniões tanto entre o público quanto no meio jornalístico, com algumas críticas bastante ferrenhas. Como foi lidar com isso?
Muito ruim. E eu acho o Canções mais contido, sabia? mais alegórico, fantasioso, usa fábulas, referências, fragmentos de músicas já conhecidas, tudo pra dizer agradavelmente o que é dito, pra ser aceito; isso é uma contenção de intenções, né? “Laiá laiá” e “Ponto Cego”, por exemplo, são canções sociológicas, agressivas, pesadas, zero existenciais, mas eu não queria falar disso usando um discurso agressivo, porque eu queria que a mensagem fosse aceita. É fácil ser agressivo, todo mundo sabe ser agressivo, mas eu não queria e não quero ser. Um poema sobre um passarinho pode ser mais incendiário do que todos os discursos políticos e é nisso que eu acredito. E então o disco foi aceito, fiquei feliz, todo bobo. Já o Sábado foi um bode só… ficou marcado na minha memória afetiva como uma época ruim, infelizmente. Mas foi necessário, importante, um rito de passagem, passei de ano, reafirmei em mim mesmo a minha vocação pro afeto e a minha fé na música como elemento transformador de indivíduos e nos indivíduos como elementos transformadores do meio. Todo santo dia na rua alguém me pára carinhosamente e fala que gosta do que eu faço, e eu agradeço e vou pra casa feliz. Isso pra mim é o que importa agora, o resto é papo furado. 

O que Sábado representa para você?
Meu segundo disco e vamo que vamo!

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Site oficial: http://www.cicero.net.br

Sábado, faixa a faixa

O disco abre com a canção Fuga nº 3 da Rua Nestor que retrata a saída do bairro de Santa Cruz, Rio de Janeiro, onde nasceu e morou até os doze anos, quando os pais se divorciaram. Buscou na sonoridade e na poesia remeter ao balanço de um caminhão de gás, tão comum no subúrbio carioca. Pra isso chamou o músico Marcelo Camelo, natural de Jacarepaguá, outro bairro da zona oeste carioca, para tocar bateria.

Na sequência, Capim-Limão que como o próprio nome diz é uma canção-calmante. A contemplação da realidade urbana, da fé e das cercas.

Ela e a Lata, fala sobre um atropelamento. Inicialmente a canção tinha outra letra, mas após o acontecimento, ele a refez e retratou o episódio.

Em Fuga nº 4, novamente,  fala sobre suas fugas. Se a canção que abre o disco retrata sua fuga do bairro onde nasceu, a quarta faixa fala da fuga das verdades absolutas, que raramente resistem ao tempo e ao destino.

A ideia de Pra animar o bar, era fazer uma canção bêbada. Gravada em camadas e sem marcação de tempo, a dinâmica confusa de harmonias descasadas aliada ao dialeto corriqueiro imprimem a tentativa ébria de euforia que enche os bares do Rio de Janeiro.

A sexta faixa de Sábado, retrata o bairro de Botafogo, zona sul do Rio. Os primeiros versos de Por Botafogo dizem “Se você não estiver amando, deixa a gente amanhecer” relembrando as madrugadas pelo bairro.

Duas Quadras, como o próprio nome diz, são duas quadras poéticas que foram musicadas. Versos reflexivos que pairam num ponto de ônibus ou em qualquer outro momento solitário do cotidiano.

Asa Delta retrata as limitações físicas que a cidade nos impõe e o contraponto que nossa imaginação é capaz de criar. Engarrafado na Avenida Niemeyer, Rio de Janeiro, uma Asa delta pairava sem pressa acima de todos. A imaginação é capaz de fazer a mesma coisa.

Porta, Retrato, uma forma doce de se despedir de um relacionamento que acabou de acabar. E finalizando, Frevo por Acaso, canção que narra o reencontro com essa pessoa.

https://www.youtube.com/watch?v=xpw2kKn2r-w&list=PLTaRWr5sdDvlMo00TXC0YUAhuRyg1OP2X

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