CEARENSES RECONTAM IMPORTANTE FATO CARIOCA
Depois de meses adiado, a Revolta da Chibata ganha espaço no mundo dos quadrinhos e desenterra fatos que a História tratou de calar
Por Lidianne Andrade

Para o mundo dos quadrinhos autorais tudo é livre, solto. Fala-se de morte, sexo, drogas, fantasmas, enfim, a imaginação rola solta, basta papel, tinta e criatividade. Mas também árduo. Depois de um trabalho que começou há três anos e teve o lançamento adiado mais de uma vez, a editora Conrad coloca nas ruas a HQ Chibata!, dos cearenses Hemetério (desenhos) e Olinto Gadelha (roteiro).

O quadrinho traz a história de João Cândido Felisberto (1880-1969), o marinheiro líder da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 22 de novembro de 1910. Além trazer informações históricas reais do fato, a dupla traz no roteiro a vida de João no hospício, onde foi internado após sua condenação e flashbacks sobre sua vida pessoal e a revolta. Foram dois anos entre pesquisa, produção e desenho, de 2006 a 2007, um trabalho com muita coordenação e felling entre a dupla, que já trabalham juntos há algum tempo e possuem uma empresa que faz HQs, folders, e outros designs pra o mercado publicitário. “O tempo para fazer os desenhos meio que se fundiu com o tempo para escrever o roteiro, já que enquanto o Olinto escrevia o capítulo dois, eu desenhava o primeiro.”, conta Hemeterio. Para se ter uma idéia do trabalho árduo, coloquemos em números: depois de receber o roteiro, Hemeterio desenhava em média uma página por dia, sendo que o HQ tem 223 páginas.

Para retratar lugares e fatos históricos em traços no preto e branco, muito trabalho do também arquiteto Hemetério. Usando a técnica do pontilhismo, pesquisou em livros, fotografias, visitou bibliotecas e trabalhos de outros quadrinistas que trabalhassem com o preto e branco para recriar com a maior perfeição possível o cenário da época. “A história é ficcional, embora fortemente embasada na realidade e tivemos muito cuidado para ambientar a HQ o mais corretamente possível. Sou arquiteto, então as partes do roteiro envolvendo cenas de rua e mobiliário urbano foram particularmente interessantes pra mim”, explica o desenhista. “Só uma vez fui ao Rio procurar o túmulo do João Cândido, citado no livro do jornalista Edmar Morel. A referência estava correta, infelizmente. Digo infelizmente, pois João Cândido foi enterrado na ala dos indigentes do cemitério do Caju, em 1969, e nada resta mais. Foi-se o homem, ficam seus ideais – sem querer ser piegas em demasia, claro”, conta Hemetério.

A temática do HQ surgiu pela própria editora Conrad, talvez inspirada pelo histórico de boas vendas das adaptações históricas e literárias. A dupla comprou a idéia. “O tema da liberdade é inesgotável e pra nós, desenhistas e escritores, nada nos toca mais que essa causa. Aliás, liberdade foi algo que usufruímos à vontade, pois a Conrad não deu pitaco algum na história. Eles confiaram nos nossos instintos, o que pra gente, foi sensacional”, conta Hemetério. Para Olinto, ser um herói nacional é um dos fatores que o atraiu ao tema. “Quando a editora Conrad nos fez o convite, sugeriram uma série de temas. Olhando a lista, ficou óbvio para nós que o mais interessante deles era a Revolta da Chibata. Primeiro porque se trata, para a maioria das pessoas de um título familiar, mas uma história não conhecida. Por ser assim vasta e envolvente, tivemos a oportunidade de explorar diversas facetas, tanto as dramáticas quanto outras visuais na arte. É a saga completa de um herói nacional, e é uma grande honra poder contar essa história agora em uma nova mídia”, conta Olinto.

Bastidores
Como fontes de dados, todos os meios de tecnologia e informações possíveis. Apesar de ser um tema da história nacional curricular, não há muita informação disponível. “Usei muito a Biblioteca Pública, ferramenta importantíssima. Alguns livros sobre a vida de João Cândido viraram minha referência constante e, eventualmente, era preciso pincelar aqui e ali livros mais genéricos sobre a história brasileira da época, captar um detalhe ou outro”, conta Olinto. Para Hemetério, a parte visual do processo, nem tudo foi tão fácil. Com fontes limitadas, recorreu a todos os recursos possíveis, além de visitas constantes à biblioteca pública Menezes Pimentel, de Fortaleza, cidade onde mora. “Não vou dizer que o processo de produção foi fácil, mas sem dúvida, foi extremamente agradável e descomplicado. Eu e o Olinto já trabalhamos juntos há muito tempo, justamente, nessa parte de design gráfico, cartilhas em quadrinhos para os mais diversos fins, logotipos, essas coisas. A grande dificuldade, eu diria, é que não dá pra “viver” exclusivamente de quadrinhos, então, tivemos que remanejar constantemente o tempo dedicado à HQ junto com nossos afazeres pessoais. No fim, deu tudo certo”, conta o dono dos traços de Chibata!.

