BAILE TIPO EXPORTAÇÃO
Filme de Laís Bodansky quase acerta o passo, mas aposta em personagens desconexos e verborragia
Por Rafael Dias

As antigas festas de salão ou os bailes de orquestra eram o principal ponto de encontro, diversão e flerte, num tempo anterior às boates (anos 70), raves (anos 90) e chats (anos 2000). Todos, da high society ao baixo meretrício, sacolejavam de rosto colado, movidos a uísque e licor ao som de bolero, fox-trot e cha cha cha. O auge disso foi entre as décadas de 20 e 40, entrando em declínio após os anos 50. O prazer da contradança, porém, parece ensaiar um retorno, assim como a onda de revival generalizado que toma conta da música, do cinema e da literatura neste começo de milênio “pós-muderno” e sem identidade. É nesse embalo de moda antiga que pega carona o novo filme de Laís Bodanzky, Chega de Saudade, que estréia esta semana em quatro salas do Recife (um mês depois de São Paulo e Rio), prometendo “botar todo mundo pra dançar”, como disse a própria diretora, antes da sessão hors councours no Cine PE deste ano.

O segundo filme de Bodanzky, que fez sua estréia com o instigante Bicho de Sete Cabeças (2001), faz uma justa homenagem aos bailes à moda antiga que ainda hoje são organizados em clubes de dança remanescentes pelas capitais do Brasil (geralmente na periferia), freqüentados, em sua maioria, por pessoas de terceira idade, os mesmos que testemunharam o desbunde e a euforia daquela época. Poderia ser um filme bonito, afetuoso e comovente, sem apelar para uma emoção gratuita e uma nostalgia por si mesma. Mas Bodanzky optou pelo caminho mais fácil: fazer do longa uma grande festa, um pout porri difuso de mil canções e personagens desconexos.

Toda a ação do filme se passa em apenas uma noite e em um único cenário, um salão de festas tradicionalíssimo (o título é um tributo ao prédio no centro de São Paulo que abrigou por décadas bailes de orquestra marcados na memória afetiva da boemia paulistana e serviu de set de locações para as filmagens), por onde circulam vários personagens fictícios da trama. São dois os núcleos da história: Eudes (Stepan Nercessian), pé-de-valsa que convida a jovem Bel (Maria Flor) para dar alguns passos no salão e acabam dançando a noite inteira juntos, o que gera ciúmes em Marici (Cássia Kiss) e Marquinhos (Paulo Vilhena), seus namorados, respectivamente; e o cativante casal Alice (Tônia Carrero) e Álvaro (Leonardo Villar), que passam a noitada toda sentados e tensos, sob a expectativa de dançar um dois pra lá-dois pra cá como faziam no auge da juventude.

O argumento do filme, em si, é genial. Compor histórias e sincronizar vários planos em uma só locação resultaram em verdadeiras obras-primas da história do cinema, a exemplo de O Baile, de Ettore Scola, e Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman. Tanto o primeiro, uma festa de salão sem falas, só com imagens; como o segundo, uma festa sombria e com aura noir, permite-se a um mergulho sem receios e concessões sobre as alegrias e o tédio de um grupo apenas em busca de um escape, uma diversão momentânea. Chega de Saudade, em vez de captar essas particularidades, faz um baile com leve toque novelesco, que parece uma festa made in Brazil para gringo ver – os convivas sempre de alto astral, temperados com suor, sexo (falado) e música.

O dois núcleos dramáticos são o que sustentam a narrativa e tiram o filme de Bodanzky do fiasco da mediocridade. O mérito recai sobre Tônia Carrero e Leonardo Villar, dois grandes mestres da dramaturgia brasileira, que dão um show à parte, e o ator Stepan Nercessian, que transmite com fidedignidade a pose de canastrão e sedutor de seu personagem. Outro ótimo achado do filme é a participação especial da cantora Elza Soares, que interpreta ela mesma, cantando boleros e músicas românticas, forte e “dura na queda”, como uma diva de Almodóvar. A trama, no entanto, se perde quando explora os núcleos secundários, na tentativa de enxertar situações engraçadas (?), como a disputa rancorosa entre os personagens de Marli Marlei e Calrice Abujamra por um homem cafajeste. Em alguns de seus piores momentos, Chega de Saudade lembra as chanchadas de Hugo Carvana nas cenas de bailes carnavalescos.

Em suma, Chega de Saudade se sairia melhor se cortasse a verborragia e optasse por menos diálogos. Seria um tour de force menos festivo e mais direto ao ponto.

CHEGA DE SAUDADE
Laís Bodanzky
[Brasil, 2008]

NOTA: 7,0

Trailer – Chega de Saudade

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