Cibelle faz rompante eletro-bossa extravagante

Foto: Divulgação/ Akio Shara

CIBELLE
The Shine of Dried Electric Leaves
[Crammed Discs, 2007]

Cibelle faz parte daquele grupo de artistas brasileiros reconhecidos no exterior, mas pouco explorados no seu país. O seu segundo disco na Europa The Shine of Dried Electric Leaves é, na verdade, o álbum de estréia no Brasil. A paulista, radicada em Londres, trilhou uma carreira que justifica o assédio por parte da imprensa internacional. Não à tôa já participou do Festival Sudoeste em Portugal, além de passar por uma situação inusitada quando foi impedida de se apresentar após uma verdadeira tempestade cair sobre a cidade de Madrid.

No Brasil, o primeiro show solo acontece no próximo dia 15, durante o Festival No Ar: Coquetel Molotov, em Recife. Depois de subir ao palco do teatro da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a cantora parte rumo ao Tim Festival com a expectativa de quem já tem os ingressos esgotados há pouco menos de dois meses para o evento. Portanto, Cibelle chega para justificar o sucesso na Europa.

Na Bélgica, lançou o primeiro álbum, produzido por Suba, em meados de 2003, trazendo influências que se conjugam numa harmonia quase jazzística, ao acomodar num mesmo álbum Tom Jobim, Jackson do Pandeiro, Björk e Billy Holliday. Cibelle presta homenagem aos clássicos de Jobim como “Dindi”, “Luiza” e “Ligia’ ao fazer alguma referência no arranjo, na composição ou até num breve sussurro que faz lembrar tais músicas. Há ainda certo tom melancólico quando improvisa um som moderno, dando ao disco uma espécie de invólucro eletrônico, realçado até pelo tilintar de moedas ou reprodução de sons do oceano.

Os trabalhos de Cibelle saíram pelo subselo Ziriguiboom da Crammed, criado em 1998. Nessa mesma gravadora, a artista também participou da coletânea The Now Sound of Brazil (2005) que traz Bebel Gilberto, Celso Fonseca, Trio Mocotó, Bossacunova e Suba. Até então, a cantora perseguia o rótulo da Bossa Nova, exibindo-o apenas com outras possibilidades. No segundo trabalho, a cantora abandona o ecletismo, compondo, agora, um disco mais imprevisível, surpreendente e próprio.

The Shine of Dried Electric Leaves é o título da obra produzida não somente em Londres, mas também em São Paulo. Com o apoio de Apollo 9, Mike Lindsay, Yann Arnaud e DJ Spleen, em apenas 18 meses, o álbum traz uma densidade maior que, talvez, seja resultado de um acúmulo de experiência profissional e pessoal da cantora. Contudo, permanece ainda refém dos experimentalismos sonoros ao colocar uma tímida caixa de música, iguais àquelas que guardam jóias e têm uma inocente bailarina a rodar, no arranjo da primeira canção do disco, “Green Grass”. Xícaras e colheres também figuram na melodia de “Mad Man”.

A voz, que sempre cedia espaço para inventos fonográficos durante os primeiros trabalhos, agora, pede passagem e se impõe, incorporando a todas as canções um emblema de naturalidade ao cantar em francês, inglês ou português. Ao mesmo tempo em que faz releituras como “London, London” e “Cajuína” de Caetano, “Por toda a Minha Vida” de Jobim e participa do duo “Arrête” com Seu Jorge, Cibelle é responsável pela autoria de “Train Station”, “Phoenix”, “Instante de Dois” e “Minha Neguinha”.

Sem dúvidas, uma obra em que pesa não somente a suave voz, mas, sobretudo, o punho afiado e criativo para compor um novo tom à moderna música brasileira. Cibelle visita a Tropicália, toca o jazz e até o rock, mas sempre tudo muito bem marcado por rompantes melancólicos da música eletrônica. Sem dúvida, é o que há de mais intrigante e novo. [Rêmulo Caminha]

NOTA: 9,0

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