Para Olinto, os problemas enfrentados nos bastidores foram maiores.  Tiveram até que reescrever um capítulo inteiro no meio da produção, medida drástica tomada para não ultrapassar seu prazo. “Um único contratempo ocorreu durante a fase do roteiro: um dos capítulos do livro, já planejado com antecedência, durante a decupagem de suas cenas, não funcionava dentro do arco dramático. As cenas não moviam o enredo e a dinâmica entre personagens começou a ruir”, conta. Como todo bom escritor, lutou até a última grama de paciência para tentar identificar o problema. No final, acabou mudando tudo. “Senti que era preciso uma atitude mais radical, então joguei fora tudo: apaguei os arquivos no computador e enfiei a versão impressa no saco de lixo. Tão logo me livrei da tentativa de consertá-lo e comecei a reescrever, percebi uma pequena mudança estrutural na narrativa que fez tudo se encaixar, e então fui capaz de rapidamente recriar o texto, sob esses novos parâmetros. O capítulo em questão ficou ainda melhor do que fora originalmente planejado e é para mim um ponto alto do livro”, comemora o roteirista.

Apesar da vasta pesquisa, o roteiro conta o fato em si, mas não na íntegra. “Nossa história é uma ficção de época, recheada de personagens reais. As liberdades tomadas na concepção do enredo foram imensas. Desde cedo alertamos a editora para o fato de que iríamos fazer um relato ficcional, embora fortemente baseado nos fatos históricos. Eles nos deram carta branca e total liberdade criativa, respeitando nossos instintos, e preservando nossa forma de expressão”, explica o roteirista Olinto.

O dono dos traços
Como todo bom desenhista, Hemetério desenha tudo, faz desde caricaturas de si mesmo baseados em jegues cearenses (vide blog do autor, com antigos trabalhos e acompanhando o sucesso de Chibata! pelo Brasil) até heróis brasileiros, passando por campanhas publicitárias e desenhos e pinturas em exposição permanente no Museu de Arte de São Paulo (MASP). Mas quando questionado sobre um tema preferido, fica com a ficção científica. “Sou admirador inconteste de Arthur Clarke, Carl Sagan e Kurt Vonnegut e no cinema, Stanley Kubrick e Robert Wise. Não à toa, igualmente mestres em desenvolver tramas tendo a ciência como pano de fundo”, declara.

Claro, para ganhar a fama de autoral em meio aos quadrinistas nacionais, possui traços únicos e originais, mas traz na bagagem grandes nomes na cabeceira como Edward Gorey, Frank Miller, Chuck Close e Will Eisner – todos eles mestres no domínio do contraste em preto e branco. “No mais, usei diversas referências pessoais, acumuladas nesses 37 anos e meio”, conta. Atualmente o arquiteto, que já conta com dois livros lançados no currículo, tem novos projetos na agulha, mas revela detalhes. “Tenho pelo menos dois trabalhos em andamento, também envolvendo quadrinhos e um livro de cartuns. Mas no momento, seria precipitado incluir mais detalhes. Por enquanto, estamos concentrados na divulgação do Chibata!, mas em breve iremos entrar nesse assunto,” conta.

O dono das falas
Professor especialista na área de tecnologia da informação, Olinto é parceiro de trabalhos publicitários e quadrinhos de Hemetério. Teve oito títulos publicados na área técnica e jogou-se de cabeça na produção de Chibata!, por acreditar em seu papel, além de diversão, como fonte de consulta. “Se algum estudante ler nosso livro com a intenção de saber sobre os eventos da Revolta, sairá dessa experiência com informação e uma boa dose de entretenimento”, comenta. Como todo bom criador, faz muitas coisas ao mesmo tempo e até apresenta um programa radiofônico, “Frequência Beatles”, ao vivo, todos os sábados, às 18hs, na Rádio Universitária FM.

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