CHUCK E EU
Aos 70 anos, ator famoso por seus filmes truculentos vira cult e ganha homenagem no Recife

Por Osvaldo Neto
Especial para a Revista O Grito!, em Recife

Foi com inesperada surpresa que recebi o convite da Revista O Grito! para falar de uma figura ilustre dos tempos em que a Sessão da Tarde era boa: Chuck Norris. Muita gente tira sarro da minha cara quando digo e repito que vi Comando para Matar – o clássico do Schwarzenegger – e Chuck Norris nos filmes da série Braddock e Comando Delta nas tardes da Globo. E sem cortes nas cenas violentas, ainda por cima.

As crianças da minha época tiveram a grande sorte de acompanhar esses e outros heróis do cinema de ação estraçalhando com terroristas (geralmente asiáticos, latinos, muçulmanos e europeus) ao invés das coisas que passam hoje, de cachorro jogador de basquete, macaco milionário, gato falante e etc. Na minha passagem de infância para adolescência, Zé do Caixão apresentava o Cine Trash na Band, grande rival da Sessão da Tarde era o  Cinema em Casa do SBT com cães, macacos e gatos assassinos. E quando chegavam as noites de terça-feira, Sessão Kickboxer, com os filmes de Jackie Chan e Jet Li sem esquecer dos heróis de ação do segundo escalão como Gary Daniels, Mark Dacascos, Richard Norton, Don “The Dragon” Wilson, Frank Zagarino e, claro, Lorenzo Lamas. Foram tirar isso das TV’s e o que aconteceu? O nascimento dos emos.

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Uma característica comum dos heróis de ação é que eles sorriem para a câmera ou outros personagens quando o seu show chega ao fim, ou seja, quando não sobrou mais nenhum figurante para levar um tapa. Mas eu nãolembro disso acontecendo com Chuck Norris. Eu não lembro da última tomada do filme ser uma imagem de Chuck sorrindo. Reza a lenda que ele consegue falar Massachusetts com a boca cheia de farofa e eu acredito que sim. É mais fácil do que vê-lo sorrindo no final de seus filmes.

Chuck Norris deu o ar da sua graça pela primeira vez no cinema levando um sopapo de Dean Martin em The Wrecking Crew, de 1969, quarto e último filme da série Matt Helm, que parodiava os filmes de espionagem muito antes de Austin Powers ser criado. Bruce Lee foi coreógrafo da produção e Chuck, um de seus alunos. Quatro anos depois, Lee iria dirigir e estrelar O Vôo do Dragão, onde ele e Norris tem a antológica cena de luta no coliseu em Roma. Seguiram-se o documentário Bruce Lee – A Lenda e filmes inexpressivos até outro momento clássico da sua filmografia: Octagon, de Eric Karson onde ele contracena com Lee Van Cleef e encara Ninjas! Repito:  Chuck Norris e Ninjas!

O filme não é tão bom quanto deveria ser, nem possui o fator queijorama dos notórios Ninja – A Máquina Assassina (com Franco Nero), A Vingança do Ninja e Ninja 3 – A Dominação, esses últimos com Sho Kosugi. Mas uma coisa é certa: você não viveu até ver Norris estapeando ninjas.

Em 1982, houve o flerte do ator com o cinema de terror em Fúria Silenciosa e no ano seguinte, com o faroeste italiano em um de seus melhores filmes: McQuade – O Lobo Solitário. Com direção de um inspirado Steve Carver, McQuade também é um dos filmes mais famosos de David ‘Gafanhoto’ Carradine, aqui fazendo o vilão. Uma grande luta final acontece entre Norris e Carradine, que recusaram o uso de dublês. Mas foi em 1984 que veio Braddock – O Super Comando, o filme que o fez ser essa lenda que é hoje. O filme gerou duas divertidas continuações, a primeira foi filmada ao mesmo tempo que o original e a terceira rodada em 1989, com o irmão Aaron Norris estreando na direção. É divertido imaginar Chuck brigando com o irmão nas filmagens e Aaron ameaçando contar tudo para a mamãe.

Outros grandes sucessos seguiram como Comando Delta, onde Norris estrelou ao lado de veteranos como Lee Marvin, Robert Vaughn e George Kennedy. Ele também encarou grandes vilões do cinema popular dos anos 80 como Christopher Lee (Olho por Olho), Billy Drago (Comando Delta 2), Henry Silva (Código do Silêncio) e Richard Lynch (Invasão USA). Código do Silêncio é talvez o seu melhor filme, muito bem dirigido por Andrew Davis (O Fugitivo) e Invasão USA de Joseph Zito (Quem Matou Rosemary?) está no nível de Comando para Matar em termos de contagem de corpos e grosseria cinematográfica. O filme se encerra com um duelo de bazucas  entre Lynch e Norris. Sensacional!

Com os anos 90, veio Walker – Texas Ranger, uma série de TV que fez sucesso, apesar da ausência de qualidade e truculência presentes nos melhores filmes de Norris. Seguiram-se também Hitman e Perigo Mortal, ambos medíocres, mas divertidos e com direção de Aaron Norris. Os péssimos e infantis Top Dog e O Defensor enterraram de vez a carreira do ator nos cinemas que passou a se dedicar a televisão, com Texas Ranger atingindo a marca de 196 episódios e mais quatro telefilmes. Destacam-se O Homem do Presidente e sua continuação que não são bons, mas recuperam um pouco da falta de noção de seus produtos da era Reagan. No segundo filme, feito em 2001, há um clone de Osama Bin Laden.

Não assisti ao Vozes da Inocência, um terror cristão (sério!) que ele fez com o seu filho Mike Norris. Após uma divertida aparição relâmpago em Com a Bola Toda, Norris faria Resgate de Risco, seu último filme. A produção diverte, mas está muito abaixo de seus trabalhos anteriores. Uma pena.

Mas a lembrança que fica é a de Chuck como o exército de um homem só e acabando com a raça dos bandidos. Reza a lenda que nenhum figurante sofreu tanto quanto nas filmagens de suas produções. E isso, meus amigos e amigas, é fácil de acreditar. basta assistir aos seus filmes. Feliz 70 anos, Chuck Norris.

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